“No mundo das chanchadas pornô só existe lugar para os que sabem se arrumar, para os fortes. E neste mundo o sexo é a linguagem usada para levar à platéia o apelo por uma luta individual, descomprometida com o que quer que seja. Erotismo não existe nesses filmes. Pornografia, a rigor, também não. As histórias (e as imagens usadas para contá-las) são feitas só de grosserias. O ato sexual é uma demonstração de força e implica necessariamente na vitória de um sobre o outro: o experiente conquistador come a virgem, a velha prostituta come o donzelo. Os mais belos, fortes, inteligentes e experientes estão no poder. (...) “Se o tomate está caro compre massa de tomate”, recomendava o governo. A recomendação, traduzida em termos de cinema, em linguagem direta deu no seguinte: se cinema está difícil de fazer compre massa de cinema, a pornochanchada. A grosseria. O deboche aberto, daí, muito certamente, vem o sucesso destes filmes com uma extensa parcela do público entre o começo e o final da década de 70. É bastante possível que o espectador da pornochanchada fosse ao cinema procurar só a confirmação de que o que iria se passar na tela era coisa bruta, mal feita e sem sentido. Era uma coisa rudimentar. Era uma demonstração de falta de talento, de desesperança, de beco sem saída, de descrença na possibilidade de viver em ordem e progresso. À primeira vista não faz muito sentido esta reação do espectador. Mas quando se retira das pessoas a possibilidade de se relacionar afetiva e efetivamente com a sua realidade, que mais pode existir além da emoção embrutecida e de uma meio doida sensação de que a grosseria faz parte inseparável do nosso modo de ser?”
“As pornochanchadas eram malfeitas e jogavam com a má qualidade como uma atração para conquistar o público. O mal acabamento [sic] era um modo de se vingar (vingança inconsciente e nada eficaz, mas vingança) da propaganda oficial que cantava um super país com técnica moderna, mas de 200 milhas, estrada transamazônica, a maior hidrelétrica do mundo, o maior futebol do mundo, ponte Rio-Niterói e outras coisas assim, igualmente gigantescas e refinadas e longe, muito longe do mundo do consumidor da pornochanchada. Os filmes são mal feitos, solução intencional, resultado da falta de dinheiro, resultado da falta de criatividade. O espectador com toda a certeza sabia que estava indo ver uma coisa mal feita, e queria isso mesmo. Ser mal feito era uma atração.”
Falando da chegada do sexo explícito e do fim da era das pornochanchadas:
“A grosseria, é claro, não terminou, mas mudou de estilo. Perdeu a originalidade, porque em toda aquela mal feita, miserável e suja estupidez existia uma certa originalidade que não conferia nenhuma vantagem à pornochanchada mas fazia dela uma coisa à parte no mundo do cinema, bem nossa, bem daquele momento. Com o sexo explícito a chanchada pornô se tornou igual a qualquer outra chanchada pornô de qualquer outro país, subproduto que ocupa os espaços vagos entre os lançamentos de superproduções estrangeiras em todos os mercados. A chanchada pornô, mesmo, tal como existiu entre 69 e 79 desapareceu. Mas deixou marcas espalhadas por todos os cantos, pois depois dela nem um só filme feito para ser consumido pelo grande público deixou de ter uma cena de sexo - cena onde os personagens se devoram mesmo, agressivos um com o outro, como numa luta marcial, como numa competição de ginástica em que apenas um deles pode sair vencedor. Derrotados saímos todos nós.”
Trechos tirados de O cinema dilacerado, de José Carlos Avellar. Vinte e cinco anos depois, isso soa muito estranho, não é mesmo?
"Mário Chamie já afirmou, parece-me que com razão, que, no seu relacionamento com o público, a chanchada em geral teria como função basca levar o espectador a rir de si mesmo. Os espectadores se projetariam sobre os personagens grotescos destes filmes e ririam deles, possibilitando uma catarse que aliviaria o complexo de inferioridade de um público/povo que se despreza quando se compara aos países industrializados, que não se sente suficientemente ativo no processo histórico do seu país e, ao mesmo tempo, consolidaria o complexo de inferioridade. Frequente, depois de uma atual pornochanchada, o comentário: “Brasileiro é assim mesmo”. Frequente também o espectador que se diverte durante a projeção e renega o filme na saída. A paródia que pertencia ao cinema popularesco introduziu-se recentemente no cinema erudito, é um componente importante do Underground (como do Tropicalismo). (...) Parodiar, para usar palavras de Paulo Emilio, não é combater, mas sim debater-se no subdesenvolvimento."
Trecho do Cinema Brasileiro: Propostas Para Uma História, provavelmente o livro mais "pauloemiliano" dele (e um dos melhores).
Para aqueles que se perguntam "quando surgiu essa expressão 'novíssimo cinema brasileiro'?", existe uma resposta possível e precisa. Em 13 de agosto de 1970, Jairo Ferreira publicou o seguinte no jornal São Paulo Shimbum:
"Se ninguém mais sabe o que critica, muito menos saberão da autocrítica. E em Audácia! há uma autocrítica justamente de uma das tendências mais críticas do novíssimo cinema brasileiro."
Acho que já podemos aceitar sem muita discussão que os filmes a que o Jairo se referia representavam, de fato, um "novíssimo" estilo de cinema, compondo o que hoje costuma ser chamado de Cinema Marginal. Desde então, quantos "novíssimos" surgiram e quantos conseguiram de fato se distinguir do que veio antes e depois?
Talvez a pergunta boa seja outra. Admitindo o aspecto inevitável do tempo, em que gerações vão se sucedendo umas às outras, a dúvida que o uso dessa expressão realmente me provoca é a seguinte: em que medida há algo realmente novo surgindo a cada vez que ela é usada? e em que medida essa expressão serve apenas para mascarar uma espécie de preguiça novidadeira? Às vezes essas expressões genéricas e um tanto vazias me parecem querer esconder uma preguiça que torna os filmes distantes, em que o "novíssimo" de hoje serve para tomar o foco das atenções e sugerir uma falsa impressão de mudança de panorama.
Aí quem quer apenas falar (bem ou mal, não importa) pode usar expressões genéricas sem ter que observar cada um dos filmes e encarar de fato suas características - os aspectos que os aproximam e os distinguem uns dos outros.
"Em todas as épocas clássicas o artista aceitou o compromisso entre a encomenda social e o sonho individual: sua obra representava a encruzilhada entre o seu caminho solitário e o caminho coletivo dos outros, tornando-se ponto de encontro e festa de confraternização. E a própria autonomia da arte consiste em aceitar a imposição da encomenda, impondo a ela, simultaneamente, a sua magia.
O artista de poucos recursos, que nunca acerta ou nunca aceita a demanda de nenhum mercado ou de nenhum patrão, tem hoje como sempre o pleno direito de vender sabonete ou de morrer de fome; e esse privilégio é também direito inalienável do cineasta que não aceita compromissos com a empresa. Com uma diferença: o poeta pode expressar-se, guardar os seus poemas na gaveta e aguardar, por assim dizer, o veredicto da posteridade. O cine-diretor, porém, geralmente só se pode expressar se, desde o início, comprometer-se a trabalhar para os contemporâneos –e para o máximo de contemporâneos, pois a empresa não pode esperar a ovação da posteridade ou satisfazer-se com o aplauso de “igrejinhas”."
Tirado de Cinema: Arte e Indústria, do Anatol Rosenfeld. Não diria que concordo inteiramente, mas vale a discussão.
O filme dirigido pelo Nelson Pereira e pela Dora Jobim é uma delícia de ver, com alguns momentos bem emocionantes. Dá vontade de rever logo no momento em que terminam os créditos. É até difícil e perigoso falar sobre ele, pelo risco já apontado pelo próprio Jobim, o de que as palavras não dão conta, não atingem o que é mais importante. E esse gesto - o esforço de contextualizar e racionalizar - contraria essa ambição fundamental do filme, a de se sustentar apenas com a sensibilidade, com a capacidade estética, ou seja, esse maravilhamento que aquilo que a gente chama de arte pode nos causar. Uma pessoa que não se deixa afetar pela música de Jobim talvez simplesmente não consiga se envolver com o filme. O único método que o filme usa para desarmar isso é apresentar a própria música e mostrar os cantores e músicos como ícones dessa arte. O filme aposta na capacidade de encantamento da música feita por Antonio Carlos Jobim. A aposta é sinal de força: se você não gosta dessa arte, amigo, azar o seu.
Naquela sucessão de apresentações de grandes músicos, senti aquele afeto de fã ao reconhecer um show em que eu estava presente na platéia em três instantes diferentes do filme. Acontece logo na primeira imagem do filme, quando Gal Costa cantou Se Todos Fossem Iguais a Você na homenagem ao compositor feita pelo Free Jazz em 1993. Ok, o show foi filmado em SP e eu vi ele no Rio, mas isso não importa. Outro foi quando Nana Caymmi cantou Sem Você acompanhada pelo próprio Jobim - foi no Riocentro, num show que uniu as famílias Caymmi e Jobim no início da década de 1990. O terceiro foi no revéillon de 1995-96.
Mas alguns trechos têm uma pregnância incrível, histórica+estética. Alguns ficam na memória. Sobretudo as cantoras: de Judy Garland, cuja imagem é especialmente forte, a Gal e Nana. O registro da Silvia Telles é incrível, não fica a dever a nenhuma gringa das que aparecem. E ver a Ella Fitzgerald cantar a sua versão de Desafinado é... enfim, é impressionante. Além disso, aquelas imagens do Jobim tocando violão e cantando na TV americana, com direito ao acompanhamento de João Donato no piano e Tião Neto no baixo - sinceramente, espero que haja mais disso e lancem um DVD de A Música Segundo Tom Jobim com horas, dias, meses de material extra.
O Velho e o Novo, curtametragem que dirigi, vai ser exibido na Mostra de Tiradentes daqui a pouco mais de uma semana, na noite de 23 de janeiro. Fica o aviso para os amigos e interessados que puderem aparecer para conferir.
É um filme que tem no elenco a Carol Pucu e o Otoniel Serra, que aparecem na foto abaixo, e mais Augusto Madeira e Gregório Duvivier. A produção foi feita pelo Núcleo Patricia Bárbara e por mim; a fotografia é do Marcinho Menezes; o som do Luís Eduardo "Bum" Carmo; direção de arte da Flávia Candida e da Marcelle Morgan; montagem do André Sampaio; música do Lucas Marcier; eu fiz também o roteiro. É o ano começando, com algumas coisas bacanas prometendo acontecer.
A cada ano, sempre tem um monte de contratempos que impedem que a gente veja tudo que quer. Mas esse ano foi um pouco mais complicado, já que passei alguns meses fora do país, pesquisando e assistindo quase que apenas filmes experimentais feitos nos EUA. Então, perdi algumas coisas que muita gente considerou relevante. Isso logo se resolve, porém isso significa que, se feita daqui a mais tempo, essa lista seria diferente. Mas isso é óbvio e não importa.
Quem enxerga listas só sob a perspectiva da definição de cânones sempre se incomoda. Não há como tirar a razão, já que lista não é crítica, é apenas escolha. Mas fazer listas não se reduz a um esforço de definir eleitos, sempre sujeitos a revisão. Fazer uma lista tem um aspecto de exame de memória, de briga contra o esquecimento. E é divertido.
Dos que passaram em circuito no Brasil em 2011, meus prediletos foram:
- As praias de Agnes - A pele que habito - Caverna dos sonhos perdidos - O palhaço - Além da vida + dois que eu já tinha mencionado no ano passado e estrearam esse ano: Riscado e Cópia fiel. + um que ainda não entrou em circuito: O homem que não dormia. Espero que estréie logo. + outro a estrear: O Gerente. + um curta: Quando morremos à noite.
E vale registrar a tremenda alegria (o termo é inevitável) por ter visto o Felipe e a Marina estrearem nada menos que três filmes da nossa produtora DM Filmes.
Terminou de ser exibido na TV há cerca de duas horas. Um telefilme feito pela Casa de Cinema, uma empresa produtora independente, para a Globo - exatamente o que a gente gostaria que acontecesse todas as semanas em todos os canais. Não vi divulgarem muito a exibição, mas provavelmente porque eu não sou um espectador exemplar de TV. Cada um pode ter a opinião que quiser do filme, mas ele é mais uma prova de que há sim produtoras independentes capazes de produzir trabalhos que claramente não são inferiores ao que é produzido pelas próprias emissoras. Conforme determina a constituição no artigo 221, lei nunca cumprida...
Homens de bem tem como protagonista um araponga, um desses sujeitos que fazem espionagem e grampos no meio político de Brasília, servindo como braço oculto de gente da polícia federal. A trama é um fiapo que não faz muito sentido: duas operações policiais são feitas de modo ilegal para tentar encontrar provas de corrupção contra um político, num caso, e contra um empresário que pretende suborná-lo, no outro. O personagem do Rodrigo Santoro é aliado de um dos grupos da PF e arma uma cilada para conseguir provas contra o tal político.
O filme é meio esquisito, tem algumas coisas boas, mas muita coisa parece não dar certo. Me pareceu transmitir a mesma preguiça dramatúrgica e cênica do Saneamento Básico, em que os dramas íntimos dos personagens parecem não ter muita importância ou serem meio forçados para tentar criar alguma densidade; como no Saneamento, parece que o importante não são os personagens e seus dramas, mas a o significado metafórico do enredo, aquilo que o filme "quer dizer".
Essa sensação de uma falta de labor das questões dos personagens enfraquece o filme. A boa atuação do Rodrigo Santoro acaba mascarando boa parte dos problemas do personagem dele (como toda a subtrama sobre teste de DNA, que não é nada convincente), mas não sei se a Débora Falabella foi a escalação ideal para uma personagem que transita de femme fatale a mãe de família.
De todo modo, o que o filme tem de mais curioso e interessante é o movimento "errado" dele, esse esforço de falar de personagens e questões que são discutidos por todo mundo, que estão nas capas dos jornais. É bem revelador que o Furtado tenha se juntado ao Guel Arraes dentro da Globo e esteja direcionando vários esforços para esse tipo de empreitada - telefilmes a serem exibidos em rede nacional pela grande emissora. À parte seus problemas, o Saneamento Básico tratava explicitamente de um mal-estar por fazer filmes caros que são pouco vistos e não conseguem corresponder ao desejo do cineasta em intervir diretamente no cotidiano da sua sociedade. Assim como o Furtado, que começou fazendo curtas, o Arraes também se envolveu com cinema no princípio. Não é simples dizer o que move uma pessoa do cinema para a TV - pode ser o salário fixo, pode ser a produção contínua, mas pode ser também a ambição de atingir um número muito maior de pessoas do que o cinema consegue atingir hoje. Sob esse aspecto, é natural que um filme que queira tratar do ambiente espionagem e corrupção na Brasília dos dias de hoje queira chegar a um grande público - e a TV seja o caminho mais natural.
Isso cria uma situação meio paradoxal, porque o Furtado, como se sabe, é simpatizante assumido do PT e do atual governo, fazendo muitas e constantes críticas à imprensa e à oposição no seu blog. Já a Globo, digamos que não é bem assim, antes pelo contrário. Aí, no meio do filme, uma repórter que acompanha a operação policial ilegal que irá acontecer pergunta à delegada responsável: "O deputado é do governo ou da oposição?". A delegada responde com uma pergunta: "Qual é a diferença?". E a repórter arremata: "Para mim, nenhuma. Mas para o meu chefe pode ter."
Legal que a Globo teve esse fair play de topar exibir isso. Não sei se fair play ou cara de pau, mas legal, legal mesmo - ainda bem que foi discreto... Seja como for, essa origem ambígua pode revelar algo do filme e do seu movimento confuso. Talvez por isso o filme pareça não saber para que lado ir. Ele revela um grande mal-estar com a sensação de corrupção ampla e disseminada, mas no fim das contas o político é honesto, a PF é um antro de patetas.
Nesse sentido, talvez esse seja o filme possível para uma leitura imediata de "A privataria tucana", o tal livro tão falado. Pois é, eu li o livro. Vou ver se escrevo algo sobre ele aqui, mas isso fica para mais tarde.
Há pouco mais de dois anos, depois que estreou Moscou, eu publiquei um texto na Cinética em que fazia alguns comentários sobre a angústia criativa que o filme transmitia - a sensação de querer, de toda maneira, buscar algo novo, sem repetir procedimentos e resultados dos filmes anteriores. "Esse gesto de busca, de evitar a manutenção de uma postura granítica, indica a crônica insuficiência, para esse autor fantasmático, do que se fez antes. Se ao trabalho bastasse mostrar a beleza do encontro entre o cineasta e o outro, não haveria nada de errado em filmar centenas, milhares de vezes filmes similares a Edifício Master, encontrando a cada vez novas pessoas, novos outros", eu escrevi na época.
A maior parte dos textos sobre As Canções fala da repetição de procedimentos e da falta de novas ambições e invenções mostrada pelo filme - acho que com razão. Os procedimentos são similares aos filmes anteriores do Coutinho, não há essa sensação de busca de novos sentidos e formas para a representação documental. As canções parece ser território seguro, para alguns até repetitivo demais. Aí eu discordo um pouco. O procedimento é o mesmo; nesse filme Coutinho não faz questão de ser moderno, inovador. Mas seu procedimento aponta o mundo, aponta as pessoas - e, como os impressionistas já nos revelaram há mais de um século, a cada vez que olhamos para o mundo ele se mostra um pouco diferente, com novos mistérios se revelando. Como (quase) sempre, Coutinho apontou sua câmera e suas questões para pessoas falarem de si. Através da sua estratégia já nossa conhecida, essas pessoas revelam histórias pessoais e nos deixam ver suas emoções, em todos os casos relacionadas a amores profundos, aflorarem por alguns instantes. Quem for em busca de um filme formalmente inovador talvez se desaponte com As Canções. Mas, se o filme nos permite sentir em nós com alguma força essas emoções partilhadas por outros, ele não precisa de nenhuma defesa além de lembrar que a vida tem seu encanto.
Como se pode conferir no levantamento feito pelo Dicionário Cravo Albim, entre 1975, ano do LP Lugar Comum, e 1996, ano do CD Coisas Tão Simples, João Donato fez participações e arranjos em vários discos de colegas, mas lançou apenas um disco seu - o Leilíadas, gravado ao vivo em 1985 (infelizmente até hoje nenhum selo se animou a relançar em CD). Então, vale comemorar que algumas gravações dessa época tenham aparecido no youtube.