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Um livro de entrevistas de Buñuel - alguém tem que editar isso no Brasil!



Recentemente foi lançada uma nova e muito bonita edição do Meu Último Suspiro, o livro de memórias do Buñuel que já havia sido lançado no Brasil na década de 80, co-escrito em parceria com o J.C Carrière. É um livro sensacional, um dos melhores textos autobiográficos que eu já li, justamente por não ater apenas a relatos de fatos - nele, Buñuel fala de tudo, a ponto de nos ensinar a sua receita para fazer um Dry-Martini realmente seco (ele não pingava nem sequer uma gota de vermute - apenas passava as pedras de gelo na bebida e depois as punha de volta no congelador, na véspera de usá-las no drink). No entanto, até por conta desse estilo escolhido, o cineasta acaba falando relativamente pouco de seus filmes, dedicando poucas palavras a vários deles.

Por isso, aproveitando o ensejo dessa reedição da autobiografia, cabe avisar às editoras que há vários anos foi publicado na Espanha o livro definitivo em que ele fala sobre a sua obra: é esse Buñuel Por Buñuel cuja capa escaneei e está publicada acima. Trata-se de um livro de entrevistas em que o diretor fala sobre toda a sua carreira, além de discorrer sobre algumas das suas obsessões: catolicismo, Sade, insetos, crueldade, anões, surrealismo, pés femininos... Nestas entrevistas, Buñuel se mostra capaz de reconhecer quando não gosta de algum filme que fez (como, por exemplo, El Río y La Muerte ou La Fièvre Monte à El Pao), diz que resolveu fazer cinema depois de ver A Morte Cansada (um dos melhores filmes do Fritz Lang, certamente), fala que adorava Buster Keaton e até conta-nos sobre o motivo para ter deixado de trabalhar como assistente de direção de Jean Epstein.

É um texto com a grandeza e o humor do Buñuel. Pra quem duvida, seguem abaixo alguns pequenos trechos:

"Eu tinha ideias e gostos firmes na relação com o cinema. Estávamos nos estúdios de Epinay e no dia seguinte sairíamos para filmar algumas externas. Epstein me disse então: "Buñuel, Abel Gance virá agora para fazer alguns testes, você pode ficar aqui para ajudá-lo". Eu respondi: "Se se trata de Gance, não me interessa". "Como assim?" "Eu não gosto desse cinema!". Então Epstein disse: "Que um pequeno tonto como você fale assim de um gigante como Gance...", e acrescentou: "Buñuel, já terminamos. Posso levá-lo de carro a Paris, se você quiser". No caminho, foi me dando conselhos: "Já notei que você está muito surrealista. Cuidado com eles, são muito loucos"."


"Como surgiu o projeto de Um Cão Andaluz?
Em 1927 ou 1928 eu estava muito interessado em cinema. Apresentei em Madri uma sessão de filmes franceses de vanguarda. Esatavam no programa Rien que les heures, do Cavalcanti, Entr’acte, do René Clair, e não me lembro o que mais. Foi um sucesso. No dia seguinte, Ortega y Gasset me chamou e me disse: "Se eu ainda fosse jovem, me dedicaria ao cinema". Juan Ramón Jiménez também ficou impressionado. Era uma tremenda revolução, porque eles já conheciam os filmes norteamericanos, mas o cinema de vanguarda ainda não havia chegado à Espanha. Em seguida, passando o natal com Salvador Dalí em Figueres, sugeri a ele que fizéssemos um filme. Dalí me disse: "Eu ontem sonhei com formigas que entravam na minha mão". E eu: "E eu sonhei que cortava o olho de alguém". Em seis dias escreemos o roteiro. Estávamos tão sintonizados que não havia discussão. Trabalhamos recolhendo as primeiras imagens que nos vinham à cabeça e, por outro lado, rechaçávamos sistematicamente tudo que vinha da cultura ou da educação. Tinham que ser  imagens que nos surpreendessem, que os dois aceitássemos sem discutir. Por exemplo: a mulher agarra uma raquete para defender-se do homem que quer atacá-la. Então ele olha ao redor, buscando algo e... (agora estou falando com Dalí): "O que você vê?" "Um sapo voando" "Ruim!" "Uma garrafa de conhaque" "Ruim!" "Então vejo duas cordas" "Certo, mas o que vem atrás das cordas?" "O cara puxa elas e cai, porque arrasta algo muito pesado" "Ah, é legal que ele caia" "Nas cordas vêm duas abóboras secas" "E o que mais?" "Dois padres maristas" "E depois?" "Um canhão" "Ruim! É melhor vir uma poltrona luxuosa" "Não, um piano de cauda" "Ótimo, e em cima do piano um burro... não, dois burros podres" "Magnífico!"... Ou seja, fazíamos surgir imagens irracionais, sem nenhuma explicação."


"Ouça, Don Luís, voltando a Sade, você nunca viu nada de reprovável nas obras dele?
Por quê?
Bem, alguns vêem Sade como o homem que justificou a priori os campos de concentração e os crimes nazistas.
Mas, homem, são coisas diferentes. Sade só cometia crimes na sua imaginação, como forma de libertar-se do desejo criminal. A imaginação pode permitir-se todas as liberdades. Realizar em ato é outra coisa. A imaginação é livre; o homem, não."




"(Sobre Robinson Crusoe) A relação entre Robinson e Sexta-feira evolui ao longo do filme. Primeiro é apenas uma relação entre amo e criado, mas depois torna-se algo diferente, mais próximo do companheirismo.
Me interessava esta evolução, mas é claro que eu não quis fazer um discurso sobre as relações entre senhor e escravo ou entre civilizado e selvagem. Não segui um parti pris, não quis generalizar, nem deduzir umas ou outras teses sociais. Um autor pode ter dois modos de conduzir uma narração: pode impor uma direção intelectual ou moral, ou pode deixar que as coisas surjam segundo vão se sucedendo, e cada um pode senti-las ou pensá-las. Nunca me interessou - mesmo que em algum momento tivesse sido essa a proposta - filmar, por exemplo, um filme anticolonialista. O que eu posso é fazer um filme em que um senhor chega ao Taiti ou a Samoa ou às Ilhas Fiji e encontra seres surpreendentes que lhe dão água de coco para beber e lhe cobrem de flores. Isso me agrada e sigo adiante com a narração, e no final das contas, como não sou colonialista, isso acabará ficando evidente sem que eu precise demonstrar. Não faço filmes de tese."

"Disseram que você fez Subida ao Céu pensando no neo-realismo italiano.
Não. O filme que fiz que tinha mais relação com o neo-realismo italiano seria, certamente, Os Esquecidos. Eu havia visto antes Vítimas da Tormenta (Sciuscià), de De Sica, e o célebre O Caminho da Vida, um filme soviético sobre a regeneração de jovens infratores. Gostei muito de Sciuscià, mas a princípio o neo-realismo não me agrada. Gosto apenas de alguns dos filmes desta escola: Umberto D, Ladrões de Bicicleta e alguns do Fellini. Eu acredito que não deve haver somente uma dimensão do real, mas todas as dimensões possíveis."



"Teriam razão os que vêem Nazarín como um filme cristão e dizem que você é um cristão disfarçado?
Pertenço, e muito profundamente, à civilização cristã. Sou cristão pela cultura, mesmo que não seja pela fé. Com relação a Nazarín, posso lhes dizer que, se eu estivesse tão próximo da cultura budista como estou do cristianismo, talvez pudesse fazer um Nazarín budista. Mas, como lhes disse, a cultura oriental não me atrai muito. Já sei que Nazarín pode ser visto até como um filme "catolicíssimo". Em Cannes houve três votos a favor e cinco contrários quando se propôs que o filme recebesse um prêmio católico.Um dia, Federico Amérigo, o produtor executivo do filme, me disse que eu deveria ir a Nova York porque o cardeal da cidade iria dar um prêmio ao filme. Eu me neguei. Não é um filme católico ou anticatólico. O protagonista não pretende evangelizar, não quer converter ninguém. Ele quer ir para o interior, viver de caridade, mas é apenas um missionário, não quer fazer seguidores. Claro, ele é impulsionado pela sua fé, sua ideologia. Mas o que me comove é o que se passa com ele quando a ideologia fracassa, porque sempre que Nazarín intervém em alguma situação, mesmo com a melhor das intenções, só provoca conflitos e desastres. Há um episódio, que não está no livro original de Galdós, em que Nazarín se oferece para trabalhar em troca apenas de comida. Os outros trabalhadores chegam e dizem a ele: "Com isso você está prejudicando a todos nós - vá embora daqui!". Sem se dar conta, ele só está criando problemas. Ao capataz não interessa perder um trabalhador tão barato e, por isso, ele discute com os outros. Quando Nazarín já no seu caminho, distanciando-se de lá, ouve-se um disparo. O incidente talvez tenha provocado até uma morte, sem que o bondoso Nazarín sequer saiba disso."


"(Sobre Belle de Jour)Já sei que é inútil perguntar o que há na caixinha que o cliente asiático mostra a Sévérine.
(Rindo) Já sei que a caixinha inquieta, ainda mais por conta do zumbido que se escuta. Uma outra prostituta foge do asiático por causa da caixinha, mas Sévérine olha no interior dela e aceita o que o cliente propõe. Eu mesmo não sei o que tem na caixinha. Deve ser algo extraordinário, uma coisa útil para uma perversão inimaginável. Ela produziu mais curiosidade do que eu podia imaginar."


"Seus roteiros têm muitas anotações técnicas?
Ao contrário, são raríssimas. Não levo o roteiro para o estúdio, só um esboço da cenografia, uma ideia geral de onde estarão os móveis, por exemplo. Quando vejo o cenário, indico ali mesmo os movimentos dos atores e da câmera. Procuro fazer com que os enquadramentos seja funcionais e não chamem a atenção por si mesmos. Quando vejo filmes em que se quis "impressionar" com a câmera, saio da sala. As proezas técnicas me deixam frio."




O livro ainda pode ser achado no site da Plot Ediciones, para quem quiser arriscar uma encomenda transatlântica. Mas deixo aqui registrada a sugestão: alguma editora precisa publicar uma boa edição desse livro no Brasil. Urgentemente.



Escrito por daniel às 00h44
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o hit musical do fim-de-ano

Na versão do Jorge Ben:



E na do Tim Maia:



São duas lindas gravações. A do Jorge Ben é insuperável, com esse ritmo de samba-soul dolente, manhoso. Mas a do Tim também é genial, com essa bateria eletrônica picareta e o vozeirão que só ele tinha.



Escrito por daniel às 00h16
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Bezico é pé-quente!





Agradeço muito aos jogadores do time do Flamengo por terem dado ao meu filho a alegria de ser hexacampeão apenas cinco dias depois de ter nascido. A eles e ao técnico Andrade, herói que nunca foi de fazer farofa.





Eu bem que sabia que esse papo de que o Grêmio ia "entregar" a partida por conta da rivalidade com o Inter era lorota. Afinal de contas, essa rivalidade é entre torcedores: os jogadores querem mais é ficar ricos com suas carreiras, e tirar um título do Flamengo em pleno Maracanã seria uma baita ajuda pra isso. Ninguém do time vai ficar a vida inteira no Grêmio, e uma vitória hoje traria notoriedade a todos. Além disso, o Grêmio estava na posição mais confortável do mundo: se perdesse, era o resultado normal fora de casa; se vencesse, humilhava o elenco rubro-negro. Perdeu com honra e com esforço; perdeu porque o time do Flamengo é superior mesmo.




O time do Flamengo começou devagar, mas acabou engrenando no meio do campeonato e deu uma disparada que fez a sua trajetória de campeão. Foi capaz de se reerguer depois de perder os dois líderes do meio-de-campo, primeiro o craque Íbson e depois o Kleberson. Mas o time já vinha mantendo um elenco bom há bastante tempo, com um bom goleiro, dois bons laterais e, desde a chegada do Adriano, um artilheiro. Daí, o grande acerto foi juntar ao grupo os estrangeiros Petkovic e Maldonado e o zagueirão Álvaro. Pet acabou se transformando no craque do time, o jogador fundamental para trazer mais inteligência e e cara de campeão.



Mas o time inteiro é bem guerreiro, e esse é o principal mérito dele. Nesse sentido, talvez a perda mais sentida tenha sido a do Maldonado - que, junto com o Willians, reorganizou o meio-de-campo do Flamengo. Vale lembrar que o Willians foi o maior ladrão de bolas do campeonato.




Pra garantir o resto, bastou a união do grupo e a qualidade de bola dos jogadores. Mesmo com altos e baixos (e, é preciso reconhecer, já sob o risco de entrar numa fase de declínio nos últimos jogos), o Mengo teve bola pra atropelar seus adversários. Ah, e isso também precisa ser lembrado: embora o Mengo tenha jogado o melhor futebol do campeonato, graças sobretudo aos melhores jogos de Adriano e Petkovic, o título só veio para nós porque os adversários diretos se mostraram incapazes de vencer seus jogos. Antes de ter que torcer pelo Goiás, pelo Grêmio ou de ter a cara-de-pau de reclamar da arbitragem (logo o pessoal de São Paulo!?), seria mais adequado que São Paulo, Palmeiras e outros tivessem mostrado mais eficiência em campo. Perderam para o Flamengo por um simples motivo: são times tecnica e esportivamente inferiores. O único time que tinha gabarito pra ser superior ao Mengão era o Inter - mas cometeu o vacilo de vender o Nilmar no meio do campeonato, e esse tipo de coisa não se faz impunemente. Fora o time gaúcho, convenhamos, ninguém teve mais bola que o Flamengo nesse campeonato.
















Deixo aqui registradas, então, a alegria e a gratidão para com os heróis desse título. Foi um presentão pro meu filho.

Agora vamos ao Hepta!
E rumo à Libertadores-2010!



Escrito por daniel às 20h04
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Bernardo






Bezico se empolgou com a chance de ver o time vencer o Brasileirão e tratou de adiantar sua chegada.
Na segunda foto, o rapaz é paparicado pela avó enquanto a mãe descansa.
2009 está sendo um ano porreta, e hoje nos chegou a jóia mais preciosa, a maior alegria.
Vou tentar manter as atualizações do blog, mas acho que dá pra entender se elas ficarem um pouco mais esparsas. Enquanto isso, divido aqui com os leitores a imensa alegria da manhã de hoje.



Escrito por daniel às 13h26
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sobre o Brasileirão e as brincadeiras sobre o Grêmio entregar o jogo

Antes de tudo, todo cuidado é pouco. O Flamengo não pode deixar esse título ir embora por arrogância, oba-oba nem nervosismo, como já aconteceu: é preciso ganhar do Grêmio, e o jogo ainda nem começou.

Mas, como todo mundo já sabe que os gremistas deram início a uma brincalhona campanha (simpaticíssima, diga-se) para que o time "entregue" o jogo, de modo a evitar a possibilidade de que o rival Inter seja campeão, vale fazer uma lembrança fundamental. Meu time é líder do campeonato no momento, e por isso posso dizer isso sem parecer "choro de perdedor": isso só acontece porque o campeonato é de pontos corridos.

Os leitores mais antigos desse blog já sabem que eu não defendo a volta do mata-mata clássico, nem a manutenção do esquema de pontos corridos, mas sim o sistema de dois turnos que sempre foi usado nos campeonatos regionais: cada turno tem um campeão e depois os dois se enfrentam na finalíssima. Seria ainda mais emocionante e ninguém poderia reclamar que perdeu um campeonato porque o time X entregou um jogo ou um time Y recebeu uma mala branca.

De todo jeito, enquanto vale a fórmula de pontos corridos, o Flamengo não tem que se preocupar com as posturas dos times adversários, tem é que entrar pra jogar a sério e ganhar o jogo. Vamos tratar de ser campeões!



Escrito por daniel às 20h32
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falta pouco

No plano pessoal, a semana promete ser de muita ansiedade e, depois, de bastante trabalho. Já no plano clubístico vai ser só ansiedade mesmo.

Agora falta pouco. Mas o Mengo, pra ser campeão, ainda vai precisar passar pelo Grêmio. Nada está ganho até agora.

Mas é muito bom chegar à liderança no final do campeonato. E o time está fazendo por merecer: Petkovic, Léo Moura, Adriano, Bruno e outros estão a um jogo de se consagrarem de vez no Mengão. Espero que levem isso a sério e nos dêem essa alegria - a todos nós que acompanhamos o campeonato desde o início e, sobretudo, a quem está apressando a chegada pra poder comemorar com a gente.




Escrito por daniel às 03h22
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Arraste-me para o inferno



Eu e Carol vimos essa volta do Sam Raimi aos filmes de horror e os dois nos divertimos com o filme. Achei bem melhor do que qualquer um dos que ele fez pra série Homem-Aranha. É claro que todo mundo comparou o filme com o já clássico Evil Dead, e de fato o próprio filme faz questão de mostrar algumas referências para os que lembrarem bem dos detalhes do filme de 1981. Mas, dos filmes do Raimi, na verdade o que Drag Me To Hell mais me fez lembrar foi Darkman, que é um pouco menos conhecido, mas tem, além do mesmo ritmo frenético (que, na verdade, é algo comum aos melhores filmes do diretor), o mesmo clima de corrida contra uma maldição. Mas o que mais me agradou em Drag Me To Hell foi a fé na atmosfera fantástica e delirante que se impõe ao filme. A protagonista não tem chance de se livrar da maldição se conseguir escapar de um lugar (como uma casa) ou de sua loucura - no enredo, o delírio toma a forma de espírito e invade a pretensa realidade de forma irreversível, e assim ambos se misturam sem pudores narrativos. Essa crença que o filme apresenta traz a ele um entusiasmo notável, que me pareceu bastante cativante.

Enfim, mesmo que eu não goste tanto dos filmes do Sam Raimi financeiramente mais ambiciosos, o cara tá mais é certo em fazer o pé-de-meia. Mas acho que ele se dá muito melhor quando pega projetos mais simples, que investem na ambientação típica dos filmes de gênero. Vendo Drag Me To Hell eu pude lembrar da fé que a gente fazia na carreira dele lá pelos meados dos anos 80, quando os Evil Dead e Darkman eram cultuados. Oxalá ele consiga fazer um filme bom como esse de vez em quando, entre um e outro que sirvam pra poder garantir o leite dos filhos e até o uísque dos netos.




Escrito por daniel às 07h09
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Woody Allen e Cinema Português: duas mostras notáveis com cópias em 35mm

Acabei nem avisando aqui a tempo, por conta da eterna correria entre Rio das Ostras e Rio, mas na quinta-feira passada fiz a mediação de um debate realizado na edição carioca dessa mostra A Elegância de Woody Allen, que está acontecendo nos CCBBs de Rio e São Paulo. Foi muito legal o debate, com a presença na mesa da Mariana Baltar, do Arthur Dapieve e do Gustavo Spolidoro, e também foi bacana notar que a mostra está fazendo um sucesso tremendo, pelo menos aqui no Rio de Janeiro: o debate ficou bem cheio e a sessão anterior, em que foi exibido Annie Hall, estava lotada.

A produção de A Elegância de Woody Allen também editou um catálogo gigantesco e muito bom sobre toda a carreira do ator, cineasta e escritor, catálogo para o qual escrevi um texto sobre Hannah e suas irmãs (e também arquivei aqui). Mas o que me parece mais admirável na mostra é o cuidado em apresentar todos os filmes nas condições mais adequadas, com exibição em cópias 35mm. Foi muito bom poder ver Annie Hall em película numa sala de cinema lotada.

Então, fica aí a dica: essa é uma boa chance pra rever os filmes prediletos da carreira do cineasta careta (après Veloso) mais querido pelos cinéfilos brasileiros. A programação está aqui.

E nessa terça-feira vai começar no Mam uma mostra de filmes portugueses também notável. Primeiro, porque vai reunir alguns dos principais filmes da geração do chamado "Novo cinema português", que se fez entre o início dos anos 60 e meados dos anos 70. São filmes praticamente desconhecidos no Brasil até hoje, com a possível exceção do filme de João César Monteiro incluído na mostra, Quem espera por sapatos de defunto morre descalço. Como curiosidade, vale lembrar que alguns dos diretores dos outros filmes da mostra foram também co-realizadores do filme coletivo As Armas e o Povo (1975), de cujo grupo participou o viajante Glauber Rocha. Além disso, essa mostra tem o mesmo mérito da que foi comentada nos parágrafos anteriores: todos os filmes serão exibidos em película, com cópias cedidas pela Cinemateca Portuguesa. Ou seja, a oportunidade é rara e é rica.

A programação, que inclui curso e debates, vai acontecer no Mam do Rio somente de terça a sexta desta semana - e pode ser conferida aqui.



Escrito por daniel às 04h42
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uma opinião sobre Herbert Richers (1923 - 2009)

"o Herbert foi o melhor produtor que eu tive, dava sempre carta branca. Ele tinha extrema confiança, era o produtor ideal".



Escrito por daniel às 23h43
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Jorge Ben Jor na Trip

A entrevista que a revista publicou esse mês com o gênio total está disponível na internet: aqui.



Escrito por daniel às 05h41
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um cineasta quer que as pessoas vejam o filme que ele fez

Com raras exceções, qualquer cineasta faz seu filme com o desejo de que o maior número possível de pessoas o veja. É preciso lembrar disso, porque ainda há tolos que insistem no lero-lero de que "os diretores fazem filmes para o próprio umbigo" e etc.

Pois bem: Guilherme de Almeida Prado, o diretor de Onde Andará Dulce Veiga, resolveu passar à ação para fazer seu trabalho ser visto nesses tempos em que o esquema de distribuição está em crise. O que fez ele então? Fez o mesmo que andam fazendo centenas de diretores de curtas amadores: por conta própria, disponibilizou o filme para download na internet e divulgou através de comunidades do orkut. Dá-lhe!




Certamente não foi o primeiro caso - de cabeça, lembro-me agora do caso do Bruno Vianna, que fez isso com o seu Cafuné, cujo download ainda permitia que o espectador modificasse o filme (o que, sinceramente, eu acho uma bobagem - mas aí é uma outra conversa). Mas, além da diferença que existe entre os valores de produção do Onde Andará Dulce Veiga - que teve um orçamento bastante razoável e vários atores de prestígio -  e os de todos esses curtas que são upados no Vimeo, há ainda outra coisa que separa a atitude de Almeida Prado das similares: o desencanto com o esquema antigo de lançamento de DVDs. Ainda que seja um filme forte e com boa dose de ousadia - coisas que, como a gente sabe, costumam atrapalhar a carreira comercial de um filme brasileiro e provocar comentários irados na internet - Onde Andará Dulce Veiga tem apuro técnico e elenco famoso suficientes para entrar nos mesmos esquemas dos nossos filmes, digamos com alguma ironia, "industriais".

Mas não foi isso o que aconteceu - Almeida Prado explicou sua atitude na comunidade orkutiana "Filmes brasileiros (download)" da seguinte forma: "Como não existe a menor chance que eu consiga lançar o DVD do meu filme...". Ou seja, pelo que escreveu o diretor isso se deve ao mercado de DVDs estar fechado a filmes como o seu. Pois está mesmo, e isso se deve à tal crise que mencionei. Embora Manoel Rangel, o presidente da Ancine, tenha me dito que o mercado de DVDs ainda é imenso, a verdade é que ele está encolhendo muito, e por conta disso as distribuidoras estão investindo cada vez menos e cortando sua folha salarial. Por isso, um filme que tem no elenco atrizes famosas como Maitê Proença e Carolina Dickermann pode acabar não sendo lançado nas locadoras. Nesse caso, se o diretor quer que seu filme seja visto e não há nenhum contrato com distribuidora que o impeça de botá-lo na web, esse parece ser o melhor jeito de difundir o trabalho. Almeida Prado foi o primeiro a reconhecer a questão e pôr mãos à obra.

No momento, a melhor versão disponível para download, considerada ótima pelo próprio diretor, está dividida em duas partes, totalizando cerca de 1,5 gb: a primeira parte está aqui e a outra está aqui.



Então, pra quem ainda não viu fica a dica: vale a pena baixar e conferir Onde Andará Dulce Veiga. Baseado num livro do Caio Fernando Abreu (que eu devo confessar que ainda não li), o filme é um verdadeiro OVNI dentro do panorama dos filmes brasileiros por todo o seu grau de elaboração, pela preocupação em recriar e rever alguns signos fortes (o classicismo da bossa, o artificialismo do rock 80) dentro de uma outra perspectiva; e justamente por essas razões acaba sendo um filme notável, emocionante mesmo, pelo menos para os que aceitarem entrar na sua viagem. É uma viagem cinematográfica onírica, memorialista e recriadora - uma viagem que não tem nada de verista, realista, naturalista ou coisa parecida. Por isso, exige do espectador que tenha olhos e cabeça livres para uma investigação sobre o desaparecimento de musas e sobre a mudança das gerações: das sensibilidades, dos gostos e dos gestos.

Nesse sentido, é bastante curioso o uso que o filme faz da canção Meditação, o clássico de Jobim e Newton Mendonça. Ouve-se diversas vezes a melodia da canção ao longo de Onde Andará Dulce Veiga, alternando um arranjo tradicional com outro em ritmo de rock -, só que a letra cantada não é a original, mas outra; que, curiosamente, parece ter sido feita a partir de uma tradução da versão em inglês da canção, ou seja, é como se fosse uma versão filtrada por traduções. Dessa forma, ao somar Jobim e rock, metrópole e floresta, a investigação não-jornalística (ao mesmo tempo cultural e policial) acerca do destino de Dulce Veiga acaba se tornando uma investigação sobre os caminhos e descaminhos estéticos que definiram o percurso traçado dos modernos-clássicos anos 50 aos pós-modernos anos 80 e ao pós-tudo e junto-a-tudo de nossos dias. Não sei se isso já estava presente no livro do Caio Fernando Abreu, mas no filme isso é feito com um desejo de (re)invenção que dá uma força notável ao trabalho.



Vamos ver então se a facilidade no acesso através da web faz Onde Andará Dulce Veiga provocar mais algumas ideias por aí.

Com relação ao gesto de difundir o filme pela internet, ele me parece ser bastante louvável - bem que o nosso querido ministério da cultura poderia deixar de se fazer de avestruz e começar a estimular (ou, em certos casos, como os de clássicos e acervos das cinematecas, simplesmente pôr em prática) iniciativas idênticas à do Almeida Prado.



Escrito por daniel às 23h11
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anotações sobre a revista "Tiempo de Cine", dos anos 60

Conforme eu tinha escrito alguns posts abaixo, seguem aqui algumas anotações sobre a revista argentina Tiempo de Cine, que foi criada pelo grupo que mantinha o CineClub Nucleo - que chegou a ter um jornal com seu próprio nome por alguns meses antes de criar a revista.

- Antes de tudo, é preciso dizer que a Tiempo de Cine foi a que teve o melhor cartunista em sua redação (pelo menos até que alguma revista de cinema contrate o Laerte): era ninguém menos do que Quino, o próprio.
É pena que a biblioteca não tenha permitido que eu tirasse xerox desse material de arquivo - havia alguns cartuns muito bons do mestre, ainda bem no início de carreira. Pra dar apenas um exemplo, logo na primeira edição: o desenho mostra um sujeito com uma tesoura numa mão e a película na outra, onde se vê que trata-se de uma cena de sexo, e o sujeito em questão está gritando para um assistente: "separe trinta segundos de ondas do mar batendo nas rochas". Craque é craque - e em cada edição tinha um cartum original do Quino, o que não é pouca coisa.

- Da mesma maneira que a predecessora Gente de Cine, a Tiempo de Cine publicou material traduzido. Mas dá pra perceber que a ideia de apresentar "material original" era uma questão para eles, mais do que para a outra revista - logo no primeiro número os leitores são avisados de que a revista seria feita sobretudo por textos escritos especificamente para ela, com raras exceções que seriam explicitamente indicadas. Ou seja, a revista prometia que não seria apenas uma coletânea de textos de outras origens. Ainda assim, a tendência ao cosmopolitismo até hoje celebrada pelos portenhos se fazia presente de forma respeitável, com contribuições de correspondentes em outros países - por exemplo, cada edição apresentava um texto novo de George Fenin relatando o que estava sendo feito de novo nos EUA, discutindo desde a Hollywood de Cleopatra e dos filmes de Nicholas Ray até o cinema underground dos irmãos Mekas, passando por todo o cenário das produções independentes feitas desde Shadows. Também na primeira edição (de agosto de 1960, como já disse) há um texto sobre o cenário do novo cinema português, em que, em meio a alguns filmes citados de jovens realizadores, o redator Fernando Duarte afirma que a "obra máxima do cinema português" ainda era um filme de 1931 chamado Doiro, Faina Fluvial, o documentário de estreia de Manoel de Oliveira - que na época de 1960 estava distante da produção de filmes, para preocupação do autor do texto. Mal sabia ele.

E os críticos da redação eram antenados, embora eventualmente cometessem equívocos históricos, como pode acontecer com qualquer um - descartam Pierrot le Fou como um sinal de dacadência, por exemplo. Em compensação, publicam o roteiro de Hiroshima mon Amour, produzem análises da carreira do Satyajit Ray. Já em 1964, apontam de imediato a força de Deus e o Diabo... e de Vidas Secas, que tem foto publicada na contracapa da revista.

- Ainda acerca dessa tendência (ou, no mínimo, essa disposição) para o cosmopolitismo, isso também pode ser conferido na página que a revista dedica a listar outras publicações - algumas também argentinas, mas a maior parte de outros países (com indicação de onde achar em Buenos Aires). Falam de revistas e jornais uruguaios, espanhóis, franceses (a Cahiers e a Présence du Cinéma), italianos (entre outros, a Cinema Nuovo editada pelo Guido Aristarco, que também escreve artigos exclusivos para a Tiempo de Cine) e brasileiros (citam as publicações Cine Clube e Revista de Cinema - olha aí Rafael, conforme a gente tinha imaginado...).

- Mas a grande diferença da Tiempo de Cine para a revista que eu tinha comentado antes é a relação com a produção de filmes na Argentina - e nisso eu devo dizer que simpatizei geral com os caras. Porque eles tinham como ponto de partida, desde a primeira edição, que deviam tomar posição e fazer escolhas. Os críticos da revista deixavam bem claro quando não gostavam de um filme argentino - mas não se refutam a discutir, a analisar. E, quando gostavam, iam para a linha de frente. São, de modo geral, bastante simpáticos com os realizadores da nova geração, cujos filmes eram notadamente menos convencionais do que os da geração anterior e também mais influenciados pelo cinema dito moderno feito na Europa.
(até hoje, muitos deles são, digamos, acusados de terem produzido filmes que apenas reproduziam  cacoetes de linguagem da Nouvelle Vague - o que, pelo menos acerca dos filmes que eu vi, me parece ser uma crítica cega, bem equivocada).
Pois a Tiempo de Cine abriu espaço para falar de todos os filmes que estavam sendo feitos na Argentina. É fácil notar quais eram os realizadores mais queridos pela redação, não apenas pelos textos dedicados a seus filmes como também pelas entrevistas que davam sobre projetos futuros - é o caso de Rodolfo Kuhn, David José Kohon, Martínez Suárez e mais alguns outros. Realizadores mais velhos como Lucas Demare ou René Mugica são tratados às vezes com uma impressionante agressividade verbal - em outras vezes, reconhece-se algum valor nas suas produções de fim de carreira (por exemplo, a crítica de El Reñidero, de Mugica, reconhece que o filme é interessante, afirmando que é de longe a melhor produção dele até então).

Esse interesse pelo cinema produzido no país é constante e bastante investigativo: há espaço para crítica de curtas em várias edições, os editoriais sempre tratam de questões referentes ao INC ou à censura, vários artigos discutem as mudanças que vão se passando no cenário, entre crises e eventuais grandes filmes, e a partir de 1962 a revista passa a ter uma seção fixa, a "De lo nuestro", para criticar a todos os filmes argentinos que são exibidos, mesmo os que não entram em cartaz - críticas que, como já falei, não se fazem de rogadas em ser severas; mas nunca pecam pelo silêncio ou pela covardia em tomar posição (no final de 1962, um dos críticos afirma que a produção do ano foi um desastre no plano estético, citando os nomes dos filmes a que se refere). Além disso, em 1963 a revista publica um extenso panorama dos novos realizadores.

E, ao mesmo tempo, a redação apresentava o "bom gosto" comum à crítica daquele período, com seus componentes e editores mostrando-se envergonhados e horrorizados diante do sucesso dos filmes do diretor e produtor Armando Bo, que apresentavam a sua mítica esposa Isabel "Coca" Sarli (ex-miss Argentina) em cenas com figurino bastante reduzido, até mesmo inexistente. Naquele momento em que havia sido criado o Instituto Nacional do Cinema, as notas atribuídas pelos jurados aos filmes tinham consequências diretas sobre os financiamentos dos filmes seguintes dos realizadores. Pois a Tiempo de Cine deu um piti no seu editorial quando o filme de Bo ...Y el demónio creó a los hombres (uma piada óbvia com o filme de Roger Vadim com a Bardot) ganhou a nota máxima (nota A) e o filme Dar La Cara, de Martínez Suaréz, ganhou uma nota menor (ganha B). E isso não ficou restritou ao editorial: no seu cartum, Quino desenhou os jurados vendo um filme ser projetado com uma cena com uma mulher de seios de fora; eles ficam babando e dizendo "ahhh!!!" e o secretário, de costas, anota numa prancheta: "nota A".



Escrito por daniel às 06h04
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Michael Jackson, Pajarito e o crepúsculo dos ídolos

Foi uma coincidência que teve um efeito bem forte pra mim: vi em dias seguidos Pajarito Gómez, Una Vida Feliz, filme argentino de 1965 dirigido pelo Rodolfo Kuhn, e This is it, filme sobre os ensaios do show não-realizado do Michael Jackson. Olha, a relação entre os filmes foi bem punk.

Pajarito Gómez é um filme muito bom, que inclusive foi exibido recentemente no Brasil (fez parte daquela mostra "Do novo ao novo cinema argentino", que aconteceu nos CCBBs em setembro) e é fácil de achar na internet (está, por exemplo, no fabuloso Clan-Sudamerica, cuja inscrição é gratuita). A ideia do enredo é bem simples: o personagem-título é um cantor pop que, em busca do sucesso, permite que sua vida seja completamente manipulada e destruída pela indústria. Pois é. E o filme consegue apresentar uma dimensão humana bem forte dos seus personagens, ao mesmo tempo em que a própria narrativa é provocativa, ao reutilizar com ironia o estilo típico dos filmes de publicidade.

Uma coisa curiosa de se notar é que a realidade pode se tornar muito mais bizarra e delirante do que as ficções mais sóbrias, como seria o caso desse filme do Rodolfo Kuhn. Digo isso porque o personagem do Pajarito Gómez foi inspirado num cantor que começou a fazer imenso sucesso nos anos 60, 'Palito' Ortega - segundo me foi dito pelo amigo Goyo Anchou, na época do filme o cantor era tão conhecido que todos percebiam a origem da paródia (isso também pode ser comprovado aqui). Pois é. E, como eu dizia, a trajetória do 'Palito' Ortega é muito mais bizarra do que o enredo que o filme conta: entre muitas outras coisas, já nos anos 70 ele cantou slogans do governo - durante a ditadura; mais tarde, tornou-se político importante - foi governador da província de Tucuman e senador). E continua em atividade, seja lá o que isso queira dizer.

Mas, enfim, ainda que a história da vida real seja mais bizarra, Pajarito Gómez é um filme e tanto, com um olhar que, embora tenha muito humor, é bastante melancólico e amargo sobre o mundo que mostra. Esse olhar poderia ser condenável  pelo seu esquematismo e pela sua amargura, mas isso fica mais difícil depois de ver This is it. Às vezes as histórias dos ídolos são um tanto esquemáticas e tristes mesmo.

Naquela coletânea de imagens, dá pra ver que Jackson continuava sendo um dançarino excepcional, mesmo que não tivesse mais a mesma leveza de vinte anos antes - caramba, ele já tinha 50 anos e ainda tinha mais leveza e agilidade que todos aqueles dançarinos profissionais trinta anos mais jovens! Em compensação, sua voz estava sem alcance e ele dava sinais de que sabia muito bem disso, ainda se segurando nos falsetes.

Essa fragilidade da voz, a agilidade dos movimentos, a amabilidade extrema nas falas, as roupas estilosamente bizarras, tudo isso dá ao Jackson no filme a imagem que faltava pra ele ter a cara de um fantasma. É um espetáculo bem triste, parece ser a pior concretização do pesadelo de Pajarito Gómez.

Então fica aí a dica: pra ver This is it, vale a pena procurar também por Pajarito Gómez, um filme argentino de 1965.



Escrito por daniel às 06h33
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uma conversa com Manuel Antin (e as diferenças entre as estruturas dos cinemas argentino e brasileiro)

Mais de uma pessoa me sugeriu procurar o sr. Antin para uma conversa sobre o período que vim pesquisar. O Antin fez nos anos 60 alguns filmes bastante considerados, adaptados de contos do Julio Cortázar - foi chamado de Antinioni, com alguma ironia, pela Tiempo de Cine. Mais tarde, na era Alfonsín, ele tornou-se o diretor do Instituto Nacional do Cinema, o órgão estatal que gerencia o apoio aos filmes (e, como se sabe, hoje se chama INCAA, adicionando as "artes audiovisuais" ao seu nome). Depois disso, tornou-se reitor da Universidad del Cine, que acabou se tornando a mais importante da Argentina na área de cinema. O sr. Antin me deu o prazer de uma conversa de alguns minutos em que me apresentou seu ponto-de-vista sobre o cinema argentino daquele tempo, do que se passou desde então e do panorama atual - e, como bem me disse um amigo, ele é antes de tudo um cavalheiro.

A visão que o Antin me apresentou é bastante favorável ao Instituto, dizendo que a continuidade da produção argentina e o respeito que os filmes têm angariado de tempos em tempos se deve a uma política de apoiar a todo tipo de projeto, que desde a criação do INC procurou oferecer aportes que tornassem possíveis as produções, tanto aquelas com mais capacidade de obter boa bilheteria quanto aquelas que, por vários motivos, podem não ter boa performance financeira. Isso depende de ter alguma grana, é claro - e, como se sabe, essa verba do INCAA é financiada pela taxa cobrada nos ingressos de salas, percentuais de TV etc. Essa mesma que tentaram fazer no Brasil recentemente e não emplacou.
Então, na visão do Manuel Antin, o que garante a boa saúde dos filmes argentinos é ter oxigenação constante de grana injetada na produção do maior número de filmes possível, feita do jeito mais aberto possível.

Então, amizades, quando alguém falar sobre "superioridade do cinema argentino" e etcétera etcétera, a gente sempre pode discordar, tentar pensar na comparação a partir de filme-a-filme e coisa e tal. Mas, se é pra ter visão generalista, fica aqui a sugestão de citar uma frase lapidar do senhor Antin: "o segredo, não conte para os americanos, é que hoje em dia os cineastas argentinos podem fazer seus filmes como querem e não precisam dar satisfações a ninguém, nem mesmo ao público."
É claro que o coroa falou isso com uma cara de gozação, todavia é uma boa frase.

Como se pode imaginar e o mesmo amigo que definiu Antin como um cavalheiro me explicou depois, isso que ele me disse não corresponde à realidade de todos os anos de existência do INC - mas é verdadeiro, no entanto, no que se refere ao período de Antin no Instituto, quando foi dado apoio a toda sorte de projeto. Essa atitude não teve aprovação unânime na época: o diretor Alberto Fischerman criticou isso em entrevistas, dizendo que "o período Antin terminou por produzir muitos filmes que não pensaram em dialogar com o público". Pois é, no entanto foi justamente naquele momento que se seguiu ao período Antin que o próprio Fischerman, com grana de produtores independentes, botou gente pra caramba nos cinema pra ver suas comédias; e, curiosamente, o Fischerman também havia começado a carreira fazendo filmes considerados de vanguarda, enfim...

Enfim, já é hora de fazer as malas. Sair do Rio e viajar é muito bom, mas bom mesmo é voltar pro Rio.



Escrito por daniel às 05h35
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algumas anotações sobre a revista "Gente de cine"

Como eu já comentei aqui no blog, só quando chegar ao Rio que vou poder conferir boa parte do material que eu estou conseguindo em Buenos Aires - não tenho como ver no hostel os DVDs que consegui obter e boa parte dos livros só vai fazer sentido quando puder ver os filmes. Mas há uma parte da pesquisa que tem que ser feita nas bibliotecas daqui, a parte que se refere à crítica feita na época, porque parece que nada disso foi republicado em livro, não há compilações dos críticos argentinos daquele período. Então, nesses últimos dias tirei as tardes para ler as coleções que a biblioteca da Enerc tem das revistas Gente de Cine, editada entre 1951 e 1955, e "Tiempo de Cine", editada entre 1960 e 1965.

Cheguei a mencionar a curiosidade que essas revistas me despertaram, sobretudo a primeira, que nem tem tanto a ver com o que eu estou pesquisando (a segunda tem bem mais), mas que permite que se perceba um pouco do clima da cinefilia da época. A Gente de Cine era uma publicação de um grupo que também mantinha o principal cineclube da cidade, e nos seus poucos anos de existência ela mostra um vigor cinefílico realmente admirável, que me fez refletir sobre várias analogias possíveis com a nossa crítica - talvez até mais com a de hoje do que com a daquele período. Porque a Gente de Cine tem relativamente poucos textos próprios - quer dizer, é claro que tem em bom número, mas a perspectiva básica da revista é publicar textos que pareçam fundamentais para a cinefilia, mesmo que sejam quase todos traduzidos de outras fontes. Ou seja, a crítica não é feita apenas com textos, mas com a seleção e edição de outros textos. Isso tem acontecido bastante hoje em dia na crítica da internet, mas na época não era nada comum. E a Gente de Cine tinha bom faro e conseguia coisas boas: publicaram textos assinados por gente como Orson Welles (sobre Shakespeare), Erich Von Stroheim, Carl Dreyer, Griffith, Chaplin, Grierson (o seu "manifesto", claro), Antonioni (em 1951!), Abel Gance, Ingmar Bergman, René Clair, Louis Delluc, De Sica, muito Zavattini, Alberto Cavalcanti (em dois textos preciosos, um sobre o "nascimento do documentário inglês" e outro fazendo um panorama bastante pessimista sobre a produção brasileira de cinema - em 1952, dando sinal claro de seu cansaço com os problemas da Vera Cruz) e mais um monte de figurinhas carimbadas de quem eles arrumavam textos publicados em outros países.

Com uma lista dessas, parece óbvio que eles tinham bom olho. Mas não era bem essa cocada toda, eles também deram algumas vaciladas históricas. Fascinaram-se com o neo-realismo e com Bergman na hora mesmo, no laço, e também sabiam defender e apontar as qualidades de um Hitchcock (que era chamado de mestre pela revista já em 1951) ou de um Nicholas Ray de início de carreira. Mas o menosprezo que a revista mostra diante de filmes como American Guerilla in the Phillipines e Rio Grande... no primeiro caso, diz-se que "Fritz Lang é um caso, como o de John Ford, de um velho cineasta que está estragando os filmes que fez anteriormente" (e dois anos depois ele faria Rancho Notorious...). O único comentário reservado ao segundo é "leia-se o que já foi publicado nesta revista sobre John Ford". E o filme em questão era Rio Grande! Baita mico.

Se descartarmos a bizarrice de botarem a Evita Perón na capa no mês da morte dela (em que, segundo nos conta o editorial, as atividades do cineclube foram paralisadas por duas semanas, além de enviarem telegrama de condolências para o general Perón), o aspecto que talvez seja mais revelador da, digamos, condição cultural do pessoal é a relação com os filmes argentinos. Nos primeiros anos, há somente um cineasta que é tratado com deferência especial, o Leopoldo Torre Nilsson; na verdade, mais pelas ideias que pelos filmes, porque estes eram até bem-recebidos, mas os artigos escritos pelo Torre Nilsson eram publicados na primeira página (desde a primeira edição), ou seja, era uma figura por quem a revista mostrava muito respeito (note-se que na época ele ainda não tinha nem trinta anos e havia dirigido apenas dois dos vários filmes de sua carreira). Fora ele, a revista ainda mostra respeito e algum interesse pelos filmes do Lucas Demare e pelos do Hugo del Carril, além de ter algumas palavras de estímulo para o jovem Fernando Ayala ("um dos poucos jovens realizadores que procuram conhecer a história do cinema").
Há ainda, ao longo de algumas edições de 1952, a iniciativa de fazer ensaio cronológico "para uma futura história do cinema argentino", com apontamentos sobre os principais filmes feitos até meados dos anos 30. Mas essa é uma iniciativa que não apenas é interrompida sem motivo claro (há apenas uma nota de rodapé), como jamais apresenta qualquer relação com o que se publica nos demais artigos. E, de modo geral, todos os textos sobre os filmes argentinos mencionam o "perigo da complacência". Mas, na verdade, o espaço dado para os filmes argentinos é sempre bastante pequeno nas edições...

... até setembro de 1954, em que há um texto bastante extenso que acusa tanto o cinema que está sendo produzido quanto a crítica, de modo geral. No texto de cabeçalho, a revista já tratava de se eximir de responsabilidades, dizendo que sempre tratou os filmes com respeito, mas sem condescendência - o que, na maior parte dos casos, me pareceu ser verdade, embora o espaço dado aos filmes locais fosse, de fato, bastante reduzido. De todo modo, esse texto indicava uma movimentação - e na edição seguinte a revista apresentou uma cobertura extensa (oito páginas, mais da metade da edição) do novo filme de Lucas Demare (Guacho, que ainda estava em plena fase de produção), com direito a entrevistas com toda a equipe, inclusive músicos e figurinista. Talvez por motivos inteiramente diversos, a publicação terminou seis meses depois.

A Tiempo de Cine tem algumas diferenças bem radicais com relação a essa antecessora - é uma revista bem mais agressiva acerca do que gosta e do que não gosta no cine argentino (chega a dizer, por conta de um outro filme do mesmo Demare, que "seu cinema "físico", feito de palavras fortes e numerosos extras, começa por sorte a pertencer ao passado"). Mas sobre essa eu conto mais depois.

Resolvi contar sobre isso aqui por conta do post recente do Inácio sobre crítica - em que eu fiz um comentário que foi respondido pelo nosso querido Rafael Ciccarini, editor da Filmes Polvo. Lendo a Gente de Cine, fiquei imaginando se alguma outra revista no Brasil teve a mesma capacidade de escolher e disseminar textos estrangeiros tão bacanas e importantes. Nos anos 30 teve O Fan, do pessoal do Chaplin Club, mas era um negócio bem diferente, ainda mais se for falar da revistas do Gonzaga. Eram outra coisa. Mas o Rafael me lembrou da Revista de Cinema, editada em Minas Gerais pelo Cyro Siqueira. Segundo o Rafael me contou há pouco no bate-papo, a Revista de Cinema publicou boa parte desses textos alguns anos mais tarde.

Mas, pelo que me pareceu da conversa que tive com o Rafael, esse meu espanto ainda tem razão de ser. Porque a Revista de Cinema tinha a pretensão, como a crítica brasileira sempre teve desde o modernismo, de apresentar um pensamento, digamos, "original" (mesmo que depois a gente desconfie que não era bem assim). O pessoal da Gente de Cine tem vários redatores com posições bastante fortes e algumas polêmicas meio banais (bobagens como "a imagem é mais importante que o tema ou os diálogos? O cinema mudo era superior?" ou "quem é o autor do filme, o roteirista ou o diretor?"), mas não há nenhuma necessidade de se diferenciar de criar um outro lugar para a crítica que eles fazem. Talvez porque, conforme imaginei conversando com o Rafael, a Gente de Cine não pretendesse ser original, apenas superior, digamos assim. Era uma boa revista de crítica, mas a postura monástica não tinha como se sustentar. Até porque era menos do que uma escolha, era uma condição - como fica evidente no provincianismo mostrado quando da visita de Vittorio de Sica a Buenos Aires e ao cineclube para receber uma homenagem.



Escrito por daniel às 05h21
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As viúvas de quintas-feiras

A minha impressão sobre o novo filme do Marcelo Piñeyro tem piorado conforme o tempo passa e fica a lembrança. Vi anteontem e no primeiro momento tive algum interesse pela força com que  o filme acusa seus personagens, pela mágoa demonstrada por ele. Isso ainda me fez ver uma cena curiosa na sala, assim que acabou o filme: havia duas adolescentes e a mãe de uma delas, e a filha ficava dizendo à mãe: "como é que você gosta de uma porcaria dessas, de um filme tão chato" e etc, e a mãe não falava nada. Quer dizer, pelo menos no instante em que eu vi a cena, ela só manteve um olhar meio perdido e triste. É um filme que se enquadra no estilo de "cinema do mal-estar", como já era o caso do último do Piñeyro, El método.

Mas essa vontade sincera de expressar a mágoa por uma época - no caso, a Era Menem - acontece de uma forma banal, titereira, chata mesmo. Um filme que provoca mal-estar profundo não é por natureza bom ou ruim, acho que eu consigo lembrar aqui de vários filmes geniais que são capazes de provocar mal-estar; mas, realmente, não é porque o filme quer ser sincero em mostrar sua raivinha que ele se torna interessante. Ok, os autores do livro e do filme têm muito nojo de pessoas que moram em condomínios particulares - e daí?

Daí que em Las Viudas de los Jueves essa condenação é feita com uma mão pesada de lascar e uma absoluta falta de interesse em dar alguma espécie de relevo a o que sentem os seus personagens. Parece que a ideia era só fazer uma pantomima para mostrar como uma parte da classe alta argentina estava alienada do que aconteceu no país no início da década.
Mas ok, tudo bem, deu pra entender o recado.
Só não entendi muito bem por que é que estão vendendo o filme como um thriller, um filme de mistério. Aí eu já acho sacanagem, porque não é nada disso não. Fica aí o aviso pra quem for ver (e sempre pode ter quem goste) que, bom ou ruim, o filme é um drama. Ou então é o thriller com menos cenas de tensão já feito até hoje: nenhuma, pra ser exato.



Escrito por daniel às 03h54
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Carlão na Zingu!

A Zingu! pôs no ar a sua edição comemorativa de três anos de existência - e o pessoal escolheu uma homenagem da pesada para essa comemoração: a pauta é dedicada ao nosso querido Carlão Reichenbach. Tem textos dedicados aos filmes, depoimentos de amigos e uma entrevista bastante extensa, que cobre praticamente toda a carreira do cineasta - é leitura imperdível, portanto.



Escrito por daniel às 06h35
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El secreto de tus ojos

Fui ver esse novo filme do Campanella com o Ricardo Darín e devo dizer que me desapontei com o resultado. Nem tanto pelo percurso dos dois, que nunca me encheu os olhos, mas por conta do rebuliço que provocou aqui na Argentina: o filme está arrebentando na bilheteria e teve boa recepção da crítica. Enfim, eu já devia imaginar - e aposto o que tiver no bolso que vai ser mais um caso que, quando estrear no Brasil, vai provocar aquele velho lero-lero sobre "por quê os argentinos conseguem e os brasileiros não?".

De fato, o filme consegue tocar em dois sentimentos que parecem falar caro ao, digamos, espírito latino-americano: um é o da sensação de mediocridade, de estar desperdiçando a vida; o outro, que fica mais explícito no final, é o do ressentimento, que acaba sendo uma armadilha em que todos acabam presos. A história tem dois pólos básicos, o da questão criminal e o da relação amorosa. Ela pode ser resumida mais ou menos da seguinte maneira: o Darín interpreta um funcionário da promotoria que, ao se aposentar, revisita um velho caso mal-resolvido de crime (um estupro em que o criminoso foi libertado) e, em consequência, uma história mal-resolvida de amor. O filme então se estrutura com idas e vindas no tempo: ora nos conta essa revisita às pessoas e historias do passado, que leva a uma nova investigação; e ora nos mostra o que aconteceu quase trinta anos antes. E sempre mantém o tom de pequenez do universo dos personagens, de história sobre gente que não viveu como queria, um clima de funcionalismo público mesmo. Aí, no final, a gente descobre que uma vingança estava sendo executada durante todo esse tempo que se passou, de tal maneira que o ódio deixou ambos os lados presos um ao outro. Me pareceu ser um recado sobre uma situação específica - achei claro que aí tem uma metáfora sobre a tentativa de punir os criminosos das ditaduras.

Tudo isso é muito bem-feitinho, mas O Segredo dos teus Olhos procura conciliar o mal-estar provocado pela descoberta da vingança ressentida de uma maneira que me deixou até meio constrangido: depois de todo esse sentimento brabo, extrai-se a fórceps um final feliz para a historinha de amor. E pronto, o recado está dado: só é ressentido quem quer, porque a felicidade está ao alcance de qualquer um. Sinceramente, aí não dá, né?



Escrito por daniel às 05h05
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Conceição no Canal Brasil

Pois é, surpresas da Riofilme. André me achou no celular, aqui em Rosario, para contar sua surpresa ao ser avisado pelo seu pai, o Dadá, que o nosso Conceição - autor bom é autor morto vai ser exibido hoje no Canal Brasil.
Bem que, na última reunião que tive lá na Riofilme, com o diretor comercial Adrien Muselet, ele me avisou que iria vender vários filmes para alguns canais de TV e o nosso iria entrar no pacote. Dito e feito, e com rapidez.
Enfim, o filme vai ser exibido hoje à noite, com reapresentação amanhã de madrugada, e imagino que ainda vá ser reexibido algumas vezes nos próximos meses. Quem ainda não conferiu tem aí mais uma chances (desde que tenha o Canal Brasil na sua TV, a preços extorsivos). Os horários podem ser conferidos aqui.



Escrito por daniel às 16h48
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fazer turismo é conhecer estádios



Sendo assim, nada melhor para o domingão de turista do que ir conhecer o estádio do Newell's Old Boys, um dos dois grandes clubes daqui da cidade de Rosario. O estádio do Newell's fica numa área central da cidade, na Av. Carlos Pellegrini, é um estádio de porte médio, imagino que caibam umas 40 mil pessoas, e estava bem cheio. O jogo foi entre o time da casa e o então líder do campeonato, o Estudiantes. A partida prometia, já que Newell's está fazendo boa campanha e o Estudiantes, além de ser o atual campeão da Libertadores, tem como maestro do meio-de-campo o craque Juan Sebastián Verón, que anda comendo a bola desde que voltou à Argentina.

E foi o time visitante que tomou a iniciativa do jogo, dominando o meio-de-campo e partindo para o ataque, com muito mais toque de bola. Verón estava jogando razoavelmente, mas deu pra ver que estava cansado - jogou pela seleção argentina em Montevidéu na quarta-feira, depois deve ter tido uma boa comemoração... enfim, o armador do time estava correndo pouco e só tocava de primeira. E tanto os atacantes do time como os dois laterais são bastante habilidosos e guerreiros. Mas devo confessar que minha simpatia era pelo time da casa. Primeiro porque o Newell's é de Rosario e, se de Buenos Aires tive a impressão de que é uma cidade bastante agressiva, devo dizer que Rosario é uma cidade amável como poucas. Além disso, as cores do clube tornavam inevitável a minha simpatia: o Newell's tem como cores o vermelho e o negro. São gente-boa, portanto.

E foi o Newell's que, jogando no contra-ataque de forma um tanto atabalhoada, fez o primeiro gol da partida, já aos 30 minutos de jogo, numa bela jogada de linha de fundo. Ficou eufórica a torcida, que também passa os noventa minutos cantando a plenos pulmões, como eu já tinha visto acontecer no Monumental de Nuñez - pelo jeito, no país inteiro é assim. Mas, enfim, a tocida mal teve tempo de comemorar, porque dois minutos depois o atacante Benítez, do Estudiantes, fez um jogadaça em que driblou dois zagueiros e bateu no alto, com força - o goleiro ainda espalmou, mas a bola morreu no fundo da rede. Um a um, e ficou nessa até o fim do primeiro tempo.

No segundo tempo, o cansado Verón foi substituído e, não sei se por este motivo, o time do Estudiantes recuou. Foi vacilo deles, porque assim o time da casa foi mais à frente e o jogo ficou mais parelho. De todo jeito, jogar em casa sempre é uma bênção na hora de influenciar a arbitragem. Num dado momento, lá pelos vinte minutos, o lateral esquerdo do Estudiantes entrou livre com a bola dominada na área e o zagueirão da casa veio como um bonde. Essa eu vi direitinho: a trombada foi dada enquanto a bola corria lisinha, sem que o zagueiro nem chegasse perto. E o juiz? correu com o cartão amarelo na mão e apresentou-o ao atacante. Também, quem mandou entrar com a bola dominada na área do time da casa? Aí, uns cinco minutos depois, o Newel's entrou atacando pela esquerda, o armador driblou um zagueiro e tocou de leve para o alto quando o outro zagueiro veio voando de carrinho - e aí o sujeito resolve dar uma tremenda cortada na bola... Pênalti claro, que dessa vez foi marcado pelo juiz. O goleiro até defendeu, mas deixou rebote e aí não teve jeito: Newell's 2 x 1 Estudiantes. Com essa vitória, o time de Rosario sobe na tabela e o Estudiantes deixa de ser o líder. A cidade toda ficou feliz e até agora há pouco eu ouvia os buzinaços. Pois é, isso me parece familiar.

Como contei, Rosario é uma cidade bem diferente de Buenos Aires. Não tem o mesmo pique e a mesma riqueza, mas tem uma gentileza muito rara de se ver. Conversando com os professores e amigos Julio Diniz e Paulo Britto, chegamos à definição de que é uma cidade de um milhão de habitantes que mostra uma cordialidade parecida com a de um vilarejo do interior de Minas Gerais. Se algum dos leitores quiser um dia desfazer qualquer má impressão sobre nossos vizinhos do sul, sugiro que venha a Rosario.

Outra hora conto aqui as novidades sobre minha investigação, quando estas novidades ficarem mais claras. No momento, estou me vendo em busca de informações e dos filmes de um determinado cineasta argentino que se encaixa mais-que-perfeitamente no esquema que me propus a analisar: o sujeito se chama Rodolfo Kuhn. Sei, entre outras coisas, que ele teve laços com o Brasil - foi um dos diretores do filme em episódios O ABC do Amor, de que também participou nosso célebre Eduardo Coutinho. Se alguém tiver mais informações ou pistas sobre este cineasta portenho, certamente são bem-vindas.



Escrito por daniel às 04h11
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Enquanto isso, em São Paulo...






Escrito por daniel às 19h37
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Carta aberta sobre a projeção digital



Alguns leitores devem lembrar dos meus resmungos num post abaixo sobre as péssimas condições de exibição de filmes em projeção digital a que os frequentadores de cinema temos sido submetidos; no post, meu resmungo aconteceu sobretudo porque as salas de exibição não divulgam nem mesmo a informação prévia acerca da tecnologia usada nas projeções - e porque, tendo entrevistado o Manoel Rangel, diretor da Ancine, eu fiquei um tanto bolado com a atitude da Agência de lavar as mãos com relação a esse desrespeito com os espectadores.

Pois é, e é evidente que, convivendo com isso mais do que eu, que tenho ido pouco ao cinema, muitos críticos e cinéfilos andam fulos da vida com esse assunto. Em grande parte pela circunstância do Festival do Rio, que apresentou uma qualidade baixíssima de projeção em algumas sessões, mas não só por isso: várias salas do circuito comercial andam exibindo filmes em condições de imagem e som lastimáveis, sobretudo a partir da tecnologia (mal-usada) da Rain.

A situação chegou a tal ponto que o Pedro Butcher propôs numa lista de críticos, o Fórum da Crítica, que se fizesse um manifesto coletivo, ideia que obteve apoio imediato de todos os integrantes desse fórum, ou seja, de uma boa parte dos críticos de cinema em atividade. Segue abaixo o texto dessa carta, redigida pelo Pedro (contando com observações de vários outros, sobretudo do nosso amigo Fernando Veríssimo) - texto que tem a assinatura coletiva do Fórum da Crítica e que eu também subscrevo integralmente:


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CARTA ABERTA AOS RESPONSÁVEIS PELA PROJEÇÃO DIGITAL NO BRASIL

A projeção digital chegou ao Brasil com a missão de democratizar o acesso aos filmes e libertar os distribuidores da dependência de cópias em 35 milímetros, cuja confecção e transporte são notoriamente caros. A instalação de projetores digitais permitiria ao público assistir a títulos que dificilmente seriam lançados nas condições tradicionais e ainda ofereceria condições para que espectadores situados longe do eixo Rio-São Paulo (onde se concentram quase 50% das salas de cinema do país) tivessem acesso aos mesmos títulos simultaneamente.

O que estamos vendo, no entanto, é uma total falta de respeito ao espectador no que se refere à exibição do filme propriamente dita. As razões são basicamente duas: projeções incapazes de reproduzir fielmente os padrões de cor e textura da obra e/ou projeções incapazes de exibir os filmes no formato em que foram originalmente concebidos. Sem falar no som, que muitas vezes ganha uma reprodução abafada, limitada ao canal central, muito diferente de seu desenho original.

A adoção da projeção digital pelos dois maiores festivais internacionais do Brasil (o Festival do Rio e a Mostra de São Paulo) e por outros festivais do país, infelizmente, não respeitou o que seriam critérios mínimos de qualidade de projeção de filmes em cinema – algo que é observado com atenção em qualquer festival internacional que se preze. Trata-se de uma situação particularmente alarmante tendo em vista o papel de formadores de plateia que esses eventos desempenham.

Sucessivamente, temos visto um autêntico massacre ao trabalho de cineastas, fotógrafos, diretores de arte, figurinistas, técnicos de som e até mesmo de atores. Apenas para citar um exemplo: Les herbes folles, o novo filme de Alain Resnais, originalmente concebido no formato 2:35:1, foi exibido no Festival do Rio, com projeção digital, no formato 1:78. Isso representou o corte da imagem em suas extremidades, resultando em enquadramentos arruinados, movimentos de câmera deformados e rostos dos atores cortados. Um pouco como se A santa ceia, de Leonardo Da Vinci, tivesse suas pontas decepadas, deixando alguns discípulos de Jesus fora de campo – e da história. Para completar o desrespeito, não há qualquer aviso em relação às condições de exibição e o preço cobrado pelo ingresso não sofre qualquer alteração.

Não nos cabe, aqui, pregar a “volta ao 35mm” nem defender determinada resolução mínima para a projeção digital. Sabemos que, se respeitados determinados critérios técnicos – ou seja, se a empresa responsável pela projeção digital receber do distribuidor o master no formato adequado, se o processo de encodamento for feito corretamente, e se os ajustes necessários para a exibição de cada filme forem realizados cuidadosamente –, a projeção digital pode ser uma experiência perfeitamente satisfatória para o espectador.

Não é isso, porém, que tem ocorrido. Exibidores, distribuidores e os fornecedores do serviço da projeção digital são responsáveis pela má qualidade da projeção e coniventes com esse lamentável descaso geral, que tem deixado críticos e amantes de cinema indignados. É um desrespeito ao cinema e aos seus criadores, mas, sobretudo, ao espectador e consumidor final, que saiu de casa e pagou ingresso para ver um filme.

A situação chegou a um ponto intolerável. Pedimos a todos os profissionais envolvidos com a projeção digital que tomem providências para que tais deformações não se repitam.

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Essas duas imagens que exemplificam o corte de imagem em A Última Ceia, assim como a versão serrilhada do quadro que coloquei no início desse post, foram feitas e passadas pra lista pelo bom Fernando, o Veríssimo.

O texto da carta aberta também está publicado num site para coletar assinaturas coletivas. Quem concordar com o que leu pode clicar aqui e deixar seu nome lá.



Escrito por daniel às 03h37
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uma ida ao Malba

O museu criado pelo tal milionário colecionador Eduardo Constantini é muito bonito, é uma iniciativa notável. Não conheço nada sobre esse cara, mas é uma pena que esse tipo de iniciativa não vingue no Brasil - excetuando-se algumas iniciativas da burguesia paulista da década de 50, os ricos brasileiros só investem dinheiro em arte e cultura a partir de grandes benefícios fiscais, como se pode ver nos vários institutos culturais que os bancos privados ergueram com ajuda da lei de incentivo.

O Malba tem peças de quase todos os artistas latino-americanos mais célebres: Rivera, Tarsila, Frida Khalo, Torres-García etc. Não sei como é com relação à pintura de outros países mas, pelo menos com relação às peças brasileiras, me pareceu que a curadoria se deixa levar demais por critérios de "prestígio" e "representatividade". Ou seja, fiquei com a impressão de que as peças brasileiras que estão lá servem para contar a historinha das artes visuais que se lê nos textos, mas não são o que se tem de melhor. Bem, o "Abaporu" ficou famoso com aquela celeuma que rolou quando ele foi vendido, e além disso há peças de Portinari, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Lygia Clark, Oiticica, Gerchman e outros, e ter tudo isso é bem legal, mas certamente eu prefiro Anita Malfatti a Tarsila e senti falta de algo do Iberê Camargo. Ok, isso é gosto pessoal... Mas fiquei desapontado quando percebi que não se podia tocar nas obras da Lygia Clark - as peças em metal (casulos, se não me engano) que estão no Malba ficam protegidas por vidros que nos impedem de mexer nelas. Ou seja, a exposição comete um erro conceitual e contraria a proposta da artista ao impedir que a gente se relacione com a tridimensionalidade das obras. Alguém tem que avisar ao Constantini que isso é um mico.

Mas não reparem esse jeito resmungão. Isso que eu falei são pontos negativos, mas o Malba tem um acervo da pesada, além de ser um lugar bem bonito e ter uma sala de cinema com uma programação bastante boa. Também tem exposições contemporâneas ou outras dedicadas a artistas específicos - no final do mês vai abrir uma dedicada ao Andy Warhol. Atualmente, estão exibindo os trabalhos de um cara chamado Miguel Angel Ríos, que é bastante bom, os vídeos dele são bem inteligentes e provocativos; um deles é inclusive bem familiar e engraçado, porque usa computação gráfica para inverter as camisas de Pelé e Maradona, com o primeiro fazendo um gol com a camisa da seleção argentina e o outro fazendo o mesmo com a camisa do Brasil - chama-se "Neither Color, Nor Height".

Do acervo, fiquei bastante impressionado com algumas peças dos argentinos Antonio Berni (o que tem mais quadros em exposição por lá, acho) e, claro, Xul Solar. Berni é um pintor com uma trajetória imensa e o museu nos permite ver isso, apresentando quadros desde os anos 30 até meados dos 70. Assim como ele, o Xul Solar (que há alguns anos teve uma série de quadros expostos na Bienal de SP) também se meteu com as vanguardas europeias, sobretudo a turminha surrealista do Breton. O Berni tem coisas muito bonitas, mas o trabalho do Xul Solar me é mais impactante. Além deles, também achei memoráveis os dois quadros que o museu tem do chileno Roberto Matta, cujo "Los Desastres del Misticismo" é tão bonito que fiz questão de catar na web para terminar este post.



Escrito por daniel às 04h36
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na Argentina

A falta de atualização deste blog na última semana não foi por falta de assunto, mas por falta de tempo mesmo, por conta do final de temporada da peça, da preparação pra uma viagem de estudos à Argentina e do consequente trabalho de organizar as aulas na Uff para não deixar furos. Cheguei anteontem a Buenos Aires, onde fico por uns dias antes de rumar para Rosario, depois volto para cá. A intenção é conseguir encontrar material relacionado à pesquisa da tese de doutorado que estou fazendo na Puc, em que a proposta é refletir sobre os casos de cineastas que estiveram ligados à chamada contracultura e mais tarde ao universo de filmes pretensamente vulgares; pra fazer algo relacionado a isso por aqui, vou tratar de procurar alguns filmes malucos feitos aqui na Argentina entre os anos 60 e 80, e também tentar descobrir bons textos críticos publicados no período sobre estes filmes "vulgares". Num primeiro momento, já que voltarei para o Rio em um mês, a intenção é apenas coletar material, para ver e ler com calma no Brasil.
Se algum leitor lembrar de filmes, livros ou nomes de pessoas que tenham a ver com isso, ideias e dicas são bem-vindas.

Enquanto isso, vou começando a conhecer Buenos Aires. A familiaridade é uma coisa realmente notável - passei por umas poucas outras cidades de fora do Brasil e a impressão de estranhamento em todos os casos foi muito maior do que aqui. Essa familiaridade tem se misturado ao choque natural de ir descobrindo pedaços de uma metrópole, que nunca é moleza, ainda mais porque não conheço ninguém por aqui. A gente sempre está sujeito a ser logrado quando é turista recém-chegado, e minha contribuição para o folclore da fauna local reside em registrar as práticas lamentáveis de alguns dos motoristas de táxi que vi por aqui. Sei lá, talvez tenha sido só uma coincidência de casos em que dei azar. Taxista metido a malandro no aeroporto já é clássico em qualquer lugar do mundo, mas hoje o que me levou ao estádio Monumental foi mais pilantra: me passou uma nota falsa de 50 pesos. Pelo jeito, o fofinho carrega na carteira notas do gênero para passar aos turistas desavisados. De repente tem gente assim no Rio, deve ter em todo lugar no mundo, sei lá. Mas aí, pra piorar, na saída do estádio, quando estava chovendo, não apenas não havia táxis na região, como os que passavam se davam ao luxo de escolher (ou recusar) passageiros, trajetos e tarifas. Ou seja, uns amores. Pode parecer exagero, mas demorei duas horas até conseguir encontrar um táxi livre que se dispusesse a vir ao Centro. Que sufoco!

Pois é, como contei, esse perrengue foi para voltar do estádio Monumental de Nuñes, onde eu vi a Argentina também passar sufoco - no caso dela, para vencer o Peru por 2 x 1. Aquela lenda de que tem uns caras que gritam e cantam o jogo inteiro é verdade. E aquela lenda de que os torcedores argentinos são dramáticos também é verdade, até pela natureza do jogo, que era fundamental para a vaga da Argentina na Copa do ano que vem, mas é preciso registrar que eles também têm senso de humor, pelo menos alguns dos que estavam por perto. A torcida, de fato, ainda ama o Maradona acima de tudo (tinha uma faixa com as cores da seleção e um desenho dele como camisa dez, junto com a frase "é proibido esquecer-se disso"), mas sabe emitir sua opinião sobre bons e maus jogadores. O zagueiro Heinze, por exemplo, tem o prestígio em baixa, como é fácil de se perceber: quando o locutor anunciou os nomes dos jogadores, o dele foi o único que provocou algumas vaias. Em compensação, a torcida tem dois heróis: o capitão Mascherano (que todos chamam de "Masche") e o centroavante reserva Martín Palermo - cujo nome foi o último a ser anunciado pelo locutor e foi o que provocou mais aplausos e comoção da torcida. Pelo jeito, eu estava sentado perto de torcedores do Boca Juniors.

Começou o jogo e com dez minutos a torcida já pedia a entrada do Palermo. Mascherano de fato não perdia nenhuma bola, Messi aparecia em boas jogadas, a Argentina teve umas quatro chances de fazer um gol e necas. Já o Heinze provocava uma gozação divertida de um coroa que estava por perto: sempre que o zagueiro pegava na bola (e acabava fazendo suas pixotadas), o coroa exclamava em tom ironicamente admirado: "Que jogador!". Mas também, pudera: das dez primeiras bolas que o jogador pegou, em pelo menos metade ele caiu na grama ao fazer o passe. Ele devia estar com a chuteria errada, pode ser, mas era cruel ver o jogador perseguido pela torcida desabando no gramado todas as vezes em que tocava na bola.
Quando começou o segundo tempo a coisa se animou. Logo no primeiro minuto o Peru teve um lance de perigo, ou seja, fez mais do que em todo o primeiro tempo. Aí, com três minutos, o centroavante Higuaín, uma aposta do Maradona, recebe a bola livre na grande área e marca um gol. Eu tive a impressão de que ele estava impedido, mas é claro que eu estava errado e que isso não acontece no estádio Monumental. Aliás, era divertido ver a torcida se afligindo com faltas pretensamente "inexistentes". A partir de uma hora, o time argentino baixou o sarrafo, mas quem haveria de condená-los por isso?
Bem, aí o Peru fez um gol, a Argentina fez outro no finalzinho - pra euforia dos torcedores que estavam por perto, o gol foi do Palermo - e assim o drama se resolveu.
Quer dizer, se resolveu pra eles, porque eu estava tentando escapar da chuva tremenda que começou a cair e nem vi direito esses gols do final do jogo.  Fiquei encharcado e demorei duas horas pra conseguir voltar ao hotel. Isso eu já contei.



Também é muito curioso ter chegado em Buenos Aires no momento em que o governo argentino conseguiu aprovar no Senado a nova lei dos "meios audiovisuais". Os jornais estão em polvorosa e nas ruas há cartazes fazendo propaganda para os dois lados, mas os níveis são diferentes: os cartazes a favor da reforma são sóbrios, até caretas, com uma frase impactante e a assinatura do partido; enquanto os cartazes contrários que vi são mais marotos - eles mostram uma foto do casal Kirchner rindo diante de um estúdio do tipo "Jornal da Globo", com o título "Los Exito$o$ K" e um textinho ao lado dizendo que a intenção do casal é fazer telejornais onde só exista a versão deles. O cartaz não tem assinatura.
Essa é a campanha do Clarín e de outros veículos da mídia contrários à nova lei, que procura impedir a existência de monopólios: segundo eles, que são prejudicados pelas novas medidas, o governo faz isso porque o casal Kirchner é autoritário, corrupto e pretende se manter no poder. Bem, de fato esse negócio de a esposa suceder o marido é bastante esquisito, mas também é esquisito que essas acusações de corrupção apareçam junto com a discussão sobre mídia e sejam misturadas a ela. O fato é que a lei foi discutida e os argumentos contra a nova legislação sempre fogem do cerne da questão, que é a necessidade de impedir a existência de oligopólios de comunicação, em favor da liberdade democrática de gostos e informações.

Algo parecido com o nosso Brasil?
Nem tanto. Afinal de contas, aqui o governo parece ter decidido levar a questão até o fim - e, pelo andar da carruagem, é possível que por aqui vingue essa nova proposta para os meios de comunicação. Se isso acontecer, vai ser inevitável traçar os paralelos com a realidade da mídia brasileira.
Dois textos sobre o assunto: um em português e outro em espanhol.



Escrito por daniel às 03h46
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Abraços Partidos é um filmaço



Será que hoje em dia há outros cineastas no mundo tão fiéis às paixões dos seus personagens quanto o Pedro Almodóvar?

Ontem, quando eu estava saindo da sala de cinema, ouvi de passagem um comentário sobre "como é fácil fazer filmes de Almodóvar" e na hora, depois de ver um filme tão bonito, achei que era bobagem. Bem, ainda acho era bobagem mesmo, porque "fácil" não é não. E o verdadeiro traço em comum entre seus filmes não é a atriz, as cores quentes ou uma pretensa "breguice". Mas há sim uma estrutura e um ponto de partida comuns aos filmes, ou pelo menos a boa parte deles. Todo enredo sempre acontece porque os amores são intensos e inescapáveis, não suportam a interrupção e a perda da pessoa amada; daí há um movimento de ruptura, de transgressão; na maior parte das vezes, esse movimento leva a uma perda, frequentemente à morte, e a trama se fecha com o caminho de sobrevivência.

Com uma ou outra variação, isso se repete em quase todos os seus longas; mesmo assim, destes seus trabalhos recentes, cada um deles parece ser único, diferente de todos os outros. É uma fase da pesada - não é qualquer um que enfilera filmes do nível de Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela, A Má Educação, Volver e este Abraços Partidos. Neste, há dois ou três detalhes inverossímeis - e daí? De novo, o enredo se mostra comovente graças ao vigor, à força moral com que os personagens levam adiante as suas paixões.



Escrito por daniel às 04h43
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