Histórico


Outros sites
 PURO - UFF
 Duas Mariola Filmes
 documentário "O Mundo de Um Filme"
 Arquivo de textos que publiquei em outros lugares
 Filme Cultura
 Dissertação (três contos e algumas idéias)
 Arquivo de notas do Contra-blog (PG) 2002/2008
 Olhos livres - blog do Carlão
 Anotações de um cinéfilo - blog do Filipe
 Querida tela, - blog da Carol
 Cinema de boca em boca - blog do Inácio
 MySpace do Improta
 Objeto sim objeto não - blog do Fred
 Blog do Polvo (da filmespolvo)
 Canto do Inácio
 No olho do furacão - blog do Francis
 FotosLeoRamos - blog do Léo
 O esporte favorito dos homens - blog do Guilherme, do Chiko, do Allan, do Watanabe e do Renan
 Chip Hazard - blog do Sérgio
 Paragrafilme - blog do Eduardo
 À Colecionadora - blog da Luiza
 Febril - blog do Dado
 Los olvidados - blog do PR
 Blog do Jean-Claude Bernardet
 Berghof, casa de loucos - blog do Rodrigo
 RD B side - blog do Renato
 Fotograma experimental - blog do Vébis
 O amor louco - blog do Milton
 O espírito da colméia - blog da Patrícia
 Blog do Tom Zé
 Blog do Noblat
 Blog do Tutty Vasques
 Cineclube - blog do Gustavo e do Cavi
 .Polis + Arte = blog do Cezar
 Estranho encontro - blog da Andréa Ormond
 Lentilhas vesgas - blog do Érico
 Medo do quê? - blog da Laura
 Cinecasulófilo - blog do Marcelo
 As cartas não enviadas - blog da Anahí
 Diário de um cinéfilo - blog do Ailton Monteiro
 Meu nome não é superoito - blog do Tiago Superoito
 Cinema com cana - blog do Luiz Soares Júnior
 Palavras do Bruno - blog do Bruno Amato
 Fabito's way - blog do Fábio Andrade
 Acontecimentos - blog do Antônio Cícero
 Kinos - blog do Julio Bezerra
 Cultura e crítica - blog do Marcelo Coelho
 Udigrudi - blogs do André e do Adamastor Goldman
 Cinema cuspido e escarrado - blog do Marcelo V.
 BlogIndie - blog da Francesca
 Insensatez - blog do Adilson
 Esperando Godard - blog do Saymon
 Bressonianas - blog do Adolfo Gomes
 Impressões Virtuais - blog do Lu
 Setaro's blog
 O Olhar Implícito - blog do Vlademir Corrêa
 Acabou o asfalto! - blog da Valeska
 Mamulengo - blog da Maria Carolina
 Cinema de invenção - blog do Juliano/Jairo
 Quando nada está acontecendo - blog da Noemi Jaffe
 ...rastros de carmattos - blog do Carlos Alberto Mattos
 Cinematógrafo - blog da Bibi
 Vistos e escritos - blog do Rodrigo Cássio
 Qualquer coisa - blog do Samuel
 Cinema falado - blog do Luciano Ramos
 bRog - blog do Raul
 Entre águas - blog do Heyk
 Questões cinematográficas - blog do Escorel
 Godard city - blog do Rogério Skylab
 Cine Monstro - blog do Primati
 José Geraldo Couto: No cinema
 Mundo Fantasmo - blog do Bráulio Tavares
 Blog do André Barcinski
 Núcleo Patricia Bárbara!
 Zingu!
 Zé Pereira
 Questão de crítica
 Digestivo Cultural
 Cineweb
 Mulheres do Cinema Brasileiro
 Cinética
 Cinequanon
 Site do Avellar
 Contracampo
 Cahiers du cinéma
 Filmes Polvo
 Moviola
 Filmologia
 Cine Cachoeira
 Interlúdio
 jonathanrosembaum.com
 Senses of cinema
 Lola
 El Amante
 Miradas de Cine
 Tren de sombras
 Manual do Minotauro - blog dos quadrinhos do Laerte
 Roteiro de Cinema
 Revista Lateral


XML/RSS Feed
 
 
Passarim


A prova dos nove

Encontrei Don Carlone quando passei em frente a uma velha sala de cinema do Centro de SP. Eu nem sabia que ainda existia cinema de rua no Centro, ainda mais ali, em plena Avenida São João. Don Carlone estava examinando o cartaz, que mostrava duas mulheres seminuas abraçando ameaçadoramente o herói do filme, sob o fundo de uma floresta em que se viam umas cobras e onças, além de uma cachoeira. Ele apontou o detalhe: "Porque cinema é cachoeira, é ou não é?". 

Em seguida, entrou na sala para ver uma cópia estalando de nova de The Naked Kiss, do Fuller. Eu não entendi como foi que ele tinha arrumado aquela cópia novinha só para ele - depois ele me explicou que tinha combinado com o Jairo, mas o outro tinha desistido porque não tinha mais paciência para ver os filmes inteiros sem conversar. Don Carlone estava eufórico com a notícia de que a Sessão do Comodoro iria continuar no Cinesesc, organizada pelo Vébis e pelo Leopoldo. Ele me contou que ia passar a eternidade lendo poemas do Murilo Mendes, ouvindo música de todo tipo e vendo e revendo seus filmes favoritos. Fez questão de relembrar que "o importante é rever". Contou que chegou a chorar novamente ao rever Cronaca Familiare - e daí emendou no assunto do filme que pretendia fazer com o Jacques Perrin. Na ocasião, eu não sabia como me referir aos eventos da semana passada. Comentei que publiquei na Cinética um pequeno artigo sobre o cinema dele, tirado de um trecho da tese que eu enfim tinha acabado de escrever. Ele me respondeu na lata: "El Caetano, todos nós somos seguidores do poeta Oswald de Andrade, mas você só não pode esquecer que meu cinema deve mais ao Fritz Lang e ao Fuller do que ao Deleuze e àquele Agamben". E aí deu uma daquelas boas risadas. Me perguntou se eu tinha revisto o Tigre de Eschnapur do Fritz Lang para escrever meu texto, e disse para eu não esquecer do Zurlini. Depois, voltou a falar dos filmes do Silvio Bandinelli, que ele tinha descoberto há uns meses. Falei pra ele que mencionei no texto a dica que ele deu dos filmes do Mario Salieri, mas não falei do Bandinelli, o cineasta ultra-marxista italiano que se dedica ao cinema dito pornográfico e há uns anos fez uma adaptação pornô e séria do Macbeth de Shakespeare. Don Carlone gargalhou lembrando dos créditos do filme: "uma adaptação do clássico de William Shakespeare", com direito a cenas de suruba. Aí eu perguntei se ele tinha visto as muitas manifestações de carinho da semana passada, até de gente que aprontou umas brabas para o lado dele. "Olha, desde que a Cinemateca Brasileira não me foda com mais nenhum negativo, como já fez com Filme Demência, eu acho ótimo. Não é? Quem é que não gosta de receber afagos?".

Eu perguntei se ele sentia muita saudade. "Só da família, que ficou mais longe por um tempo. Da minha mulher Lygia, dos três filhos, das duas netas. Tenho saudade da minha Carolina, mande um beijo para a sua. Mas não tenho do que reclamar: enquanto minha família não vem, terei 200 vestais à minha disposição. Sabe aquela lenda muçulmana do prêmio para os guerreiros honrados? Pois é, é verdade e eu ganhei!", contou ele, e deu boas risadas.
Perguntei então:"Você viu que estão dizendo que você foi o último dos grandes, o fim de uma era e toda aquela conversa?". Aí ele respondeu com aquela fúria: "Ora, porra, manda essa gente se foder! Ninguém veio falar isso quando eu lancei o Garotas do ABC, que foi um dos meus melhores filmes! Você sabe disso!". Ponderei que gosto do filme, mas meus preferidos são outros, sobretudo Império do Desejo e Alma Corsária. Além disso, ele mesmo sabia que o Garotas, com suas imensas qualidades, tinha também sofrido muito por todos os problemas de produção. Mas eu já sabia que o Garotas tinha dele o carinho de um filho rejeitado pela sociedade. É, sem dúvida, o melhor retrato feito em muito tempo da tal "classe C" que atualmente é tão falada - e talvez tivesse hoje ótima recepção se chegasse a esse público. Don Carlone foi ao ABC e captou as mudanças que aconteceram naquele espaço social. O filme penou por outras razões, mas era a grande aposta dele para chegar ao grande público de novo. Sei que ele ficava triste por isso não ter sido percebido, e não aceitava de jeito nenhum que eu e quase todo mundo que a gente conhece preferíssemos Falsa Loura, a sua versão violenta e atual da cinderela.

Para não se chatear lembrando do Garotas, ele esquentou um café num forno micro-ondas, depois pingou um pouco de leite e entrou na sala. Um dos seus poodles ficou junto dele, latindo enquanto ele enchia a xícara. No caminho para a sala do cinema, retomou o assunto: "O problema não é não entenderem os meus filmes, isso sempre teve quem entendesse e muito bem. E você sabe que eu sempre tive mais interesse no público do Marabá do que na elite dos cinemas de arte. A classe baixa sempre foi mais fiel aos filmes brasileiros - e os nossos filmes só foram mal quando perdemos esse público. O problema é se derreterem para o meu trabalho em tom de nostalgia para detonar o cinema brasileiro. Isso é sacanagem, eu sempre falei que o cinema brasileiro era a minha maior influência, você sabe disso!". Aí eu tive que concordar, e ele continuou: "Arthur Omar, Andrea Tonacci, Mojica, Carlos Adriano, Dennison Ramalho, Joel Pizzini, o próprio Julio... Tem muita gente fazendo cinema, porra! Vão me usar para detonar os outros? Quem tinha que voltar a filmar é o Calmon. O que não dá é para ficar defendendo esses filmes com cacoetes e modismo, a porcaria sub-televisiva ou essa muleta do documentário. Eu não tenho pudor de dizer que isso virou uma fórmula". Eu sabia que ele ia acabar implicando com os documentários. Acendeu um cigarro, é claro.

"Pode não ser o meu estilo favorito, mas é claro que tem alguns documentários maravilhosos. O problema é virar fórmula. É isso que não pode acontecer. Mas essa briga não acaba nunca, e é por isso que eu defendi e sempre vou defender o cinema de autor. É esse que pode ser o nosso diferencial. Para repetir fórmula, não tem diferença de onde vem. Às vezes é até mais interessante que venha de fora, você não concorda?"

Aí eu lembrei do projeto de documentário que ele tinha há anos, de viajar o Brasil inteiro (junto com a filha, que é produtora) para registrar toda a diversidade de pássaros existente no país. Ele se empolgou e começou a me explicar sobre o canto dos pássaros e sobre como captar imagens e sons de determinadas espécies arredias, com tantos detalhes que eu confesso que não lembro aqui. Depois ele emendou um papo sobre os muitos projetos que ainda levava na cabeça: o filme sobre o início da tortura no Brasil, com o Tarantino, o filme infantil protagonizado por cachorros... Perguntei como tinha sido aquele projeto de filmar o Heliogábalo do Artaud com produção do Galante, no início dos 80, e por que tinha sido abandonado. Daí ele falou das complicações da produtora do Galante, que inclusive tinha impedido que Império do Desejo passasse em Rotterdam em 1985 porque estava acertando a distribuição do filme em alguns países europeus.

O projecionista estava demorando para iniciar a sessão e, enquanto isso, ele me falou que tinha baixado alguns filmes policiais franceses dos últimos anos. "Esse Jean François Richet põe no bolso todos os queridinhos franceses da Cahiers dos últimos anos".

 Don Carlone pediu licença e foi consultar rapidamente o computador num canto da sala. Em dois minutos, compartilhou no facebook e no blog os links para download de vários filmes do Richet. Também compartilhou os links para download de Winchester'73, do Anthony Mann, dedicando o post ao Leo Pyrata, "que tem tudo para ser um dos melhores atores da geração dele. O Pyrata me falou que gostava de Anthony Mann lá em Brasília. Esses mineiros são umas figuras, não é mesmo?"

Perguntei sobre os roteiros recentes, e comentei que o Daniel Chaia deve cuidar do "Deus desarticulado". "Um Anjo Desarticulado", ele me corrigiu: "A Sara tem que produzir o que ele quiser. Você viu os filmes dele, o Borboletas Indômitas e o De Resto, não viu? Te digo sem favor, o Dani Chaia é um dos melhores criadores de atmosfera do nosso cinema atualmente. Saber criar o ambiente de uma cena é uma arte, é uma questão fundamental para os cineastas de verdade. Por isso que o Valente tem que voltar a fazer filme. E por isso que o Fernando tem que fazer o dele. Não é mesmo? Da turma de vocês, ele sempre foi o que teve mais olho, como o Inácio na nossa. Eu sempre falei pro Inácio que os melhores textos dele eram os que transmitiam paixão, que faziam a gente querer sair de casa para ir no cinema! É ou não é? Foi assim quando ele escreveu sobre A Bela Intrigante, do Rivette, eu li e fui ver o filme na mesma hora!"

 Vi que o filme ia começar. Perguntei se ele queria que eu levasse algum recado para quem quer que fosse. Não precisava: "Todo mundo sabe onde me encontrar". É verdade. Quis dizer a ele que tinha escrito na minha tese que A Ilha dos Prazeres Proibidos e Império do Desejo conseguiam reconciliar o projeto marginalista com a utopia e que, através daquele estilo formalmente elaborado, ele tinha conseguido refletir artisticamente sobre uma porrada de questões do seu tempo - o desencanto em Lilian M, a radicalização existencial nas pornochanchadas subversivas, a crise dos 80 em Filme Demência. E que tinha feito com Alma Corsária o filme mais bonito sobre amizade, dane-se Sergio Leone. Que ele foi mestre de uma geração, de um monte de gente.
Não precisava dizer. "Todo mundo sabe onde me encontrar". Me dei conta de que tinha sido o último a ficar sabendo que Don Carlone está vivíssimo, todo mundo sabe onde pode encontrar ele.

Como a sessão estava começando, dei um abraço e resolvi sair fora, sem fazer mais barulho. Ele me levou até a porta, junto com seu poodle, e ainda me falou: "Insiste com o Sérgio Cohn. Ele é um desses malucos fundamentais. E avisa ao Aguilar que eu encontrei com o Peckinpah e o velho falou para ele parar de implicar com o Lynch". E deu uma boa risada.
Deixei um dvd com um bilhete curto, que dizia o mesmo que um monte de gente disse: Don Carlone, um beijo na alma e obrigado por tudo. 




Essa foto acima eu peguei do Daniel Camargo, que botou no youtube uma conversa com Don Carlone.

Abaixo, a música de Alma Corsária:

 



Escrito por daniel às 08h07
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Sganzerla no Suplemento literário

É muito boa a notícia do acesso irrestrito ao acervo do jornal Estado de São Paulo na web. Parece que existe a ameaça de que isso terá um prazo determinado e depois estará disponível apenas para assinantes. Espero que revejam essa idéia.
Quem me conhece sabe que eu tenho boas razões para não gostar do que se tem feito no jornal nos últimos anos. Mesmo assim, o Estadão tem um acervo importante, talvez o mais rico de todos entre os jornais brasileiros - todo mundo lembra que foi lá que o Euclides da Cunha publicou a série de reportagens que deram início a Os Sertões, por exemplo. Mas tem muito mais que isso no acervo.

Na área de cinema, nos anos 60 o Estadão deu espaço (muito)  para o então crítico Rogério Sganzerla publicar seus primeiros textos - ou melhor, quase primeiros, já que ele passou a colaborar com o Suplemento Literário do jornal após ter iniciado a carreira no Jornal da Tarde. 

Vários textos de Sganzerla publicados no Suplemento Literário foram compilados recentemente no primeiro volume da edição Edifício Sganzerla, publicada em 2010 pelo Itaú Cultural e pela editora da UFSC - o segundo volume tem alguns dos textos publicados na Folha de SP a partir do final dos anos 70. Uns poucos escritos para o Suplemento ficaram de fora - mas agora estão disponíveis pela web para qualquer um que não possa pesquisar os exemplares na Biblioteca Nacional. Procurei e selecionei aqueles que ficaram de fora dessa compliação de textos já editada em livro. Seguem abaixo (ao clicar, os textos se abrem em versão maior em novas páginas):






































Além dos textos do Jornal da Tarde, ainda há mais alguns de Sganzerla escritos nos anos 60 para outras publicações. Lembro de um sobre O Padre e a Moça, escrito para a revista Artes (republicado no site da Filmes do Serro).

Alguns dos textos de Sganzerla escritos do final dos anos 1970 em diante (quando ele voltou a colaborar eventualmente para jornais e revistas, sobretudo para a Folha de SP, mas também para veículos tão diversos como as revistas Filme Cultura e Vogue Homem) também já foram reeditados no segundo volume do Edifício Sganzerla. Outros escritos desse período ainda seguem merecendo uma boa pesquisa e publicação em livro.



Escrito por daniel às 06h37
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]