Há uma certa controvérsia em torno da idade de Jorge Ben Jor que se reflete até na wikipedia: enquanto a versão em português afirma que ele está fazendo 67 anos, a versão em inglês informa que ele nasceu em 1942 e, portanto, faz setenta anos hoje.
Seja como for, são 50 anos nos palcos. A ele, nossa gratidão pela alegria.
Ana de Hollanda pode ser criticada pelo que quer que seja, mas o problema não é ela, nem a teimosia besta da presidente em querer afirmar autoridade de forma inadequada.
O problema é simples: FALTA DE VERBA.
É por isso que Dilma mantém no cargo sua ministra fraca: ela NÃO PEDE VERBA.
Se Dilma quiser que Ana de Hollanda seja considerada a melhor ministra da Cultura desde o Capanema, é fácil: basta quadruplicar o orçamento do MinC. Não seria muito, mas chegaria a 1% do orçamento do governo. Ela NÃO QUER fazer isso.
Não quer e NÃO PRECISA. Não precisa porque nunca se comprometeu a isso.
Aí chegamos ao ponto principal: Dilma Rousseff foi eleita sem que seus militantes exigissem dela qualquer espécie de compromisso na área da cultura. Foi eleita porque o gostosão indicou.
Da próxima vez, sugiro aos militantes que exijam dos candidatos o compromisso com uma determinada agenda antes da eleição. Só fazer festinha em teatro é fácil, mas depois tem que aguentar os anos seguintes. Boa sorte pra todo mundo.
E vamos considerar que com o José Serra presidente poderia ser igualzinho - tão ruim como era na época do FHC. Por outro lado, o secretário de Cultura de SP, Andrea Matarazzo, é infinitamente mais competente do que a irmã do Chicão - e tem muito, MUITO MAIS VERBA.
Em inglês, como se sabe, "the players" pode querer dizer tanto "os jogadores" quando "os atores". The Players vs. Los Angeles Caídos é o primeiro longa do Alberto Fischerman, é um filme que anuncia a existência do "Grupo dos Cinco", é um marco do cinema argentino "de vanguarda" ou "moderno" e é mais uma porção de coisas. E é praticamente desconhecido no Brasil - nesse país em que tanta gente gasta tempo falando abobrinhas sobre cinema argentino.... Embora possa parecer cansativo, sobretudo para quem não tem familiaridade com o idioma portenho, The Players... é um filme fascinante visto nos dias de hoje, com toda a sua disposição em propor novas relações com a narrativa a cada cena.
Trechos do texto ¡Llegaron los players!, escrito pelo Edgardo Cozarinski (mais tarde, também um importante diretor de cinema) publicado na revista Primera Plana na edição de 17 de junho de 1969:
"O cinema argentino nunca conheceu nada parecido, e mesmo dentro do contexto internacional contemporâneo é um filme desconcertante, talvez único: chama-se The Players vs. Angeles Caídos, e desde a semana passada, num sótão da Avenida Corrientes, proclama a necessidade de uma desordem salutar, as bondades de uma arte aleatória.
(...) Pois o resultado é que The Players..., apesar de complexo, não é difícil; embora admita várias leituras, não se esgota em nenhuma delas: meditação sobre as relações do ator com seu ofício, ensaio sobre os vínculos pessoais e sociais enquanto jogo, versão livre de A Tempestade de Shakespeare, comédia musical com final feliz que pode ser vista enquanto se come chocolate ou, simplesmente, 80 minutos de celulóide impresso. Qual é a sua excepcionalidade? Seria miserável conceder a ele os méritos negativos de não ser uma reconstituição histórica nem um espetáculo folclórico como os que recebem os favores oficiais e conduzem o cinema argentino pelo caminho da arte dirigida. Em poucas palavras: é um filme argentino que participa do clima cultural criativo que nutre o que há de mais estimulante na arte contemporânea, ou seja, que vai além de sua condição de obra (concluída, fechada) para se voltar, com veemência, a uma condição de diálogo que espera e suscita uma resposta."
Isso foi republicado no livro El Grupo de los 5 Y Sus Contemporâneos, organizado pelo Néstor Tirri e lançado em 2000. Noutro texto do mesmo livro, o crítico Rafael Filipelli define o que foi esse "Grupo dos Cinco":
"Entre 1968 e 1969, Ricardo Becher, Raúl De La Torre, Alberto Fischerman e Nestor Paternostro filmaram, respectivamente, Tiro de Gracia, Juan Lamaglia y Sra., The Players vs. Los Angeles Caídos e Mosaico. Os filmes, salvo no caso de De La Torre (que é a cores e estreou numa grande sala), são em preto-e-branco e estrearam em salas periféricas."
O quinto dos cinco era Juan José Stagnaro, mais conhecido como diretor de fotografia, que em 1968 chegou a filmar e montar El Proyecto, título azarado para um filme que nunca foi finalizado.
O próprio Néstor Tirri escreveu um texto nesse livro, intitulado "Cinco... y algunos más", em que explica um pouco mais o que foi essa turma. Alguns trechos:
"Vem sido repetido até a exaustão, de fato, que o tão sonhado Grupo dos Cinco nunca existiu. Parcialmente verdadeira, essa frase é também parcialmente errônea. O que nunca existiu foi uma estética comum que sustentasse no tempo a produção e os legados destas pessoas como um movimento coerente. Ainda assim, o que produziram alguns dos Cinco e vários dos seus contemporâneos persiste como um modelo remoto e antecipatório do que hoje conhecemos como “cinema independente”."
"Uma utopia: filmar de outra maneira que não a que imperou nos anos cinqüenta e sessenta na Argentina. Mas nada mais. Esses cinco amigos nunca formularam uma postura com um mínimo de definição para conformar um movimento, uma corrente."
"Certamente, essas expressões se canalizaram em vertentes diversas”, masos filmes deste grupo consistem em"um material que, majoritariamente, circulou nas margens da exibição e, em alguns casos, não chegou a ser exibida nas salas convencionais."
No livro há também um comentário do Fischerman que, lido hoje, parece ser uma sacanagem com o Martin Scorsese, mas não é não (até porque o cineasta morreu em 1996). E esse comentário diz muito sobre The Players...:
"Eu ficava sentado na mesa de relojoeiro do meu pai quando era criança. Ele me entregava relógios irrecuperáveis para desmontar e, desde o princípio, eu não sabia remontar. Ficavam umas peças soltas, que eu guardava numa caixinha... Suponho que o que mais me aproxima do cinema é a montagem, a possibilidade de reorganizar a vida, que implica necessariamente em uma análise, um desmonte. A montagem é isso fundamentalmente, e por sua vez pode ser duas coisas: uma é a interpretação de uma matéria prima que é como o fluir de uma consciência, da associação livre que depois será interpretada, e essa é a tarefa da montagem do filme. Ou então pode ser o resultado de uma filmagem meticulosa, em que cada um dos planos é como uma peça de relógio, que logo deve ser posta no lugar correspondente para que o mecanismo funcione. Essas são duas concepções de cinema. Talvez eu faça filmes porque não pude ser relojoeiro, por isso é muito provável que meus filmes não sejam mecanismos de relojoaria."
Os leitores talvez se lembrem que escrevi por aqui dois posts (aqui) sobre Os náufragos do Louca Esperança, peça dirigida pela Ariane Mnouchkine, cuja companhia Théâtre du Soleil se apresentou aqui no Brasil no final do ano passado. Então, vale avisar que madame Mnouchkine está em vias de terminar um filme a partir da sua peça, ao que parece com o mesmo título. E a companhia resolveu apelar para a velha estratégia de "passar o chapéu" para financiar o que falta da produção, vendendo antecipadamente os DVDs. Hoje em dia isso virou moda, até ganhou nome chique em inglês, mas convenhamos que o pessoal do teatro faz crowdfunding há muito tempo. Quem quiser conferir o apelo pode visitar o site da companhia, aqui - e quem já quiser encomendar o DVD pode seguir para o link na Fnac. DVD que deve ser lançado por uma distribuidora de nome simpático para nós cinéfilos brasileiros: Belair (a mesma que lançou o primeiro filme da Mnouchkine, Molière).
O site do Théâtre du Soleil merece uma boa atenção por também incluir diversos dados sobre a peça - entre eles, a sinopse completa, os croquis das câmeras usadas em cena, a crítica da Cahiers para a peça e, de quebra, uma versão on-line de "Introdução à mística do cinema", texto clássico do Elie Faure (quem até hoje não leu tem aí à disposição).
Fiquei curioso para ver o resultado. A peça é da pesada e vi apenas um filme da Ariane Mnouchkine, justamente o Molière, de 1978. Que, ao contrário do que se pode imaginar, não era uma adaptação de peça, foi um filme pensado diretamente para cinema. E, em suas quatro horas de duração (em duas partes) é um filme bastante forte, com uma maneira bastante bonita de recriar o ambiente coletivo do teatro e suas paixões. Do trabalho da Mnouchkine só vi esse filme e a peça que já comentei e os paralelos entre os dois são bem interessantes.
Está terminando em Brasília uma mostra com os filmes do Jairo Ferreira, que já passou por SP e deveria vir ao Rio de Janeiro de algum jeito - se o CCBB daqui não quis, algum programador esperto deveria aproveitar a chance. Eu estava relendo umas coisas antigas aqui e, pra ajudar a lembrar como as coisas do Jairo são legais, achei que vale a pena listar mais uma vez os textos originais que ele mandou para a contracampo, já faz uns dez anos. São quatro artigos-crônicas: - Criticanarquicanozerodeconduta - Crônica - Coluna do Jairo, number 5 - Cinemagick (versão extendida do texto para o catálogo do Puppo)
Torço pra que um dia alguém consiga editar isso e pelo menos uma parte da produção dele para a Folha em um livro bacana, do mesmo jeito que o Alessandro Gamo reuniu as críticas para o São Paulo Shimbum no livro Crítica de Invenção.