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Passarim


os filmes de Navarro na MFL

Começa essa semana no Rio a edição 2012 da Mostra do Filme Livre (depois segue para SP e Brasília), e esse ano resolveram fazer uma homenagem da pesada: vão apresentar todos os filmes de Edgard Navarro, inclusive os mais raros que foram registrados em Super-8 ou em Beta (como é o caso de Talento demais). A programação completa no Rio, São Paulo e Brasília pode ser conferida aqui. No site também pode ser lida uma entrevista com Navarro.

Além disso, a MFL vai apresentar mais uma porção de filmes, como sempre, inclusive alguns promissores e outros de mestres ainda em atividade - como o novo curta de Luís Rosemberg, Trabalho.



Escrito por daniel às 04h10
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O Hugo é Cabret e eu fiquei cabreiro

Hugo, o novo filme do Scorsese, tem alguns momentos emocionantes quando se torna uma homenagem despudorada ao Méliès e ao que o nome dele representa - um cinema ainda ingênuo e desvairadamente imaginativo; o filme chega a um auge emotivo, uma espécie de gozo, quando nos reapresenta alguns trechos dos filmes do grande inovador. Outros pontos positivos: Ben Kingsley está incrivelmente parecido com Méliès, e também se sai muito bem Helen McCrory, que interpreta sua esposa, além de Christopher Lee, que surge como um bibliotecário que parece ocultar grandes segredos.
Mas, apesar da sessão ter esses momentos emocionantes, o filme dá uma certa sensação de pastel de vento. Saboroso, certamente, mas com umas forçadas de barra que vou te contar: aquela história do guri querer montar um autômato para receber uma derradeira mensagem paterna, olha, é de doer. Já que a onda do filme era fazer homenagens, o autômato podia se chamar McGuffin.
Esse autômato simboliza bem o filme, já que ele tem uma função totalmente clara. Todos os personagens parecem bonecos usados só pra gente conseguir chegar na história do Méliès, ou seja, no fato de que um dos maiores criadores do cinema chegou a um tal estado de falência que, depois de fechar seu estúdio, ficou uns anos trabalhando numa lojinha dentro de uma estação de trens. Esse drama é emotivo quando a gente que ama cinema pensa nele revendo os filmes do próprio Méliès, mas o resto de Hugo fica devendo um pouco - com uma exceção para a cena bonita dos papéis voando após saírem da caixa que cai do armário. No mais, o policial feito pelo Baron Cohen e os demais da estação de trens - a namoradinha dele, os velhinhos donos de cachorros - parecem estar lá só para chatear o guri. Beleza, a função na narrativa era essa, mas dava pra caprichar mais. O próprio Christopher Lee que eu mencionei acima é sempre uma figura divertida de se rever, mas no fim das contas o personagem dele não faz nada além de dar um livro de Robin Hood para o protagonista, que já tinha lido e não deu sinais de que iria reler.
Ok, já que estou num momento resmungão, devo dizer que prefiro muitas vezes o 3D de Avatar do que este de Hugo. A diferença é o uso de profundidade de campo (em Avatar) ou foco restrito aos personagens, com o fundo desfocado (em Hugo). Se o 3D nos provoca ilusão de profundidade, fica meio sem sentido (e cansativo) usar esse efeito e tirar a profundidade com essa área de foco restrita.

Não quero dizer que o filme é fraco - ele se deixa ver como uma boa experiência, agradável e, como já disse, emocionante em algumas partes. Mas é interessante como o Scorsese, após ter se canonizado, tem sido mais atacado nos últimos anos por um certo academicismo, uma relação sufocada com a história do cinema, de uma forma que me parece um tanto injusta - até chegar Hugo, que fica melhor se é visto sem essa pretensão, essa banca que incide na recepção ao filme por estrear nessa época do ano e tal. É um filme gostoso de ver e é ótimo para apresentar o nome de Méliès para o pessoal que não conhece, mas filmes meio tortos e excessivos como os anteriores Os Infiltrados e Ilha do Medo me pareceram mais interessantes, me dão mais vontade de rever.

Mas disse tudo isso e devo revelar um motivo profundo para o meu desconforto com essa recepção efusiva ao Hugo. Cheguei ao cinema cerca de meia hora antes da sessão e encontrei um cineasta veterano, que estava lá tomando um café com amigos. Me perdoem por omitir o nome dele, a razão vai ficar clara. É um sujeito que começou a fazer filmes no final dos anos 60 e fez pelo menos um grande filme na década seguinte. Perguntei como ele tem andado. Mal, bastante mal, ele me disse. Sim, eu sei que ele tem uma doença braba. Não, eu não sabia que ele está sem recursos para pagar o tratamento, e por aí vamos. "Mas parece que todo mundo da minha idade morreu ou está doente", ele me falou. Os filmes estão inacessíveis, quase todos (ok, dá pra baixar vários na internet em cópias não muito boas). E de fato há vários cineastas mais velhos que andam tendo problemas de saúde. Alguém pode dizer que assim é a vida, que cedo ou tarde as pessoas têm problemas de saúde, que podem ser superados etc. Mas há algo profundamente melancólico no tom da conversa - uma melancolia que se torna mais amarga quando, logo em seguida, eu vejo Hugo.

Para mim, não há mais como dissociar uma coisa da outra: nossa gente vai às salas de cinema e se emociona com a história da decadência do grande Méliès e da perda de tantos dos seus filmes. Enquanto isso, do lado de fora, alguns dos nossos cineastas mais inventivos continuam sendo pouco vistos e seus filmes ficam sumidos, interessando a uma turma restrita (ainda que isso esteja mudando, veja-se por exemplo o caso da recente mostra da Boca do Lixo em Rotterdam). Sabe a história dos filmes do Méliès que se perderam? Pois é, tem um monte de filmes de quatro décadas atrás que precisam de restauração urgente no Brasil.
E haverá quem se apaixone por Hugo e menospreze os filmes que não conhece.

Eu sei, a vida é assim. Não me digam para achar maneiro.






Escrito por daniel às 05h05
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a liberdade de Cage

Afinal de contas, é carnaval:



Escrito por daniel às 04h36
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dilacerando tudo

No mundo das chanchadas pornô só existe lugar para os que sabem se arrumar, para os fortes. E neste mundo o sexo é a linguagem usada para levar à platéia o apelo por uma luta individual, descomprometida com o que quer que seja. Erotismo não existe nesses filmes. Pornografia, a rigor, também não. As histórias (e as imagens usadas para contá-las) são feitas só de grosserias. O ato sexual é uma demonstração de força e implica necessariamente na vitória de um sobre o outro: o experiente conquistador come a virgem, a velha prostituta come o donzelo. Os mais belos, fortes, inteligentes e experientes estão no poder.
(...) “Se o tomate está caro compre massa de tomate”, recomendava o governo. A recomendação, traduzida em termos de cinema, em linguagem direta deu no seguinte: se cinema está difícil de fazer compre massa de cinema, a pornochanchada.
A grosseria. O deboche aberto, daí, muito certamente, vem o sucesso destes filmes com uma extensa parcela do público entre o começo e o final da década de 70. É bastante possível que o espectador da pornochanchada fosse ao cinema procurar só a confirmação de que o que iria se passar na tela era coisa bruta, mal feita e sem sentido. Era uma coisa rudimentar. Era uma demonstração de falta de talento, de desesperança, de beco sem saída, de descrença na possibilidade de viver em ordem e progresso. À primeira vista não faz muito sentido esta reação do espectador. Mas quando se retira das pessoas a possibilidade de se relacionar afetiva e efetivamente com a sua realidade, que mais pode existir além da emoção embrutecida e de uma meio doida sensação de que a grosseria faz parte inseparável do nosso modo de ser?


As pornochanchadas eram malfeitas e jogavam com a má qualidade como uma atração para conquistar o público. O mal acabamento [sic] era um modo de se vingar (vingança inconsciente e nada eficaz, mas vingança) da propaganda oficial que cantava um super país com técnica moderna, mas de 200 milhas, estrada transamazônica, a maior hidrelétrica do mundo, o maior futebol do mundo, ponte Rio-Niterói e outras coisas assim, igualmente gigantescas e refinadas e longe, muito longe do mundo do consumidor da pornochanchada. Os filmes são mal feitos, solução intencional, resultado da falta de dinheiro, resultado da falta de criatividade. O espectador com toda a certeza sabia que estava indo ver uma coisa mal feita, e queria isso mesmo. Ser mal feito era uma atração.

Falando da chegada do sexo explícito e do fim da era das pornochanchadas:

A grosseria, é claro, não terminou, mas mudou de estilo. Perdeu a originalidade, porque em toda aquela mal feita, miserável e suja estupidez existia uma certa originalidade que não conferia nenhuma vantagem à pornochanchada mas fazia dela uma coisa à parte no mundo do cinema, bem nossa, bem daquele momento. Com o sexo explícito a chanchada pornô se tornou igual a qualquer outra chanchada pornô de qualquer outro país, subproduto que ocupa os espaços vagos entre os lançamentos de superproduções estrangeiras em todos os mercados. A chanchada pornô, mesmo, tal como existiu entre 69 e 79 desapareceu. Mas deixou marcas espalhadas por todos os cantos, pois depois dela nem um só filme feito para ser consumido pelo grande público deixou de ter uma cena de sexo - cena onde os personagens se devoram mesmo, agressivos um com o outro, como numa luta marcial, como numa competição de ginástica em que apenas um deles pode sair vencedor. Derrotados saímos todos nós.

Trechos tirados de O cinema dilacerado, de José Carlos Avellar.
Vinte e cinco anos depois, isso soa muito estranho, não é mesmo?




Escrito por daniel às 16h20
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um comentário de Bernardet

"Mário Chamie já afirmou, parece-me que com razão, que, no seu relacionamento com o público, a chanchada em geral teria como função basca levar o espectador a rir de si mesmo. Os espectadores se projetariam sobre os personagens grotescos destes filmes e ririam deles, possibilitando uma catarse que aliviaria o complexo de inferioridade de um público/povo que se despreza quando se compara aos países industrializados, que não se sente suficientemente ativo no processo histórico do seu país e, ao mesmo tempo, consolidaria o complexo de inferioridade. Frequente, depois de uma atual pornochanchada, o comentário: “Brasileiro é assim mesmo”. Frequente também o espectador que se diverte durante a projeção e renega o filme na saída. A paródia que pertencia ao cinema popularesco introduziu-se recentemente no cinema erudito, é um componente importante do Underground (como do Tropicalismo).
(...) Parodiar, para usar palavras de Paulo Emilio, não é combater, mas sim debater-se no subdesenvolvimento.
"

Trecho do Cinema Brasileiro: Propostas Para Uma História, provavelmente o livro mais "pauloemiliano" dele (e um dos melhores).



Escrito por daniel às 04h42
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