O Marcelo Ikeda publicou em seu blog, aqui, o discurso que o Gustavo fez ao passar adiante o cargo de diretor-presidente da Ancine. É uma fala muito bonita, com a amplitude e a erudição que caracterizavam a inteligência dele.
E o Carlinhos Alberto Mattos publicou no blog dele, aqui, um bom testemunho do Gustavo como editor chefe da Filme Cultura. Também só conheci o Gustavo pessoalmente quando fui chamado para participar da nova redação da revista. De fato, como diz o Carlinhos, era notável o entusiasmo do Gustavo com ela. As conversas das reuniões sempre eram um baita aprendizado. Ele tinha o cuidado e a curiosidade de ouvir a todos antes de decidir, e ele sempre decidia. Foi ele quem definiu o rumo e a cara de cada uma dessas cinco edições da Filme Cultura - e sempre esteve empolgado com a tarefa. Em cada reunião, a gente ouvia estórias de juventude sobre Paulo Emilio, Biáfora, Glauber Rocha, Paulo Cezar, Diegues, Jean Claude, mais Paulo Emilio, Biáfora, críticos italianos, Bellocchio... Lembro que uma vez puxei na reunião um assunto sobre o Bellocchio, que era colega de escola e amigo do Gustavo, e aí ele nos contou que fez assistência de direção do Marco Bellocchio num filme de escola. Alguém aí na Itália bem que podia localizar esse filme!
O Gustavo estava envolvido em alguns projetos que eu torço muito pra que sigam adiante sem percalços. Um deles era o anexo do CTAv, já erguido, mas ainda não inteiramente pronto. Lá, segundo os planos do Gustavo, será feita uma reserva técnica de qualidade ideal para negativos e cópias - uma reserva técnica pública e digna do nome no Rio de Janeiro. Falta pouco para que tudo fique pronto, e acho que pode ser uma homenagem bonita se a reserva técnica ficar pronta e ganhar o nome do Gustavo, que trabalhou pra caramba pra que ela venha a existir. Não vou dizer "lanço a idéia" porque aposto que alguém já deve ter tido antes, mas faço parte da campanha.
Outro projeto notável, esse ainda menos divulgado, é o lançamento da coleção completa dos filmes do INCE/INC em DVD. Esse também está nos finalmentes. Eu dei uma ajudinha revisando uns textinhos, mas sei muito pouco dele. Sei que, além de uma parte imensa da obra do Humberto Mauro, há filmes de gente como Walter Lima Jr., Luiz Carlos Barreto e Alex Viany, entre vários outros.
Sei também que deve estar ficando pronta a biografia do Gustavo, que está sendo escrita pela Sheila Schvarzman para a série Aplauso, da Imprensa Oficial. Não tenho certeza se isso inclui também uma seleção dos textos críticos do Gustavo, mas acho (e espero) que sim.
E, além disso, um projeto que começou a ser feito nos últimos meses foi a catalogação de todos os documentos dele, como textos e cartas. A Alessandra Meleiro, que está envolvida nesse trabalho, me contou que isso está sendo feito pela Cinemateca Brasileira. Torço muito para que vá adiante e logo possa tornar esses documentos disponíveis para pesquisadores e para o público.
E, caramba, não é tão complicado para uma distribuidora de filmes lançar os três longas dele em DVD - já foram até telecinados, é só acertar com a família e lançar.
A metrópole, como alguém já disse há bastante tempo, não pára de provocar os nossos sentidos de maneiras diversas. Essa é uma cidade em que muita gente anda muito pelas ruas, ainda que no mesmo momento haja mais uma porção de gente viajando por debaixo da terra. Tem muitas pessoas, muitos sons, cheiros, idiomas, propagandas, sujeira, plantas, sabores, ambientes mil. Mas os olhos são os que têm motivo para mais gratidão por esses dias aqui.
Todo mundo sabe que Nova York tem alguns dos museus com mais obras canônicas e impressionantes - são pelo menos dois dos mais importantes do mundo, o Metropolitan e o MoMA (e o da Filadélfia é perto daqui). É tanta coisa bonita junta nesses museus que a gente sai muito mexido. Muitos artistas se debateram e ainda se debatem com o aspecto de canonização e conservadorismo dos museus, até com certa razão, mas é só fazer um passeio calmo e de olhos bem abertos por aquelas salas pra gente ver que obras postas em museus não ficam apaziguadas e menores - ao contrário, elas vão se sucedendo em impacto. A historização das formas é o negócio mais careta do mundo, mas os quadros falam por si. O cânone é isso aí: consegue suportar a nossa curiosidade, o nosso discurso e anda ter algo único a mostrar.
E pude ver dois filmes que instigam bastante o olhar. Um já é antigo, chama-se Cassis e é um pequeno curta do Jonas Mekas. É um filme com uma proposta bastante enxuta: ele apresenta em ritmo acelerado as imagens de um porto numa baía por onde passam barcos ao longo de um bocado de tempo, com notáveis mudanças de luz por conta dos diferentes horários do dia. A história da produção pode ser lida no depoimento do realizador aqui, onde ele conta que, em julho de 1966, estava visitando Jerome Hill, na França, perto de um lugar onde Seurat mantivera um ateliê por alguns anos. Observando como a luz incidia sobre a vista do mar que tinha diante de sua janela, Mekas resolveu fazer um filme em homenagem ao estilo de Seurat.
Isso é ele quem diz, e faz sentido. Depois de ter ido a todos esses museus, antes de pensar em Seurat eu me lembrei muito de alguns trabalhos do Claude Monet, como os quadros em que ele retratou a mesma perspectiva da Catedral de Rouen com luzes de momentos diferentes.
E ontem eu e Carol fomos ver o novo filme do Herzog, o documentário Cave of forgotten dreams, em que o alemão nos traz imagens feitas numa caverna, novamente na França, onde foram encontradas pinturas feitas possivelmente há mais de 28 mil anos. As pinturas são tão bonitas que fica até difícil de acreditar, parece que foram retocadas anteontem. Para mostrar isso, Cave of forgotten dreams faz uso do recurso da fotografia em 3D. É um recurso que atrapalha bastante o filme na maior parte do tempo (tem plano com câmera na mão em 3D, imaginem vocês, esse Herzog é um pândego mesmo), mas é tão importante para nos mostrar o relevo das pinturas nas rochas que, enfim, há que se reconhecer que vale a pena. Talvez o filme ficasse melhor se uns 70% das imagens estivessem em 2D e os 30% das pinturas na caverna fossem em 3D. O filme guarda uma surpresa bem herzogueana para o final, surpresa tão sinistra que nos apresenta um jacaré mirim branco, albino - e o humor, se há, é negro.
Herzog conversa com os cientistas e narra ele mesmo a experiência de fazer o filme, mas o que o move é mesmo que move o filme do Mekas: a crença no fascínio pelas imagens, imagens que registram um mundo. Cassis usa a inspiração dos impressionistas para olhar e registrar o mundo com a beleza que ele traz para o filme. Já o Cave of forgotten dreams procura os primeiros antecedentes do olhar estético, como que a descobrir o momento em que esse olhar existe, em que ver o mundo e retratá-lo pode dar origem à percepção&produção da beleza.
Espero que algum bom distribuidor leve o filme do Herzog para salas decentes no Brasil. E o filme do Mekas nem é difícil de conseguir, já que a cópia que vi dele está disponível permanentemente ao público, em 16mm, na Biblioteca Pública de Nova York.
Fui ver esse filme mais recente do Woody Allen, Meia-noite em Paris - que, se não chega a empolgar, é um filme que se deixa ver agradavelmente. No início e no final, eu desconfiei que ele tinha topado filmar em Paris só para poder botar uma gravação inteira do Sidney Bechet tocando sax soprano. Me pareceu ser um filme típico do diretor, típico no sentido de não trazer nada de muito novo ou surpreendente, mas também no bom sentido, porque um filme nos padrões do Allen sempre tem a sua boa dose de graça. É o caso desse aqui.
Sempre que o Allen entrega a outro ator o lugar do protagonista hipercrítico que ele mesmo interpretou tantas vezes, as pessoas comentam como o ator se baseou no modelo original. Mas eu desconfio que é outra coisa: que esse é o modo do personagem; que aquele tempo das falas e resmungos é que determina o personagem que o Allen criou. É claro que atores diferentes como o Owen Wilson, o Larry David, o Jason Biggs e o Kenneth Branagh, por exemplo, encontraram formas diferentes de fazer esse personagem, mas ele tem uma maneira de ser que nós, espectadores de filmes anteriores, logo reconhecemos.
O filme me pareceu ter tirado uma boa dose de inspiração do Essa noite é minha (Les belles de nuit), do René Clair - que, já nos anos 1950, também tinha essa piada de alguém que volta no tempo e, quanto mais volta, continua encontrando alguém a dizer que as décadas anteriores eram mais interessantes. A questão sobre a nostalgia dá um certo peso ao filme, mas pelo menos provoca boas piadas. Os encontros com os artistas dos anos 1920 rendem algumas cenas divertidas, como a do encontro com os surrealistas.
O que é curioso é que essa questão sobre a nostalgia, na verdade, parece ser um mcguffin, uma desculpa para disfarçar a questão principal, que é a melancolia do protagonista. É uma melancolia que é abandonada no final, mas não é resolvida - Gil, o personagem do Owen Wilson, termina o filme decidido a se dedicar ao ofício de escritor, menosprezando o trabalho de roteirista de cinema, mas nada indica que ele vai ser bem-sucedido nos seus sonhos, dos quais ele só se tornou consciente dos problemas do passadismo. Seja como for, o desfecho nos garante que ele resolveu fazer a aposta, arranjou uma nova namorada e ficou em Paris. Se não é remédio, pode ser uma distração prazeirosa.
Já faz uma semana que viemos a Nova York e nossa viagem entrou na segunda e última etapa. Nesses dias de organizar as coisas, tive a sorte de ir ver um show do Gato Barbieri na casa de shows B.B. King Club (desconfio que o guitarrista deve ser dono do lugar, mas não consegui descobrir se é de fato). O Barbieri sempre deu a impressão de tocar saxofone feito um bárbaro, apresentando uma intensidade tremenda, uma intensidade que estava presente tanto nos seus momentos mais experimentais quanto nos mais farofeiros. Talvez por isso, mesmo com o cara já tendo quase 80 anos, foi estranho ver ele entrar no palco se apoiando num contra-regra e precisando de cadeira. Mas foi só a música começar pra ver que os pulmões do coroa estão inteiraços, assim como a inteligência musical dele.
Foi um baita show. O Barbieri sempre teve um lado bem showman, mas quando ele e a banda esquentaram foi bonito de ver. Tocaram Sabor a mi, Summertime, um trecho do Last Tango in Paris, entre outras coisas.
Bem que deveriam aproveitar pra levar o argentino pra tocar no Brasil, já faz muito tempo que isso não acontece.
Essa foto eu tirei com o celular. É, não ficou grande coisa. Essas câmeras de celulares guardam as imagens em dezenas de megapixels, mas com lente ruim não tem megapixel que dê jeito. Mas fica aí o registro. Abaixo, uma gravação mais antiga do Barbieri, tocando Na baixa do sapateiro e, em seguida, a sua composição Zapata.