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Woody Allen e Cinema Português: duas mostras notáveis com cópias em 35mm
Acabei nem avisando aqui a tempo, por conta da eterna correria entre Rio das Ostras e Rio, mas na quinta-feira passada fiz a mediação de um debate realizado na edição carioca dessa mostra A Elegância de Woody Allen, que está acontecendo nos CCBBs de Rio e São Paulo. Foi muito legal o debate, com a presença na mesa da Mariana Baltar, do Arthur Dapieve e do Gustavo Spolidoro, e também foi bacana notar que a mostra está fazendo um sucesso tremendo, pelo menos aqui no Rio de Janeiro: o debate ficou bem cheio e a sessão anterior, em que foi exibido Annie Hall, estava lotada.
A produção de A Elegância de Woody Allen também editou um catálogo gigantesco e muito bom sobre toda a carreira do ator, cineasta e escritor, catálogo para o qual escrevi um texto sobre Hannah e suas irmãs (e também arquivei aqui). Mas o que me parece mais admirável na mostra é o cuidado em apresentar todos os filmes nas condições mais adequadas, com exibição em cópias 35mm. Foi muito bom poder ver Annie Hall em película numa sala de cinema lotada.
Então, fica aí a dica: essa é uma boa chance pra rever os filmes prediletos da carreira do cineasta careta (après Veloso) mais querido pelos cinéfilos brasileiros. A programação está aqui.
E nessa terça-feira vai começar no Mam uma mostra de filmes portugueses também notável. Primeiro, porque vai reunir alguns dos principais filmes da geração do chamado "Novo cinema português", que se fez entre o início dos anos 60 e meados dos anos 70. São filmes praticamente desconhecidos no Brasil até hoje, com a possível exceção do filme de João César Monteiro incluído na mostra, Quem espera por sapatos de defunto morre descalço. Como curiosidade, vale lembrar que alguns dos diretores dos outros filmes da mostra foram também co-realizadores do filme coletivo As Armas e o Povo (1975), de cujo grupo participou o viajante Glauber Rocha. Além disso, essa mostra tem o mesmo mérito da que foi comentada nos parágrafos anteriores: todos os filmes serão exibidos em película, com cópias cedidas pela Cinemateca Portuguesa. Ou seja, a oportunidade é rara e é rica.
A programação, que inclui curso e debates, vai acontecer no Mam do Rio somente de terça a sexta desta semana - e pode ser conferida aqui.
Escrito por daniel às 04h42
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uma opinião sobre Herbert Richers (1923 - 2009)
"o Herbert foi o melhor produtor que eu tive, dava sempre carta branca. Ele tinha extrema confiança, era o produtor ideal".
Escrito por daniel às 23h43
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Jorge Ben Jor na Trip
A entrevista que a revista publicou esse mês com o gênio total está disponível na internet: aqui.
Escrito por daniel às 05h41
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um cineasta quer que as pessoas vejam o filme que ele fez
Com raras exceções, qualquer cineasta faz seu filme com o desejo de que o maior número possível de pessoas o veja. É preciso lembrar disso, porque ainda há tolos que insistem no lero-lero de que "os diretores fazem filmes para o próprio umbigo" e etc.
Pois bem: Guilherme de Almeida Prado, o diretor de Onde Andará Dulce Veiga, resolveu passar à ação para fazer seu trabalho ser visto nesses tempos em que o esquema de distribuição está em crise. O que fez ele então? Fez o mesmo que andam fazendo centenas de diretores de curtas amadores: por conta própria, disponibilizou o filme para download na internet e divulgou através de comunidades do orkut. Dá-lhe!
 Certamente não foi o primeiro caso - de cabeça, lembro-me agora do caso do Bruno Vianna, que fez isso com o seu Cafuné, cujo download ainda permitia que o espectador modificasse o filme (o que, sinceramente, eu acho uma bobagem - mas aí é uma outra conversa). Mas, além da diferença que existe entre os valores de produção do Onde Andará Dulce Veiga - que teve um orçamento bastante razoável e vários atores de prestígio - e os de todos esses curtas que são upados no Vimeo, há ainda outra coisa que separa a atitude de Almeida Prado das similares: o desencanto com o esquema antigo de lançamento de DVDs. Ainda que seja um filme forte e com boa dose de ousadia - coisas que, como a gente sabe, costumam atrapalhar a carreira comercial de um filme brasileiro e provocar comentários irados na internet - Onde Andará Dulce Veiga tem apuro técnico e elenco famoso suficientes para entrar nos mesmos esquemas dos nossos filmes, digamos com alguma ironia, "industriais".
Mas não foi isso o que aconteceu - Almeida Prado explicou sua atitude na comunidade orkutiana "Filmes brasileiros (download)" da seguinte forma: "Como não existe a menor chance que eu consiga lançar o DVD do meu filme...". Ou seja, pelo que escreveu o diretor isso se deve ao mercado de DVDs estar fechado a filmes como o seu. Pois está mesmo, e isso se deve à tal crise que mencionei. Embora Manoel Rangel, o presidente da Ancine, tenha me dito que o mercado de DVDs ainda é imenso, a verdade é que ele está encolhendo muito, e por conta disso as distribuidoras estão investindo cada vez menos e cortando sua folha salarial. Por isso, um filme que tem no elenco atrizes famosas como Maitê Proença e Carolina Dickermann pode acabar não sendo lançado nas locadoras. Nesse caso, se o diretor quer que seu filme seja visto e não há nenhum contrato com distribuidora que o impeça de botá-lo na web, esse parece ser o melhor jeito de difundir o trabalho. Almeida Prado foi o primeiro a reconhecer a questão e pôr mãos à obra.
No momento, a melhor versão disponível para download, considerada ótima pelo próprio diretor, está dividida em duas partes, totalizando cerca de 1,5 gb: a primeira parte está aqui e a outra está aqui.
 Então, pra quem ainda não viu fica a dica: vale a pena baixar e conferir Onde Andará Dulce Veiga. Baseado num livro do Caio Fernando Abreu (que eu devo confessar que ainda não li), o filme é um verdadeiro OVNI dentro do panorama dos filmes brasileiros por todo o seu grau de elaboração, pela preocupação em recriar e rever alguns signos fortes (o classicismo da bossa, o artificialismo do rock 80) dentro de uma outra perspectiva; e justamente por essas razões acaba sendo um filme notável, emocionante mesmo, pelo menos para os que aceitarem entrar na sua viagem. É uma viagem cinematográfica onírica, memorialista e recriadora - uma viagem que não tem nada de verista, realista, naturalista ou coisa parecida. Por isso, exige do espectador que tenha olhos e cabeça livres para uma investigação sobre o desaparecimento de musas e sobre a mudança das gerações: das sensibilidades, dos gostos e dos gestos.
Nesse sentido, é bastante curioso o uso que o filme faz da canção Meditação, o clássico de Jobim e Newton Mendonça. Ouve-se diversas vezes a melodia da canção ao longo de Onde Andará Dulce Veiga, alternando um arranjo tradicional com outro em ritmo de rock -, só que a letra cantada não é a original, mas outra; que, curiosamente, parece ter sido feita a partir de uma tradução da versão em inglês da canção, ou seja, é como se fosse uma versão filtrada por traduções. Dessa forma, ao somar Jobim e rock, metrópole e floresta, a investigação não-jornalística (ao mesmo tempo cultural e policial) acerca do destino de Dulce Veiga acaba se tornando uma investigação sobre os caminhos e descaminhos estéticos que definiram o percurso traçado dos modernos-clássicos anos 50 aos pós-modernos anos 80 e ao pós-tudo e junto-a-tudo de nossos dias. Não sei se isso já estava presente no livro do Caio Fernando Abreu, mas no filme isso é feito com um desejo de (re)invenção que dá uma força notável ao trabalho.  Vamos ver então se a facilidade no acesso através da web faz Onde Andará Dulce Veiga provocar mais algumas ideias por aí. Com relação ao gesto de difundir o filme pela internet, ele me parece ser bastante louvável - bem que o nosso querido ministério da cultura poderia deixar de se fazer de avestruz e começar a estimular (ou, em certos casos, como os de clássicos e acervos das cinematecas, simplesmente pôr em prática) iniciativas idênticas à do Almeida Prado.
Escrito por daniel às 23h11
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anotações sobre a revista "Tiempo de Cine", dos anos 60
Conforme eu tinha escrito alguns posts abaixo, seguem aqui algumas anotações sobre a revista argentina Tiempo de Cine, que foi criada pelo grupo que mantinha o CineClub Nucleo - que chegou a ter um jornal com seu próprio nome por alguns meses antes de criar a revista.
- Antes de tudo, é preciso dizer que a Tiempo de Cine foi a que teve o melhor cartunista em sua redação (pelo menos até que alguma revista de cinema contrate o Laerte): era ninguém menos do que Quino, o próprio. É pena que a biblioteca não tenha permitido que eu tirasse xerox desse material de arquivo - havia alguns cartuns muito bons do mestre, ainda bem no início de carreira. Pra dar apenas um exemplo, logo na primeira edição: o desenho mostra um sujeito com uma tesoura numa mão e a película na outra, onde se vê que trata-se de uma cena de sexo, e o sujeito em questão está gritando para um assistente: "separe trinta segundos de ondas do mar batendo nas rochas". Craque é craque - e em cada edição tinha um cartum original do Quino, o que não é pouca coisa.
- Da mesma maneira que a predecessora Gente de Cine, a Tiempo de Cine publicou material traduzido. Mas dá pra perceber que a ideia de apresentar "material original" era uma questão para eles, mais do que para a outra revista - logo no primeiro número os leitores são avisados de que a revista seria feita sobretudo por textos escritos especificamente para ela, com raras exceções que seriam explicitamente indicadas. Ou seja, a revista prometia que não seria apenas uma coletânea de textos de outras origens. Ainda assim, a tendência ao cosmopolitismo até hoje celebrada pelos portenhos se fazia presente de forma respeitável, com contribuições de correspondentes em outros países - por exemplo, cada edição apresentava um texto novo de George Fenin relatando o que estava sendo feito de novo nos EUA, discutindo desde a Hollywood de Cleopatra e dos filmes de Nicholas Ray até o cinema underground dos irmãos Mekas, passando por todo o cenário das produções independentes feitas desde Shadows. Também na primeira edição (de agosto de 1960, como já disse) há um texto sobre o cenário do novo cinema português, em que, em meio a alguns filmes citados de jovens realizadores, o redator Fernando Duarte afirma que a "obra máxima do cinema português" ainda era um filme de 1931 chamado Doiro, Faina Fluvial, o documentário de estreia de Manoel de Oliveira - que na época de 1960 estava distante da produção de filmes, para preocupação do autor do texto. Mal sabia ele. E os críticos da redação eram antenados, embora eventualmente cometessem equívocos históricos, como pode acontecer com qualquer um - descartam Pierrot le Fou como um sinal de dacadência, por exemplo. Em compensação, publicam o roteiro de Hiroshima mon Amour, produzem análises da carreira do Satyajit Ray. Já em 1964, apontam de imediato a força de Deus e o Diabo... e de Vidas Secas, que tem foto publicada na contracapa da revista.
- Ainda acerca dessa tendência (ou, no mínimo, essa disposição) para o cosmopolitismo, isso também pode ser conferido na página que a revista dedica a listar outras publicações - algumas também argentinas, mas a maior parte de outros países (com indicação de onde achar em Buenos Aires). Falam de revistas e jornais uruguaios, espanhóis, franceses (a Cahiers e a Présence du Cinéma), italianos (entre outros, a Cinema Nuovo editada pelo Guido Aristarco, que também escreve artigos exclusivos para a Tiempo de Cine) e brasileiros (citam as publicações Cine Clube e Revista de Cinema - olha aí Rafael, conforme a gente tinha imaginado...).
- Mas a grande diferença da Tiempo de Cine para a revista que eu tinha comentado antes é a relação com a produção de filmes na Argentina - e nisso eu devo dizer que simpatizei geral com os caras. Porque eles tinham como ponto de partida, desde a primeira edição, que deviam tomar posição e fazer escolhas. Os críticos da revista deixavam bem claro quando não gostavam de um filme argentino - mas não se refutam a discutir, a analisar. E, quando gostavam, iam para a linha de frente. São, de modo geral, bastante simpáticos com os realizadores da nova geração, cujos filmes eram notadamente menos convencionais do que os da geração anterior e também mais influenciados pelo cinema dito moderno feito na Europa. (até hoje, muitos deles são, digamos, acusados de terem produzido filmes que apenas reproduziam cacoetes de linguagem da Nouvelle Vague - o que, pelo menos acerca dos filmes que eu vi, me parece ser uma crítica cega, bem equivocada). Pois a Tiempo de Cine abriu espaço para falar de todos os filmes que estavam sendo feitos na Argentina. É fácil notar quais eram os realizadores mais queridos pela redação, não apenas pelos textos dedicados a seus filmes como também pelas entrevistas que davam sobre projetos futuros - é o caso de Rodolfo Kuhn, David José Kohon, Martínez Suárez e mais alguns outros. Realizadores mais velhos como Lucas Demare ou René Mugica são tratados às vezes com uma impressionante agressividade verbal - em outras vezes, reconhece-se algum valor nas suas produções de fim de carreira (por exemplo, a crítica de El Reñidero, de Mugica, reconhece que o filme é interessante, afirmando que é de longe a melhor produção dele até então).
Esse interesse pelo cinema produzido no país é constante e bastante investigativo: há espaço para crítica de curtas em várias edições, os editoriais sempre tratam de questões referentes ao INC ou à censura, vários artigos discutem as mudanças que vão se passando no cenário, entre crises e eventuais grandes filmes, e a partir de 1962 a revista passa a ter uma seção fixa, a "De lo nuestro", para criticar a todos os filmes argentinos que são exibidos, mesmo os que não entram em cartaz - críticas que, como já falei, não se fazem de rogadas em ser severas; mas nunca pecam pelo silêncio ou pela covardia em tomar posição (no final de 1962, um dos críticos afirma que a produção do ano foi um desastre no plano estético, citando os nomes dos filmes a que se refere). Além disso, em 1963 a revista publica um extenso panorama dos novos realizadores.
E, ao mesmo tempo, a redação apresentava o "bom gosto" comum à crítica daquele período, com seus componentes e editores mostrando-se envergonhados e horrorizados diante do sucesso dos filmes do diretor e produtor Armando Bo, que apresentavam a sua mítica esposa Isabel "Coca" Sarli (ex-miss Argentina) em cenas com figurino bastante reduzido, até mesmo inexistente. Naquele momento em que havia sido criado o Instituto Nacional do Cinema, as notas atribuídas pelos jurados aos filmes tinham consequências diretas sobre os financiamentos dos filmes seguintes dos realizadores. Pois a Tiempo de Cine deu um piti no seu editorial quando o filme de Bo ...Y el demónio creó a los hombres (uma piada óbvia com o filme de Roger Vadim com a Bardot) ganhou a nota máxima (nota A) e o filme Dar La Cara, de Martínez Suaréz, ganhou uma nota menor (ganha B). E isso não ficou restritou ao editorial: no seu cartum, Quino desenhou os jurados vendo um filme ser projetado com uma cena com uma mulher de seios de fora; eles ficam babando e dizendo "ahhh!!!" e o secretário, de costas, anota numa prancheta: "nota A".
Escrito por daniel às 06h04
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Michael Jackson, Pajarito e o crepúsculo dos ídolos
Foi uma coincidência que teve um efeito bem forte pra mim: vi em dias seguidos Pajarito Gómez, Una Vida Feliz, filme argentino de 1965 dirigido pelo Rodolfo Kuhn, e This is it, filme sobre os ensaios do show não-realizado do Michael Jackson. Olha, a relação entre os filmes foi bem punk.
Pajarito Gómez é um filme muito bom, que inclusive foi exibido recentemente no Brasil (fez parte daquela mostra "Do novo ao novo cinema argentino", que aconteceu nos CCBBs em setembro) e é fácil de achar na internet (está, por exemplo, no fabuloso Clan-Sudamerica, cuja inscrição é gratuita). A ideia do enredo é bem simples: o personagem-título é um cantor pop que, em busca do sucesso, permite que sua vida seja completamente manipulada e destruída pela indústria. Pois é. E o filme consegue apresentar uma dimensão humana bem forte dos seus personagens, ao mesmo tempo em que a própria narrativa é provocativa, ao reutilizar com ironia o estilo típico dos filmes de publicidade.
Uma coisa curiosa de se notar é que a realidade pode se tornar muito mais bizarra e delirante do que as ficções mais sóbrias, como seria o caso desse filme do Rodolfo Kuhn. Digo isso porque o personagem do Pajarito Gómez foi inspirado num cantor que começou a fazer imenso sucesso nos anos 60, 'Palito' Ortega - segundo me foi dito pelo amigo Goyo Anchou, na época do filme o cantor era tão conhecido que todos percebiam a origem da paródia (isso também pode ser comprovado aqui). Pois é. E, como eu dizia, a trajetória do 'Palito' Ortega é muito mais bizarra do que o enredo que o filme conta: entre muitas outras coisas, já nos anos 70 ele cantou slogans do governo - durante a ditadura; mais tarde, tornou-se político importante - foi governador da província de Tucuman e senador). E continua em atividade, seja lá o que isso queira dizer.
Mas, enfim, ainda que a história da vida real seja mais bizarra, Pajarito Gómez é um filme e tanto, com um olhar que, embora tenha muito humor, é bastante melancólico e amargo sobre o mundo que mostra. Esse olhar poderia ser condenável pelo seu esquematismo e pela sua amargura, mas isso fica mais difícil depois de ver This is it. Às vezes as histórias dos ídolos são um tanto esquemáticas e tristes mesmo.
Naquela coletânea de imagens, dá pra ver que Jackson continuava sendo um dançarino excepcional, mesmo que não tivesse mais a mesma leveza de vinte anos antes - caramba, ele já tinha 50 anos e ainda tinha mais leveza e agilidade que todos aqueles dançarinos profissionais trinta anos mais jovens! Em compensação, sua voz estava sem alcance e ele dava sinais de que sabia muito bem disso, ainda se segurando nos falsetes.
Essa fragilidade da voz, a agilidade dos movimentos, a amabilidade extrema nas falas, as roupas estilosamente bizarras, tudo isso dá ao Jackson no filme a imagem que faltava pra ele ter a cara de um fantasma. É um espetáculo bem triste, parece ser a pior concretização do pesadelo de Pajarito Gómez.
Então fica aí a dica: pra ver This is it, vale a pena procurar também por Pajarito Gómez, um filme argentino de 1965.
Escrito por daniel às 06h33
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uma conversa com Manuel Antin (e as diferenças entre as estruturas dos cinemas argentino e brasileiro)
Mais de uma pessoa me sugeriu procurar o sr. Antin para uma conversa sobre o período que vim pesquisar. O Antin fez nos anos 60 alguns filmes bastante considerados, adaptados de contos do Julio Cortázar - foi chamado de Antinioni, com alguma ironia, pela Tiempo de Cine. Mais tarde, na era Alfonsín, ele tornou-se o diretor do Instituto Nacional do Cinema, o órgão estatal que gerencia o apoio aos filmes (e, como se sabe, hoje se chama INCAA, adicionando as "artes audiovisuais" ao seu nome). Depois disso, tornou-se reitor da Universidad del Cine, que acabou se tornando a mais importante da Argentina na área de cinema. O sr. Antin me deu o prazer de uma conversa de alguns minutos em que me apresentou seu ponto-de-vista sobre o cinema argentino daquele tempo, do que se passou desde então e do panorama atual - e, como bem me disse um amigo, ele é antes de tudo um cavalheiro.
A visão que o Antin me apresentou é bastante favorável ao Instituto, dizendo que a continuidade da produção argentina e o respeito que os filmes têm angariado de tempos em tempos se deve a uma política de apoiar a todo tipo de projeto, que desde a criação do INC procurou oferecer aportes que tornassem possíveis as produções, tanto aquelas com mais capacidade de obter boa bilheteria quanto aquelas que, por vários motivos, podem não ter boa performance financeira. Isso depende de ter alguma grana, é claro - e, como se sabe, essa verba do INCAA é financiada pela taxa cobrada nos ingressos de salas, percentuais de TV etc. Essa mesma que tentaram fazer no Brasil recentemente e não emplacou. Então, na visão do Manuel Antin, o que garante a boa saúde dos filmes argentinos é ter oxigenação constante de grana injetada na produção do maior número de filmes possível, feita do jeito mais aberto possível.
Então, amizades, quando alguém falar sobre "superioridade do cinema argentino" e etcétera etcétera, a gente sempre pode discordar, tentar pensar na comparação a partir de filme-a-filme e coisa e tal. Mas, se é pra ter visão generalista, fica aqui a sugestão de citar uma frase lapidar do senhor Antin: "o segredo, não conte para os americanos, é que hoje em dia os cineastas argentinos podem fazer seus filmes como querem e não precisam dar satisfações a ninguém, nem mesmo ao público." É claro que o coroa falou isso com uma cara de gozação, todavia é uma boa frase.
Como se pode imaginar e o mesmo amigo que definiu Antin como um cavalheiro me explicou depois, isso que ele me disse não corresponde à realidade de todos os anos de existência do INC - mas é verdadeiro, no entanto, no que se refere ao período de Antin no Instituto, quando foi dado apoio a toda sorte de projeto. Essa atitude não teve aprovação unânime na época: o diretor Alberto Fischerman criticou isso em entrevistas, dizendo que "o período Antin terminou por produzir muitos filmes que não pensaram em dialogar com o público". Pois é, no entanto foi justamente naquele momento que se seguiu ao período Antin que o próprio Fischerman, com grana de produtores independentes, botou gente pra caramba nos cinema pra ver suas comédias; e, curiosamente, o Fischerman também havia começado a carreira fazendo filmes considerados de vanguarda, enfim...
Enfim, já é hora de fazer as malas. Sair do Rio e viajar é muito bom, mas bom mesmo é voltar pro Rio.
Escrito por daniel às 05h35
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algumas anotações sobre a revista "Gente de cine"
Como eu já comentei aqui no blog, só quando chegar ao Rio que vou poder conferir boa parte do material que eu estou conseguindo em Buenos Aires - não tenho como ver no hostel os DVDs que consegui obter e boa parte dos livros só vai fazer sentido quando puder ver os filmes. Mas há uma parte da pesquisa que tem que ser feita nas bibliotecas daqui, a parte que se refere à crítica feita na época, porque parece que nada disso foi republicado em livro, não há compilações dos críticos argentinos daquele período. Então, nesses últimos dias tirei as tardes para ler as coleções que a biblioteca da Enerc tem das revistas Gente de Cine, editada entre 1951 e 1955, e "Tiempo de Cine", editada entre 1960 e 1965.
Cheguei a mencionar a curiosidade que essas revistas me despertaram, sobretudo a primeira, que nem tem tanto a ver com o que eu estou pesquisando (a segunda tem bem mais), mas que permite que se perceba um pouco do clima da cinefilia da época. A Gente de Cine era uma publicação de um grupo que também mantinha o principal cineclube da cidade, e nos seus poucos anos de existência ela mostra um vigor cinefílico realmente admirável, que me fez refletir sobre várias analogias possíveis com a nossa crítica - talvez até mais com a de hoje do que com a daquele período. Porque a Gente de Cine tem relativamente poucos textos próprios - quer dizer, é claro que tem em bom número, mas a perspectiva básica da revista é publicar textos que pareçam fundamentais para a cinefilia, mesmo que sejam quase todos traduzidos de outras fontes. Ou seja, a crítica não é feita apenas com textos, mas com a seleção e edição de outros textos. Isso tem acontecido bastante hoje em dia na crítica da internet, mas na época não era nada comum. E a Gente de Cine tinha bom faro e conseguia coisas boas: publicaram textos assinados por gente como Orson Welles (sobre Shakespeare), Erich Von Stroheim, Carl Dreyer, Griffith, Chaplin, Grierson (o seu "manifesto", claro), Antonioni (em 1951!), Abel Gance, Ingmar Bergman, René Clair, Louis Delluc, De Sica, muito Zavattini, Alberto Cavalcanti (em dois textos preciosos, um sobre o "nascimento do documentário inglês" e outro fazendo um panorama bastante pessimista sobre a produção brasileira de cinema - em 1952, dando sinal claro de seu cansaço com os problemas da Vera Cruz) e mais um monte de figurinhas carimbadas de quem eles arrumavam textos publicados em outros países.
Com uma lista dessas, parece óbvio que eles tinham bom olho. Mas não era bem essa cocada toda, eles também deram algumas vaciladas históricas. Fascinaram-se com o neo-realismo e com Bergman na hora mesmo, no laço, e também sabiam defender e apontar as qualidades de um Hitchcock (que era chamado de mestre pela revista já em 1951) ou de um Nicholas Ray de início de carreira. Mas o menosprezo que a revista mostra diante de filmes como American Guerilla in the Phillipines e Rio Grande... no primeiro caso, diz-se que "Fritz Lang é um caso, como o de John Ford, de um velho cineasta que está estragando os filmes que fez anteriormente" (e dois anos depois ele faria Rancho Notorious...). O único comentário reservado ao segundo é "leia-se o que já foi publicado nesta revista sobre John Ford". E o filme em questão era Rio Grande! Baita mico.
Se descartarmos a bizarrice de botarem a Evita Perón na capa no mês da morte dela (em que, segundo nos conta o editorial, as atividades do cineclube foram paralisadas por duas semanas, além de enviarem telegrama de condolências para o general Perón), o aspecto que talvez seja mais revelador da, digamos, condição cultural do pessoal é a relação com os filmes argentinos. Nos primeiros anos, há somente um cineasta que é tratado com deferência especial, o Leopoldo Torre Nilsson; na verdade, mais pelas ideias que pelos filmes, porque estes eram até bem-recebidos, mas os artigos escritos pelo Torre Nilsson eram publicados na primeira página (desde a primeira edição), ou seja, era uma figura por quem a revista mostrava muito respeito (note-se que na época ele ainda não tinha nem trinta anos e havia dirigido apenas dois dos vários filmes de sua carreira). Fora ele, a revista ainda mostra respeito e algum interesse pelos filmes do Lucas Demare e pelos do Hugo del Carril, além de ter algumas palavras de estímulo para o jovem Fernando Ayala ("um dos poucos jovens realizadores que procuram conhecer a história do cinema"). Há ainda, ao longo de algumas edições de 1952, a iniciativa de fazer ensaio cronológico "para uma futura história do cinema argentino", com apontamentos sobre os principais filmes feitos até meados dos anos 30. Mas essa é uma iniciativa que não apenas é interrompida sem motivo claro (há apenas uma nota de rodapé), como jamais apresenta qualquer relação com o que se publica nos demais artigos. E, de modo geral, todos os textos sobre os filmes argentinos mencionam o "perigo da complacência". Mas, na verdade, o espaço dado para os filmes argentinos é sempre bastante pequeno nas edições...
... até setembro de 1954, em que há um texto bastante extenso que acusa tanto o cinema que está sendo produzido quanto a crítica, de modo geral. No texto de cabeçalho, a revista já tratava de se eximir de responsabilidades, dizendo que sempre tratou os filmes com respeito, mas sem condescendência - o que, na maior parte dos casos, me pareceu ser verdade, embora o espaço dado aos filmes locais fosse, de fato, bastante reduzido. De todo modo, esse texto indicava uma movimentação - e na edição seguinte a revista apresentou uma cobertura extensa (oito páginas, mais da metade da edição) do novo filme de Lucas Demare (Guacho, que ainda estava em plena fase de produção), com direito a entrevistas com toda a equipe, inclusive músicos e figurinista. Talvez por motivos inteiramente diversos, a publicação terminou seis meses depois.
A Tiempo de Cine tem algumas diferenças bem radicais com relação a essa antecessora - é uma revista bem mais agressiva acerca do que gosta e do que não gosta no cine argentino (chega a dizer, por conta de um outro filme do mesmo Demare, que "seu cinema "físico", feito de palavras fortes e numerosos extras, começa por sorte a pertencer ao passado"). Mas sobre essa eu conto mais depois.
Resolvi contar sobre isso aqui por conta do post recente do Inácio sobre crítica - em que eu fiz um comentário que foi respondido pelo nosso querido Rafael Ciccarini, editor da Filmes Polvo. Lendo a Gente de Cine, fiquei imaginando se alguma outra revista no Brasil teve a mesma capacidade de escolher e disseminar textos estrangeiros tão bacanas e importantes. Nos anos 30 teve O Fan, do pessoal do Chaplin Club, mas era um negócio bem diferente, ainda mais se for falar da revistas do Gonzaga. Eram outra coisa. Mas o Rafael me lembrou da Revista de Cinema, editada em Minas Gerais pelo Cyro Siqueira. Segundo o Rafael me contou há pouco no bate-papo, a Revista de Cinema publicou boa parte desses textos alguns anos mais tarde.
Mas, pelo que me pareceu da conversa que tive com o Rafael, esse meu espanto ainda tem razão de ser. Porque a Revista de Cinema tinha a pretensão, como a crítica brasileira sempre teve desde o modernismo, de apresentar um pensamento, digamos, "original" (mesmo que depois a gente desconfie que não era bem assim). O pessoal da Gente de Cine tem vários redatores com posições bastante fortes e algumas polêmicas meio banais (bobagens como "a imagem é mais importante que o tema ou os diálogos? O cinema mudo era superior?" ou "quem é o autor do filme, o roteirista ou o diretor?"), mas não há nenhuma necessidade de se diferenciar de criar um outro lugar para a crítica que eles fazem. Talvez porque, conforme imaginei conversando com o Rafael, a Gente de Cine não pretendesse ser original, apenas superior, digamos assim. Era uma boa revista de crítica, mas a postura monástica não tinha como se sustentar. Até porque era menos do que uma escolha, era uma condição - como fica evidente no provincianismo mostrado quando da visita de Vittorio de Sica a Buenos Aires e ao cineclube para receber uma homenagem.
Escrito por daniel às 05h21
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