A minha impressão sobre o novo filme do Marcelo Piñeyro tem piorado conforme o tempo passa e fica a lembrança. Vi anteontem e no primeiro momento tive algum interesse pela força com que o filme acusa seus personagens, pela mágoa demonstrada por ele. Isso ainda me fez ver uma cena curiosa na sala, assim que acabou o filme: havia duas adolescentes e a mãe de uma delas, e a filha ficava dizendo à mãe: "como é que você gosta de uma porcaria dessas, de um filme tão chato" e etc, e a mãe não falava nada. Quer dizer, pelo menos no instante em que eu vi a cena, ela só manteve um olhar meio perdido e triste. É um filme que se enquadra no estilo de "cinema do mal-estar", como já era o caso do último do Piñeyro, El método.
Mas essa vontade sincera de expressar a mágoa por uma época - no caso, a Era Menem - acontece de uma forma banal, titereira, chata mesmo. Um filme que provoca mal-estar profundo não é por natureza bom ou ruim, acho que eu consigo lembrar aqui de vários filmes geniais que são capazes de provocar mal-estar; mas, realmente, não é porque o filme quer ser sincero em mostrar sua raivinha que ele se torna interessante. Ok, os autores do livro e do filme têm muito nojo de pessoas que moram em condomínios particulares - e daí?
Daí que em Las Viudas de los Jueves essa condenação é feita com uma mão pesada de lascar e uma absoluta falta de interesse em dar alguma espécie de relevo a o que sentem os seus personagens. Parece que a ideia era só fazer uma pantomima para mostrar como uma parte da classe alta argentina estava alienada do que aconteceu no país no início da década. Mas ok, tudo bem, deu pra entender o recado. Só não entendi muito bem por que é que estão vendendo o filme como um thriller, um filme de mistério. Aí eu já acho sacanagem, porque não é nada disso não. Fica aí o aviso pra quem for ver (e sempre pode ter quem goste) que, bom ou ruim, o filme é um drama. Ou então é o thriller com menos cenas de tensão já feito até hoje: nenhuma, pra ser exato.
A Zingu! pôs no ar a sua edição comemorativa de três anos de existência - e o pessoal escolheu uma homenagem da pesada para essa comemoração: a pauta é dedicada ao nosso querido Carlão Reichenbach. Tem textos dedicados aos filmes, depoimentos de amigos e uma entrevista bastante extensa, que cobre praticamente toda a carreira do cineasta - é leitura imperdível, portanto.
Fui ver esse novo filme do Campanella com o Ricardo Darín e devo dizer que me desapontei com o resultado. Nem tanto pelo percurso dos dois, que nunca me encheu os olhos, mas por conta do rebuliço que provocou aqui na Argentina: o filme está arrebentando na bilheteria e teve boa recepção da crítica. Enfim, eu já devia imaginar - e aposto o que tiver no bolso que vai ser mais um caso que, quando estrear no Brasil, vai provocar aquele velho lero-lero sobre "por quê os argentinos conseguem e os brasileiros não?".
De fato, o filme consegue tocar em dois sentimentos que parecem falar caro ao, digamos, espírito latino-americano: um é o da sensação de mediocridade, de estar desperdiçando a vida; o outro, que fica mais explícito no final, é o do ressentimento, que acaba sendo uma armadilha em que todos acabam presos. A história tem dois pólos básicos, o da questão criminal e o da relação amorosa. Ela pode ser resumida mais ou menos da seguinte maneira: o Darín interpreta um funcionário da promotoria que, ao se aposentar, revisita um velho caso mal-resolvido de crime (um estupro em que o criminoso foi libertado) e, em consequência, uma história mal-resolvida de amor. O filme então se estrutura com idas e vindas no tempo: ora nos conta essa revisita às pessoas e historias do passado, que leva a uma nova investigação; e ora nos mostra o que aconteceu quase trinta anos antes. E sempre mantém o tom de pequenez do universo dos personagens, de história sobre gente que não viveu como queria, um clima de funcionalismo público mesmo. Aí, no final, a gente descobre que uma vingança estava sendo executada durante todo esse tempo que se passou, de tal maneira que o ódio deixou ambos os lados presos um ao outro. Me pareceu ser um recado sobre uma situação específica - achei claro que aí tem uma metáfora sobre a tentativa de punir os criminosos das ditaduras.
Tudo isso é muito bem-feitinho, mas O Segredo dos teus Olhos procura conciliar o mal-estar provocado pela descoberta da vingança ressentida de uma maneira que me deixou até meio constrangido: depois de todo esse sentimento brabo, extrai-se a fórceps um final feliz para a historinha de amor. E pronto, o recado está dado: só é ressentido quem quer, porque a felicidade está ao alcance de qualquer um. Sinceramente, aí não dá, né?
Pois é, surpresas da Riofilme. André me achou no celular, aqui em Rosario, para contar sua surpresa ao ser avisado pelo seu pai, o Dadá, que o nosso Conceição - autor bom é autor morto vai ser exibido hoje no Canal Brasil. Bem que, na última reunião que tive lá na Riofilme, com o diretor comercial Adrien Muselet, ele me avisou que iria vender vários filmes para alguns canais de TV e o nosso iria entrar no pacote. Dito e feito, e com rapidez. Enfim, o filme vai ser exibido hoje à noite, com reapresentação amanhã de madrugada, e imagino que ainda vá ser reexibido algumas vezes nos próximos meses. Quem ainda não conferiu tem aí mais uma chances (desde que tenha o Canal Brasil na sua TV, a preços extorsivos). Os horários podem ser conferidos aqui.
Sendo assim, nada melhor para o domingão de turista do que ir conhecer o estádio do Newell's Old Boys, um dos dois grandes clubes daqui da cidade de Rosario. O estádio do Newell's fica numa área central da cidade, na Av. Carlos Pellegrini, é um estádio de porte médio, imagino que caibam umas 40 mil pessoas, e estava bem cheio. O jogo foi entre o time da casa e o então líder do campeonato, o Estudiantes. A partida prometia, já que Newell's está fazendo boa campanha e o Estudiantes, além de ser o atual campeão da Libertadores, tem como maestro do meio-de-campo o craque Juan Sebastián Verón, que anda comendo a bola desde que voltou à Argentina.
E foi o time visitante que tomou a iniciativa do jogo, dominando o meio-de-campo e partindo para o ataque, com muito mais toque de bola. Verón estava jogando razoavelmente, mas deu pra ver que estava cansado - jogou pela seleção argentina em Montevidéu na quarta-feira, depois deve ter tido uma boa comemoração... enfim, o armador do time estava correndo pouco e só tocava de primeira. E tanto os atacantes do time como os dois laterais são bastante habilidosos e guerreiros. Mas devo confessar que minha simpatia era pelo time da casa. Primeiro porque o Newell's é de Rosario e, se de Buenos Aires tive a impressão de que é uma cidade bastante agressiva, devo dizer que Rosario é uma cidade amável como poucas. Além disso, as cores do clube tornavam inevitável a minha simpatia: o Newell's tem como cores o vermelho e o negro. São gente-boa, portanto.
E foi o Newell's que, jogando no contra-ataque de forma um tanto atabalhoada, fez o primeiro gol da partida, já aos 30 minutos de jogo, numa bela jogada de linha de fundo. Ficou eufórica a torcida, que também passa os noventa minutos cantando a plenos pulmões, como eu já tinha visto acontecer no Monumental de Nuñez - pelo jeito, no país inteiro é assim. Mas, enfim, a tocida mal teve tempo de comemorar, porque dois minutos depois o atacante Benítez, do Estudiantes, fez um jogadaça em que driblou dois zagueiros e bateu no alto, com força - o goleiro ainda espalmou, mas a bola morreu no fundo da rede. Um a um, e ficou nessa até o fim do primeiro tempo.
No segundo tempo, o cansado Verón foi substituído e, não sei se por este motivo, o time do Estudiantes recuou. Foi vacilo deles, porque assim o time da casa foi mais à frente e o jogo ficou mais parelho. De todo jeito, jogar em casa sempre é uma bênção na hora de influenciar a arbitragem. Num dado momento, lá pelos vinte minutos, o lateral esquerdo do Estudiantes entrou livre com a bola dominada na área e o zagueirão da casa veio como um bonde. Essa eu vi direitinho: a trombada foi dada enquanto a bola corria lisinha, sem que o zagueiro nem chegasse perto. E o juiz? correu com o cartão amarelo na mão e apresentou-o ao atacante. Também, quem mandou entrar com a bola dominada na área do time da casa? Aí, uns cinco minutos depois, o Newel's entrou atacando pela esquerda, o armador driblou um zagueiro e tocou de leve para o alto quando o outro zagueiro veio voando de carrinho - e aí o sujeito resolve dar uma tremenda cortada na bola... Pênalti claro, que dessa vez foi marcado pelo juiz. O goleiro até defendeu, mas deixou rebote e aí não teve jeito: Newell's 2 x 1 Estudiantes. Com essa vitória, o time de Rosario sobe na tabela e o Estudiantes deixa de ser o líder. A cidade toda ficou feliz e até agora há pouco eu ouvia os buzinaços. Pois é, isso me parece familiar.
Como contei, Rosario é uma cidade bem diferente de Buenos Aires. Não tem o mesmo pique e a mesma riqueza, mas tem uma gentileza muito rara de se ver. Conversando com os professores e amigos Julio Diniz e Paulo Britto, chegamos à definição de que é uma cidade de um milhão de habitantes que mostra uma cordialidade parecida com a de um vilarejo do interior de Minas Gerais. Se algum dos leitores quiser um dia desfazer qualquer má impressão sobre nossos vizinhos do sul, sugiro que venha a Rosario.
Outra hora conto aqui as novidades sobre minha investigação, quando estas novidades ficarem mais claras. No momento, estou me vendo em busca de informações e dos filmes de um determinado cineasta argentino que se encaixa mais-que-perfeitamente no esquema que me propus a analisar: o sujeito se chama Rodolfo Kuhn. Sei, entre outras coisas, que ele teve laços com o Brasil - foi um dos diretores do filme em episódios O ABC do Amor, de que também participou nosso célebre Eduardo Coutinho. Se alguém tiver mais informações ou pistas sobre este cineasta portenho, certamente são bem-vindas.
Alguns leitores devem lembrar dos meus resmungos num post abaixo sobre as péssimas condições de exibição de filmes em projeção digital a que os frequentadores de cinema temos sido submetidos; no post, meu resmungo aconteceu sobretudo porque as salas de exibição não divulgam nem mesmo a informação prévia acerca da tecnologia usada nas projeções - e porque, tendo entrevistado o Manoel Rangel, diretor da Ancine, eu fiquei um tanto bolado com a atitude da Agência de lavar as mãos com relação a esse desrespeito com os espectadores.
Pois é, e é evidente que, convivendo com isso mais do que eu, que tenho ido pouco ao cinema, muitos críticos e cinéfilos andam fulos da vida com esse assunto. Em grande parte pela circunstância do Festival do Rio, que apresentou uma qualidade baixíssima de projeção em algumas sessões, mas não só por isso: várias salas do circuito comercial andam exibindo filmes em condições de imagem e som lastimáveis, sobretudo a partir da tecnologia (mal-usada) da Rain.
A situação chegou a tal ponto que o Pedro Butcher propôs numa lista de críticos, o Fórum da Crítica, que se fizesse um manifesto coletivo, ideia que obteve apoio imediato de todos os integrantes desse fórum, ou seja, de uma boa parte dos críticos de cinema em atividade. Segue abaixo o texto dessa carta, redigida pelo Pedro (contando com observações de vários outros, sobretudo do nosso amigo Fernando Veríssimo) - texto que tem a assinatura coletiva do Fórum da Crítica e que eu também subscrevo integralmente:
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CARTA ABERTA AOS RESPONSÁVEIS PELA PROJEÇÃO DIGITAL NO BRASIL
A projeção digital chegou ao Brasil com a missão de democratizar o acesso aos filmes e libertar os distribuidores da dependência de cópias em 35 milímetros, cuja confecção e transporte são notoriamente caros. A instalação de projetores digitais permitiria ao público assistir a títulos que dificilmente seriam lançados nas condições tradicionais e ainda ofereceria condições para que espectadores situados longe do eixo Rio-São Paulo (onde se concentram quase 50% das salas de cinema do país) tivessem acesso aos mesmos títulos simultaneamente.
O que estamos vendo, no entanto, é uma total falta de respeito ao espectador no que se refere à exibição do filme propriamente dita. As razões são basicamente duas: projeções incapazes de reproduzir fielmente os padrões de cor e textura da obra e/ou projeções incapazes de exibir os filmes no formato em que foram originalmente concebidos. Sem falar no som, que muitas vezes ganha uma reprodução abafada, limitada ao canal central, muito diferente de seu desenho original.
A adoção da projeção digital pelos dois maiores festivais internacionais do Brasil (o Festival do Rio e a Mostra de São Paulo) e por outros festivais do país, infelizmente, não respeitou o que seriam critérios mínimos de qualidade de projeção de filmes em cinema – algo que é observado com atenção em qualquer festival internacional que se preze. Trata-se de uma situação particularmente alarmante tendo em vista o papel de formadores de plateia que esses eventos desempenham.
Sucessivamente, temos visto um autêntico massacre ao trabalho de cineastas, fotógrafos, diretores de arte, figurinistas, técnicos de som e até mesmo de atores. Apenas para citar um exemplo: Les herbes folles, o novo filme de Alain Resnais, originalmente concebido no formato 2:35:1, foi exibido no Festival do Rio, com projeção digital, no formato 1:78. Isso representou o corte da imagem em suas extremidades, resultando em enquadramentos arruinados, movimentos de câmera deformados e rostos dos atores cortados. Um pouco como se A santa ceia, de Leonardo Da Vinci, tivesse suas pontas decepadas, deixando alguns discípulos de Jesus fora de campo – e da história. Para completar o desrespeito, não há qualquer aviso em relação às condições de exibição e o preço cobrado pelo ingresso não sofre qualquer alteração.
Não nos cabe, aqui, pregar a “volta ao 35mm” nem defender determinada resolução mínima para a projeção digital. Sabemos que, se respeitados determinados critérios técnicos – ou seja, se a empresa responsável pela projeção digital receber do distribuidor o master no formato adequado, se o processo de encodamento for feito corretamente, e se os ajustes necessários para a exibição de cada filme forem realizados cuidadosamente –, a projeção digital pode ser uma experiência perfeitamente satisfatória para o espectador.
Não é isso, porém, que tem ocorrido. Exibidores, distribuidores e os fornecedores do serviço da projeção digital são responsáveis pela má qualidade da projeção e coniventes com esse lamentável descaso geral, que tem deixado críticos e amantes de cinema indignados. É um desrespeito ao cinema e aos seus criadores, mas, sobretudo, ao espectador e consumidor final, que saiu de casa e pagou ingresso para ver um filme.
A situação chegou a um ponto intolerável. Pedimos a todos os profissionais envolvidos com a projeção digital que tomem providências para que tais deformações não se repitam.
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Essas duas imagens que exemplificam o corte de imagem em A Última Ceia, assim como a versão serrilhada do quadro que coloquei no início desse post, foram feitas e passadas pra lista pelo bom Fernando, o Veríssimo.
O texto da carta aberta também está publicado num site para coletar assinaturas coletivas. Quem concordar com o que leu pode clicar aqui e deixar seu nome lá.
O museu criado pelo tal milionário colecionador Eduardo Constantini é muito bonito, é uma iniciativa notável. Não conheço nada sobre esse cara, mas é uma pena que esse tipo de iniciativa não vingue no Brasil - excetuando-se algumas iniciativas da burguesia paulista da década de 50, os ricos brasileiros só investem dinheiro em arte e cultura a partir de grandes benefícios fiscais, como se pode ver nos vários institutos culturais que os bancos privados ergueram com ajuda da lei de incentivo.
O Malba tem peças de quase todos os artistas latino-americanos mais célebres: Rivera, Tarsila, Frida Khalo, Torres-García etc. Não sei como é com relação à pintura de outros países mas, pelo menos com relação às peças brasileiras, me pareceu que a curadoria se deixa levar demais por critérios de "prestígio" e "representatividade". Ou seja, fiquei com a impressão de que as peças brasileiras que estão lá servem para contar a historinha das artes visuais que se lê nos textos, mas não são o que se tem de melhor. Bem, o "Abaporu" ficou famoso com aquela celeuma que rolou quando ele foi vendido, e além disso há peças de Portinari, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Lygia Clark, Oiticica, Gerchman e outros, e ter tudo isso é bem legal, mas certamente eu prefiro Anita Malfatti a Tarsila e senti falta de algo do Iberê Camargo. Ok, isso é gosto pessoal... Mas fiquei desapontado quando percebi que não se podia tocar nas obras da Lygia Clark - as peças em metal (casulos, se não me engano) que estão no Malba ficam protegidas por vidros que nos impedem de mexer nelas. Ou seja, a exposição comete um erro conceitual e contraria a proposta da artista ao impedir que a gente se relacione com a tridimensionalidade das obras. Alguém tem que avisar ao Constantini que isso é um mico.
Mas não reparem esse jeito resmungão. Isso que eu falei são pontos negativos, mas o Malba tem um acervo da pesada, além de ser um lugar bem bonito e ter uma sala de cinema com uma programação bastante boa. Também tem exposições contemporâneas ou outras dedicadas a artistas específicos - no final do mês vai abrir uma dedicada ao Andy Warhol. Atualmente, estão exibindo os trabalhos de um cara chamado Miguel Angel Ríos, que é bastante bom, os vídeos dele são bem inteligentes e provocativos; um deles é inclusive bem familiar e engraçado, porque usa computação gráfica para inverter as camisas de Pelé e Maradona, com o primeiro fazendo um gol com a camisa da seleção argentina e o outro fazendo o mesmo com a camisa do Brasil - chama-se "Neither Color, Nor Height".
Do acervo, fiquei bastante impressionado com algumas peças dos argentinos Antonio Berni (o que tem mais quadros em exposição por lá, acho) e, claro, Xul Solar. Berni é um pintor com uma trajetória imensa e o museu nos permite ver isso, apresentando quadros desde os anos 30 até meados dos 70. Assim como ele, o Xul Solar (que há alguns anos teve uma série de quadros expostos na Bienal de SP) também se meteu com as vanguardas europeias, sobretudo a turminha surrealista do Breton. O Berni tem coisas muito bonitas, mas o trabalho do Xul Solar me é mais impactante. Além deles, também achei memoráveis os dois quadros que o museu tem do chileno Roberto Matta, cujo "Los Desastres del Misticismo" é tão bonito que fiz questão de catar na web para terminar este post.
A falta de atualização deste blog na última semana não foi por falta de assunto, mas por falta de tempo mesmo, por conta do final de temporada da peça, da preparação pra uma viagem de estudos à Argentina e do consequente trabalho de organizar as aulas na Uff para não deixar furos. Cheguei anteontem a Buenos Aires, onde fico por uns dias antes de rumar para Rosario, depois volto para cá. A intenção é conseguir encontrar material relacionado à pesquisa da tese de doutorado que estou fazendo na Puc, em que a proposta é refletir sobre os casos de cineastas que estiveram ligados à chamada contracultura e mais tarde ao universo de filmes pretensamente vulgares; pra fazer algo relacionado a isso por aqui, vou tratar de procurar alguns filmes malucos feitos aqui na Argentina entre os anos 60 e 80, e também tentar descobrir bons textos críticos publicados no período sobre estes filmes "vulgares". Num primeiro momento, já que voltarei para o Rio em um mês, a intenção é apenas coletar material, para ver e ler com calma no Brasil. Se algum leitor lembrar de filmes, livros ou nomes de pessoas que tenham a ver com isso, ideias e dicas são bem-vindas.
Enquanto isso, vou começando a conhecer Buenos Aires. A familiaridade é uma coisa realmente notável - passei por umas poucas outras cidades de fora do Brasil e a impressão de estranhamento em todos os casos foi muito maior do que aqui. Essa familiaridade tem se misturado ao choque natural de ir descobrindo pedaços de uma metrópole, que nunca é moleza, ainda mais porque não conheço ninguém por aqui. A gente sempre está sujeito a ser logrado quando é turista recém-chegado, e minha contribuição para o folclore da fauna local reside em registrar as práticas lamentáveis de alguns dos motoristas de táxi que vi por aqui. Sei lá, talvez tenha sido só uma coincidência de casos em que dei azar. Taxista metido a malandro no aeroporto já é clássico em qualquer lugar do mundo, mas hoje o que me levou ao estádio Monumental foi mais pilantra: me passou uma nota falsa de 50 pesos. Pelo jeito, o fofinho carrega na carteira notas do gênero para passar aos turistas desavisados. De repente tem gente assim no Rio, deve ter em todo lugar no mundo, sei lá. Mas aí, pra piorar, na saída do estádio, quando estava chovendo, não apenas não havia táxis na região, como os que passavam se davam ao luxo de escolher (ou recusar) passageiros, trajetos e tarifas. Ou seja, uns amores. Pode parecer exagero, mas demorei duas horas até conseguir encontrar um táxi livre que se dispusesse a vir ao Centro. Que sufoco!
Pois é, como contei, esse perrengue foi para voltar do estádio Monumental de Nuñes, onde eu vi a Argentina também passar sufoco - no caso dela, para vencer o Peru por 2 x 1. Aquela lenda de que tem uns caras que gritam e cantam o jogo inteiro é verdade. E aquela lenda de que os torcedores argentinos são dramáticos também é verdade, até pela natureza do jogo, que era fundamental para a vaga da Argentina na Copa do ano que vem, mas é preciso registrar que eles também têm senso de humor, pelo menos alguns dos que estavam por perto. A torcida, de fato, ainda ama o Maradona acima de tudo (tinha uma faixa com as cores da seleção e um desenho dele como camisa dez, junto com a frase "é proibido esquecer-se disso"), mas sabe emitir sua opinião sobre bons e maus jogadores. O zagueiro Heinze, por exemplo, tem o prestígio em baixa, como é fácil de se perceber: quando o locutor anunciou os nomes dos jogadores, o dele foi o único que provocou algumas vaias. Em compensação, a torcida tem dois heróis: o capitão Mascherano (que todos chamam de "Masche") e o centroavante reserva Martín Palermo - cujo nome foi o último a ser anunciado pelo locutor e foi o que provocou mais aplausos e comoção da torcida. Pelo jeito, eu estava sentado perto de torcedores do Boca Juniors.
Começou o jogo e com dez minutos a torcida já pedia a entrada do Palermo. Mascherano de fato não perdia nenhuma bola, Messi aparecia em boas jogadas, a Argentina teve umas quatro chances de fazer um gol e necas. Já o Heinze provocava uma gozação divertida de um coroa que estava por perto: sempre que o zagueiro pegava na bola (e acabava fazendo suas pixotadas), o coroa exclamava em tom ironicamente admirado: "Que jogador!". Mas também, pudera: das dez primeiras bolas que o jogador pegou, em pelo menos metade ele caiu na grama ao fazer o passe. Ele devia estar com a chuteria errada, pode ser, mas era cruel ver o jogador perseguido pela torcida desabando no gramado todas as vezes em que tocava na bola. Quando começou o segundo tempo a coisa se animou. Logo no primeiro minuto o Peru teve um lance de perigo, ou seja, fez mais do que em todo o primeiro tempo. Aí, com três minutos, o centroavante Higuaín, uma aposta do Maradona, recebe a bola livre na grande área e marca um gol. Eu tive a impressão de que ele estava impedido, mas é claro que eu estava errado e que isso não acontece no estádio Monumental. Aliás, era divertido ver a torcida se afligindo com faltas pretensamente "inexistentes". A partir de uma hora, o time argentino baixou o sarrafo, mas quem haveria de condená-los por isso? Bem, aí o Peru fez um gol, a Argentina fez outro no finalzinho - pra euforia dos torcedores que estavam por perto, o gol foi do Palermo - e assim o drama se resolveu. Quer dizer, se resolveu pra eles, porque eu estava tentando escapar da chuva tremenda que começou a cair e nem vi direito esses gols do final do jogo. Fiquei encharcado e demorei duas horas pra conseguir voltar ao hotel. Isso eu já contei.
Também é muito curioso ter chegado em Buenos Aires no momento em que o governo argentino conseguiu aprovar no Senado a nova lei dos "meios audiovisuais". Os jornais estão em polvorosa e nas ruas há cartazes fazendo propaganda para os dois lados, mas os níveis são diferentes: os cartazes a favor da reforma são sóbrios, até caretas, com uma frase impactante e a assinatura do partido; enquanto os cartazes contrários que vi são mais marotos - eles mostram uma foto do casal Kirchner rindo diante de um estúdio do tipo "Jornal da Globo", com o título "Los Exito$o$ K" e um textinho ao lado dizendo que a intenção do casal é fazer telejornais onde só exista a versão deles. O cartaz não tem assinatura. Essa é a campanha do Clarín e de outros veículos da mídia contrários à nova lei, que procura impedir a existência de monopólios: segundo eles, que são prejudicados pelas novas medidas, o governo faz isso porque o casal Kirchner é autoritário, corrupto e pretende se manter no poder. Bem, de fato esse negócio de a esposa suceder o marido é bastante esquisito, mas também é esquisito que essas acusações de corrupção apareçam junto com a discussão sobre mídia e sejam misturadas a ela. O fato é que a lei foi discutida e os argumentos contra a nova legislação sempre fogem do cerne da questão, que é a necessidade de impedir a existência de oligopólios de comunicação, em favor da liberdade democrática de gostos e informações.
Algo parecido com o nosso Brasil? Nem tanto. Afinal de contas, aqui o governo parece ter decidido levar a questão até o fim - e, pelo andar da carruagem, é possível que por aqui vingue essa nova proposta para os meios de comunicação. Se isso acontecer, vai ser inevitável traçar os paralelos com a realidade da mídia brasileira. Dois textos sobre o assunto: um em português e outro em espanhol.
Será que hoje em dia há outros cineastas no mundo tão fiéis às paixões dos seus personagens quanto o Pedro Almodóvar?
Ontem, quando eu estava saindo da sala de cinema, ouvi de passagem um comentário sobre "como é fácil fazer filmes de Almodóvar" e na hora, depois de ver um filme tão bonito, achei que era bobagem. Bem, ainda acho era bobagem mesmo, porque "fácil" não é não. E o verdadeiro traço em comum entre seus filmes não é a atriz, as cores quentes ou uma pretensa "breguice". Mas há sim uma estrutura e um ponto de partida comuns aos filmes, ou pelo menos a boa parte deles. Todo enredo sempre acontece porque os amores são intensos e inescapáveis, não suportam a interrupção e a perda da pessoa amada; daí há um movimento de ruptura, de transgressão; na maior parte das vezes, esse movimento leva a uma perda, frequentemente à morte, e a trama se fecha com o caminho de sobrevivência.
Com uma ou outra variação, isso se repete em quase todos os seus longas; mesmo assim, destes seus trabalhos recentes, cada um deles parece ser único, diferente de todos os outros. É uma fase da pesada - não é qualquer um que enfilera filmes do nível de Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela, A Má Educação, Volver e este Abraços Partidos. Neste, há dois ou três detalhes inverossímeis - e daí? De novo, o enredo se mostra comovente graças ao vigor, à força moral com que os personagens levam adiante as suas paixões.
Fica aqui a lembrança aos amigos do blog: vão acontecer neste fim-de-semana as últimas apresentações da temporada na Laura Alvim da peça A + Forte, que dirigi e adaptei a partir do texto do Strindberg, com a Carol e a Patricia Melo no elenco. Ela vai ser encenada nestes dias 02, 03 e 04 de outubro - na sexta-feira e sábado às 21hs, e no domingo às 20hs.
O texto abaixo foi escrito em 2004 e apresentei uma versão informal dele na Socine de 2005 - falo em "versão informal" porque eu sempre achei chatíssimas aquelas apresentações em que as pessoas ficam lendo textos já escritos, então o que fiz na ocasião foi só uma fala a partir dele. Segue, então:
Rio Zona Norte retrata em flash-back as agruras de um compositor popular de sambas, Espírito da Luz, interpretado por Grande Otelo, desconhecido pelos meios de comunicação de massa (a rádio) e conhecido, respeitado e querido em sua comunidade. Espírito só tem o reconhecimento de sua localmente. Inspirando-se no cotidiano de seu compadre Zé Ketti, Nelson Pereira retratou as dificuldades profissionais e a vida familiar de Espírito – que arruma uma nova namorada e tem problemas com o filho delinquente, desembocando em final trágico. Madame Satã retrata o cotidiano de João Francisco, seus conflitos com patrões e policiais, sua relação familiar com uma prostituta e um outro homossexual e sua primeira apresentação como cantor e performer. Rio Zona Norte é um retrato do artista como criador popular, à margem da indústria, enquanto Madame Satã é um retrato de um artista como figura socialmente marginal – e orgulhoso disto, como diriam outros. Ambos os filmes denotam o interesse de seus realizadores pelos artistas que se mantêm à margem. Num, um compositor, um criador; noutro, um performer, cantor e intérprete.
Rio Zona Norte foi filmado em 1957, dois anos após a estréia de Rio Quarenta Graus. O interesse de Nelson Pereira pelo Rio de Janeiro e suas pessoas já ficara explicitado no filme anterior, vagamente inspirado pelo Capitães de Areia de Jorge Amado, e teria continuidade no projeto que deveria ser feito em seguida, Rio Zona Sul. Para fazer Rio Zona Norte, Nelson Pereira resolveu se submeter a um processo de imersão naquela realidade – e foi morar com Zé Ketti por cerca de seis meses no subúrbio de Bento Ribeiro, durante a feitura do roteiro do filme. Havia, portanto, uma crença de apreensão da realidade norteando o filme – que, mesmo assim, pareceu a seus contemporâneos (como Paulo Emilio e Alex Viany) menos realista do que o filme anterior, por conta tanto do uso de flash-backs quanto pelo psicologismo narrativo na construção de ambientes e personagens, muito distantes da estrutura fragmentária de Rio Quarenta Graus. No entanto, o interesse de Nelson Pereira no seu segundo filme era pelo artista popular e pela compreensão da marginalidade social em que ele vivia – não se tratava mais do retrato de desigualdades sociais na cidade grande a partir da visão do cotidiano de diversos menores favelados, como havia sido no filme anterior. O protagonista é um compositor de sambas desconhecido do grande público (mas querido e respeitado na sua comunidade), negro, pobre e ignorante. A partir desta construção dramática do personagem principal, Rio Zona Norte estabelece uma relação evidente (e crítica) com gêneros cinematográficos populares como o melodrama (em todo o enredo) e a chanchada (através dos números musicais que pontuam o filme) – as músicas de Espírito são cantadas pelos seus amigos e vizinhos da favela, mas ele sonha em ouvi-las na rádio, na voz de uma estrela (Angela Maria). Enquanto não consegue se manter financeiramente através de sua arte, Espírito sobrevive fazendo pequenos serviços para o dono do bar e armazém da região, Seu Figueiredo. Além disso, envolve-se com uma nova namorada e tem uma relação problemática com o filho Norival – que, residente num internato, juntou-se a uma gangue marginal.
É melancólico o papel desempenhado no filme (tanto por sua presença como por sua insuficiência) pelo músico erudito de classe média, Moacir, personagem de Paulo Goulart. Conhecendo Espírito numa noite boêmia, Moacir encanta-se com o talento do colega e se dispõe a ajudá-lo escrevendo em pauta suas canções. No entanto, quando é procurado pelo compositor, esperançoso de se tornar conhecido contando com a ajuda prometida, Moacir está numa reunião com seus pares (que logo se põem a discutir as questões em torno da utilização e estetização da arte popular) e prefere combinar um incerto encontro futuro para fazer o trabalho, para desânimo do personagem de Otelo. Mais tarde, após a morte de Espírito, Moacir irá se dispor a coletar suas canções a partir da memória dos moradores do morro. Desta forma, presta-se ao ambíguo papel do intelectual que pretende dar voz ao artista marginalizado depois que este está morto.
O filme trata o trabalho e as ambições do próprio Moacir com irônico desinteresse. Moacir pode tanto ser um artista limitado, que se utiliza de signos da cultura popular de forma vampiresca e pobre, quanto pode vir a ser um grande artista, capaz de criar jóias a partir das influências dos mundos erudito e popular. Isto não importa ao filme. O que interessa ao filme é o personagem do criador popular. É este Espírito, que é cantado pelos moradores do subúrbio mas não chega à Rádio Nacional, que interessa ao filme – e vale notar que ele precedeu em cinco anos as gravações de canções de Cartola e Nelson Cavaquinho por Nara Leão. A questão fundamental que move Rio Zona Norte é esta: não há lugar social para o artista popular que não obtém prestígio no espaço da indústria cultural.
Assim se divide a cidade moderna e subdesenvolvida de Espírito: no subúrbio distante, suas músicas são cantadas pela comunidade local onde ele mora; mas suas músicas não circulam para fora deste espaço porque não tocam no rádio, veículo de massa – e, se porventura vierem a ser tocadas, seu crédito acaba sendo roubado por falsos compositores. Na região em que ele habita há uma comunidade e uma rede afetiva, mas a grande cidade para fora do morro é um lugar onde a falta de abertura da grande indústria cultural (a Rádio) e as relações pessoais cercadas de indiferença, blasés, terminam por matar e ignorar a existência do grande talento socialmente marginalizado. Não é por acaso que será sozinho, ao perder-se em meio à multidão num trem saído da Central do Brasil, cantarolando uma nova canção, que Espírito será vitimado por um acidente em conseqüência da falta de segurança dos transportes públicos. O Espírito da Luz do samba não se perde em meio à multidão – ele cria dentro dela. E a classe intelectual pode agir para preservar esta cultura popular, que é a maior riqueza da nação (ou ao menos assim parece ao filme), mas depende inteiramente da memória da comunidade para isto.
Madame Satã, filme de estréia de Karim Aïnouz, foi lançado em 2003. Seu protagonista, como o do filme de Nelson Pereira , é negro, pobre e ignorante – e, neste caso, também é homossexual e temperamental. Não se trata, no entanto, de um criador popular – ao contrário, João Francisco dos Santos, o personagem de Lázaro Ramos, é um imitador. Imita os gestuais da cantora a quem auxilia e imita também as histórias que ela conta sobre Scherazade – interpretando-as a seu modo, com seu gestual próprio.
João Francisco também vive à margem – mas no centro. Vive na Lapa dos anos 20 e 30 o nosso protagonista, junto com um amigo também homossexual - Tabu (interpretado por Flávio Bauraqui), com quem João Francisco mantém uma relação de dominador/dominado – e uma prostituta, Laurita (Marcélia Cartaxo), com seu filho. João Francisco não vive no subúrbio, como o fazia o Espírito de Nelson Pereira, mas na região central – e, ainda assim, é marginalizado nos ambientes de fora da área boêmia da Lapa. O filme não demonstra maior preocupação com as questões de autenticidade da arte de João Francisco, sua questão é em torno da sua liberdade social - do direito a ser quem é e fazer o que quiser de si mesmo. Vivendo a rotina de uma família pouco convencional, tendo que lidar com a falta de recursos e a transgressão da lei e das normas, João Francisco pratica sua liberdade cotidianamente. Temperamental, envolve-se seguidamente em conflitos e acaba sendo preso devido a uma briga com um ex-patrão, na primeira de muitas temporadas na prisão. Uma vez posto em liberdade, e depois de descobrir que seu amante foi assassinado, ele resolve arriscar a sorte como cantor e performista no botequim de Amador (interpretado por Emiliano Queiroz), o mesmo em que já trabalhava como segurança. Seu espetáculo é bem-recebido pela maioria dos freqüentadores, mas uma nova briga, dessa vez com um bêbado agressivo, fará com que João Francisco passe nova temporada na cadeia.
Já se disse que a típica cidade contemporânea apresenta uma relação tensa entre as imperfeições e aquilo que se pretende permanente. Talvez se possa ver assim o retrato que o filme faz do lugar onde vive João Francisco: trata-se de uma tentativa (encenada, claro) de imersão no espaço e na vivência do imperfeito. Não é por acaso que sua visualidade irá incluir imagens desfocadas e cortes descontínuos. É a própria noção de que a percepção só se dará pela imersão, por uma vivência que se assume incapaz de compreender a realidade como um todo – e procura compreender o que é urgente.
João Francisco é a figura que incomoda socialmente. Homossexual, transformista, ladrão, violento – não há espaço para ele senão no transgressor mundo boêmio da Lapa. Se Nelson Pereira foi procurar seu artista criador na periferia, Karim Aïnouz descobriu o seu artista performático em pleno mundo bas-fond do Centro, nos bares sujos da Lapa. No entanto, ele não se satisfaz com o lugar que lhe é imposto: não aceita perder o dinheiro que seu patrão não quer lhe dar na hora da demissão; não aceita ter sua entrada barrada no clube dos bacanas; e não aceita, enfim, ser chamado de viado pelo agressivo personagem bêbado José (interpretado por Ricardo Blat), que surge no bar após sua apresentação. É neste momento do conflito com José que João Francisco define com raiva seu direito à diferença: "Eu sou bicha porque eu quero, e não deixo de ser homem por causa disso não!". A questão então não é a representatividade do artista popular, como era em Rio Zona Norte, mas o direito à diferença comportamental. O Rio de Janeiro, capital da República, é cruel com João Francisco – sua polícia o persegue e espanca, seus juízes o encarceram – e somente no seu espaço boêmio da Lapa que ele encontra acolhida pessoal e profissional. Tem sua família e seu lugar de diversão, mas a cidade é preconceituosa e autoritária.
Para as autoridades cariocas e para boa parte da sociedade da época, era natural acreditar que João Francisco representava o mundo da barbárie (não só na época – é possível achar na Internet algumas manifestações semelhantes escritas na época de estreia do filme, em 2003). Para João Francisco, mais tarde conhecido como Madame Satã, o Rio de Janeiro se tornou uma cidade-turbilhão – e para o filme também, uma vez que ele se cola a seu protagonista. Uma cidade que não pode ser inteiramente compreendida, mas pode ser vivida.
"Os olhos não vêem coisas, mas figuras de coisas que significam outras coisas". Neste ponto de As Cidades Invisíveis, Italo Calvino relembra a célebre caverna de Platão. Esta perspectiva não é a que norteia Rio Zona Norte, que pretende filmar as coisas do mundo através da ficção, que se passa no presente do filme para falar de sua própria época; mas é a que norteia Madame Satã, que se utiliza de uma dramatização ficcional a partir de um personagem real, passada nas décadas de 20 e 30 para falar também da época em que é feito – os anos 2000. Um filme procura a marginalidade do artista no subúrbio, o outro o encontra marginal dentro do espaço central urbano. Um conta a história de um artista criador e popular, o outro trata de um artista intérprete e individual. Um trata de sua época para falar do tempo presente, o outro se utiliza do passado para falar do presente. Um trabalha com a clareza, o outro usa de uma estratégia de visão fragmentária, com planos em que a região focada é mínima (às vezes até inexistente) e a maior parte do quadro permanece fora de foco. A trama de um se arquiteta em torno de momentos dramaticamente decisivos, a quase-trama do outro se costura a partir de momentos ética e esteticamente significativos.
O que une os filmes, no entanto, é mais forte. Num texto chamado A Paisagem Urbana, Wim Wenders afirmou que, numa época tomada por imagens de todo tipo, o caminho do cinema é contar histórias:
E uma história com personagens fracos não tem em si nenhuma força. Somente a história dos personagens dá a cada imagem uma credibilidade, “instaura uma moral”.
O caso será sempre o de escolher que história contar. Nisto, os filmes de Nelson Pereira dos Santos e de Karim Aïnouz se aproximam – ambos escolhem as figuras marginais. Os cineastas assumem o seu entre-lugar (para usar a expressão do Santiago), como contadores de histórias, fazendo a ponte entre a marginalidade e a sociedade instituída. Escolhem o artista marginal como representação crítica da cultura. Nesta perspectiva, a arte só faz sentido, só não é patológica, caso tenha algo de transgressor, marginal, bastardo – tudo enfim que não for dominante.
Desta forma, é possível compreender até certo ponto a proximidade e também as diferenças entre Rio Zona Norte e Madame Satã, dois diferentes retratos de artistas quando marginais. Acho que a beleza de cada um deles se origina na incrível força estética que, cada um a seu momento, ambos souberam encontrar a partir destas escolhas éticas – e é claro que esta relação depende do vigor destas escolhas para poder existir. “Os olhos não vêem coisas, mas figuras de coisas que significam outras coisas”. Me parece que a beleza destes filmes se sustenta nessa crença convicta do gesto artístico como ato de afirmação.