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Etnodocs

Bem, se eu sempre fico insistindo nas falhas da difusão de filmes através da Tv pública, então é o caso de noticiar e comemorar quando há bons resultados. Por isso, aviso que durante as tardes da semana que vem, a partir de segunda-feira, a TV Brasil vai exibir os filmes resultantes do programa Etnodoc. São quinze filmes de 26 minutos e muita coisa boa pode ter saído daí: há filmes dirigidos por cineastas já reconhecidos, como Andrea Tonacci, Arthur Omar e Evaldo Mocarzel, assim como há outros produzidos por realizadores ainda desconhecidos. A coisa começa promissora: o primeiro filme a ir ao ar é justamente o novo do Tonacci, As benzedeiras de Minas (que, como outros da série, já foi exibido na Mostra do Filme Etnográfico, aqui no Rio, e eu não pude ir ver - o Docblog já publicou um texto sobre ele ).

Tá aí a dica. Os documentários vão ser exibidos todos os dias às 17h30 - e eu torço pra memória me fazer lembrar de ligar a TV nesse horário. Os de quinta e sexta eu não vou poder ver, mas aí é da vida.

Escrito por daniel às 04h28
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Nelson

Ainda não vi noticiarem, mas espero que isso seja bastante divulgado nos próximos dias: vai ter início aqui no Rio, na semana que vem, uma retrospectiva dos filmes do maior cineasta brasileiro.

Essa era uma lenda que vinha sendo acalentada há quase vinte anos: sempre se disse que iria acontecer uma mostra com todos os filmes (ou quase todos - não sei, ainda não vi a programação), tudo em cópia nova. Pois bem, agora vai acontecer mesmo.

Isso pode parecer um evento menor, que se deve somente à efeméride dos 80 anos do cara e que, de quebra, se junta a mais tantas homenagens. Mas exibir todos os filmes em cópias novas é bem mais que isso. É, ao mesmo tempo, um reconhecimento público à importância dos filmes dele (e esse aspecto "institucional" pode às vezes parecer estranho, mas é o que garante a divulgação e difusão) e uma chance fabulosa para o pessoal poder ver os filmes tal como devem ser vistos.

Por conta disso, se a mostra for mesmo isso tudo que estão prometendo, esse é de fato um dos eventos cinematográficos mais significativos de 2008.

Agora só falta lançarem os DVDs, pô.

Atualização: a programação está no site da ABL.



Escrito por daniel às 16h10
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Parabéns pra você, Tv pública!

A coluna Outro canal da Folha se antecipou em uma semana para fazer o balanço de um ano de existência da TV Brasil, a versão atualizada de Tv pública que o governo tirou da cartola junto com muitas promessas. Mas senti falta, no texto, de um questionamento e de uma entrevista, que torço pra que venham à tona no que vier a ser publicado nos próximos dias. O questionamento, como já deve imaginar quem lê o que eu escrevo aqui ou já escrevi por aí, é sobre as razões que impedem que todos os filmes brasileiros financiados a partir de incentivos fiscais sejam exibidos na Tv pública brasileira. Cara, eu sempre me impressiono em ver como isso é simplesmente ignorado pelos envolvidos: os filmes feitos com incentivo do Estado brasileiro, em sua maioria, não são exibidos na Tv pública mantida por esse mesmo Estado. Não faz sentido, simplesmente não faz. Por isso eu fico realmente abismado em ver que dados como "a emissora é traço no Ibope" e "depende de programação que herdou da TVE" são apontados pela Folha sem que isso seja sequer comentado. Parece que todo mundo está tão acostumado que acha essa situação muito normal.

A entrevista que ainda está faltando é a do ex-secretário do audiovisual Orlando Senna, que trocou esse importante cargo no MinC pela missão de dar asas à exibição de produções independentes na então nova TV Brasil. Orlando entrou, saiu e nada falou sobre esses assuntos. Ele é um cara muito bacana e inteligente, com muita história para contar em toda a sua trajetória no cinema brasileiro - mas, especificamente sobre as dificuldades que existem para se exibir programas independentes, este é um relato que só pode ser feito por quem já passou pelos postos que ele ocupou recentemente. É fácil apontar "forças ocultas", mas é preciso tirar o véu dessas "forças". Para haver qualquer chance de mudar essa situação, é preciso fazer a sociedade saber o que é que impede, de fato, que todos os filmes brasileiros produzidos há mais de cinco anos sejam exibidos na TV aberta de forma gratuita para a população que tiver acesso a aparelhos de TV.

Escrito por daniel às 01h43
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...

Uma novidade que o Fernando me contou ontem foi que o George Romero está rodando um novo filme de zumbis - e o mais genial é o título (até agora). Depois de Night of the living-dead, Dawn of the dead, Day of the dead, Land of the dead e Diary of the dead, Romero chegou à síntese máxima: seu próximo filme vai se chamar ... of the dead. Assim mesmo, o título começa com três pontinhos - e roam-se de inveja vocês que são metidos a artistas. Gênio é gênio, bicho.

Escrito por daniel às 01h02
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Pra ressucitar James Bond

Recebendo a visita do amigo Fernando aqui em casa, depois de umas tantas cervejas, ele comenta que foi ver o novo 007 e que o problema é que, se é que se pode dizer algo assim, o personagem ficou sem personalidade, descaracterizado por conta de tantas mudanças dos tempos e dos contextos. Acabamos chegando à conclusão - quer dizer, eu cheguei, pelo menos, porque acho que o Fernando ficou desconfiado com a idéia - de que o próximo filme do James Bond tinha que ser dirigido pelo Todd Haynes.
Não é mesmo? Um filme do tipo I'm Not There, com vários atores interpretando o mesmo personagem em diferentes contextos, criticando e parodiando as características colonialistas, machistas e racistas de Bond, James Bond: o agente com licença para matar poderia ser interpretado por pessoas como Kenneth Branagh + Denzel Washington + algum pirralho oriental + Halle Berry + Ringo Starr + Wagner Moura + Cate Blanchett (claro!) + Spike Lee + Gael Garcia Bernal + Harrison Ford. Além, é claro, de uma cena-clímax em que Bond seria interpretado simultaneamente por Sean Connery e Roger Moore, cujo encontro iria se dar numa grande cena de ação que caracterizaria a esquizofrenia da representação do império anglo-etnocêntrico.
As pessoas de sempre iriam detestar e as de sempre iriam defender (the usual suspects...), mas certamente ia ser o melhor filme da série, um filme de aventura pós-moderno, pós-colonial e pós-cervejada.

Se algum dos produtores da série ler esse post, pode ficar à vontade para usar a idéia: eu prometo não cobrar royalties por ela.

Escrito por daniel às 02h00
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Conceição - Autor Bom É Autor Morto em cartaz em Bangu

Fiquei sabendo pelos jornais. Está sendo exibido no Cine Arte Bangu, no horário de gala das 20hs - nas sessões anteriores estão exibindo O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, às 16hs e 18hs. Fica aí o aviso pra quem for da Zona Leste do Rio (ou pra quem estiver disposto a dar um passeio pela cidade pra conhecer um cinema novo).

Linkei o Grobo pra dar o endereço do cinema e, ao ver o clássico bonequinho dormindo, lembrei do cartum que o Gui fez pra dar o desconto, que não resisto a colar aqui...



O bonequinho nem me incomoda, é só a opinião do cara. Mas a sinopse é, digamos, meio equivocada.

(Pra quem não sabe, nosso querido Gui Sarmiento vai ter mais um roteiro filmado - o que ele escreveu para o filme Sudoeste, do Eduardo Nunes, cujo projeto foi premiado recentemente no concurso B.O. do MinC)

Escrito por daniel às 18h33
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Romance

Fui ver hoje à tarde com Carol o novo filme do Arraes no São Luiz. Antes de falar do filme, a primeira coisa a dizer é que a iniciativa tomada pela Ancine para diminuir o preço dos ingressos pra filmes brasileiros durante esse mês pode dar certo, mesmo com todas as limitações: a sala tinha algo em torno de 80 pessoas numa sessão de terça-feira à tarde. Se todas as sessões tiverem esse nível de ocupação, o sucesso da iniciativa é admirável.
Claro que isso não resolve todos os problemas de difusão de filmes. Vi que o Manoel Rangel foi questionado na entrevista pro Globo sobre o problema de isso só atingir os locais que já têm sala de cinema - a mesma questão que eu tinha lembrado há um tempo, quando comentei a iniciativa. Acho que ficou evidente que, diante dessa questão, a Ancine ainda não sabe o que dizer: o Rangel teve que responder que, se essa iniciativa der certo, é possível que as locadoras e redes de TV se interessem em exibir mais filmes brasileiros - o que, convenhamos, é uma forçada de barra tremenda. De todo jeito, cada coisa é uma coisa - de fato a Ancine se esquiva de reconhecer que, na realidade, o atual governo não tem qualquer política para difusão de filmes pela TV e nem pretende ter pra não arrumar confusão (em DVD tem, pelo menos, a Programadora Brasil). Mas, com relação a lugares onde já há salas comerciais de cinema, o que vi hoje me faz acreditar que esse programa de apoio da Ancine, que funciona a partir de uma redução do preço da entrada, pode dar certo sim.

Sobre o filme do Guel Arraes, devo dizer que gostei bastante. Bem, os amigos e os leitores que já me conhecem há mais tempo sabem que eu gosto bastante de Lisbela e o Prisioneiro (fez parte da minha lista de prediletos do ano em que foi lançado) e, além disso, se fosse pra citar os programas de TV de que eu realmente fui fã, TV Pirata e Armação Ilimitada estariam no topo. E, mesmo nos filmes dele de que não gosto, me parece bem evidente que há uma vitalidade, um clima pilhado que é bem raro e bem interessante (ainda que, quando não dá certo, acabe se tornando cansativo).

Certo, é verdade que esse Romance mostra uma necessidade meio histérica de de mostrar sabichão, de mostrar que tem lastro com uma profusão de citações bastante desnecessárias (aquelas do Nietzsche no início do filme são bastante forçadas e mais atrapalham do que ajudam). Por outro lado, o filme retrata muito bem algumas questões das pessoas que trabalham com representação - entendo o que o Inácio disse no texto da Ilustrada, mas a divisão que relaciona teatro a arte e Tv a diversão vazia não é algo que se restringe ao filme: isso faz parte do universo dos personagens. Se alguém duvida, sugiro que vá perguntar a atores e diretores que trabalham em teatro e TV. Talvez não sejam todos, mas muitos irão responder que a TV suga, que "só se preocupa com audiência" e que teatro é "libertação", "arte" e todos esses clichês. Mas é claro que o modo obsessivo com que a questão é apresentada no filme indica que ela é especialmente cara aos realizadores (não só ao Arraes, mas também ao Jorge Furtado, parceiro dele no roteiro). Há algo de bobo em dar uma forçadinha de barra para terminar mostrando como tudo pode se dar ao contrário, com o teatro servindo para diversão e a TV apresentando um programa "artístico"? Sim, há, mas esse lado "bobo" combina perfeitamente com as questões sobre romantismo que o filme apresenta.

De todo modo, não vejo muito motivo para divulgar esse filme como um trabalho mais "sério" do Arraes. Porque, afinal de contas, embora ele se esforce para dar um lastro "sério" (desnecessário) e seu enredo se centre na intriga amorosa, o que o filme tem de melhor não é o retrato dos sentimentos dos personagens, e sim o humor usado na crônica das produções teatrais e televisivas - e para isso contribuem muito as ótimas atuações da Andréa Beltrão e do José Wilker, que estão engraçados pacas nas paródias da produtora e do chefão da TV.



Escrito por daniel às 22h08
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Vicky, Cristina, Barcelona

Eu e Carol fomos ver ontem o novo do Allen com a boa companhia do amigo Bruno, de quem fui vizinho por anos e ultimamente tenho visto pouco. Bruninho está desenvolvendo um projeto bacana que ainda vai dar o que falar, a partir de um apoio de Furnas para jovens artistas plásticos. Enfim, fomos ao Arteplex na sessão da madrugada, que estava razoavelmente cheia, provando que Allen ainda segue mantendo seu velho prestígio na Zona Sul carioca, mesmo com os altos e baixos dos últimos anos. Achei o filme bastante bom, dos melhores que ele fez nos últimos, sei lá, dez anos. Devo dizer inclusive que foi uma boa surpresa, porque tinha achado bem chatinhos os filmes anteriores dele; de fato, puxando pela memória e consultando o imdb, de 1999 pra cá os únicos de que gostei tanto foram os muito bons Sweet & Lowdown e Hollywood Ending (sobre o qual já escrevi um textinho).

Gostei muito do que o Inácio escreveu no final da sua crítica sobre o filme e concordo que é inevitável pensar que, tendo sido feito por um senhor de mais de 70 anos, o filme mostra um interesse sincero pelos sentimentos e modos de amar típicos dos nossos anos. É um filme bastante datado, e esse é o melhor elogio que se poderia fazer: sua trama soaria bizarra trinta anos atrás e hoje não há nada de profundamente trangressor em mostrar relações que só funcionam como triângulos, como ocorre com os artistas espanhóis que se envolvem com Cristina; ao contrário, isso tem uma força, uma impressão de realidade que parece beneficiar o filme.

Há, no entanto, algo de bem curioso no modo como o filme retrata os sentimentos, revelando um ponto de vista um tanto, digamos, careta. Afinal, segundo o filme mostra, parece que apenas Vicky é capaz de sentir emoções intensas e profundas, paradoxalmente por ser justamente quem tenta freá-las. O casal Juan Antonio e Maria Elena tem emoções sempre excessivas, à flor da pele, mas parecem lidar com essas emoções como teatro - não há dor no que sentem, ao contrário do que acontece com Vicky. E Cristina, bem, parece evidente que, segundo o filme, as pessoas que se abrem demais em busca de emoções mais fortes são justamente aquelas que se deixam entediar mais rapidamente. A própria narração se encarrega de deixar explícito que Vicky é a caretinha e Cristina é a moça em busca de experiências; outra maneira de ver a divisão das duas seria notar que Vicky é uma típica heroína romântica, que sofre por tentar represar seus sentimentos, e Cristina é a típica heroína da falência do romantismo, que se vê tomada por tédio por tentar viver seus sentimentos sempre de forma extrema.

Enfim, o filme deu uma certa alegria por ver o Allen mostrar um vigor cada vez mais raro fazendo algo que ele já tinha feito muito bem - retratar com seu humor característico uma ciranda amorosa. O filme me lembrou muito o Hannah e suas irmãs, que é o melhor exemplo desse gênero alleniano que eu mencionei, mas faz lembrar de uma maneira que não soa gasta ou repetitiva. Certo, talvez o melhor momento da carreira do Allen já tenha passado (pra mim, certamente seria aquela sequência de filmaços dos anos 80, feitos a partir de Zelig até Radio Days, incluindo ainda os posteriores Crimes e Pecados e Maridos e Esposas); mas, como já disse o Inácio, é um cineasta que, em qualquer momento, sempre merece atenção.

Escrito por daniel às 18h22
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The spirit of Charles Lindbergh

O filme mais bonito de todos:



Há um texto bem legal do João Bénard da Costa em que o filme é mencionado: pode ser lido aqui.

O filme já seria bonito pacas pelo que mostra, pela sua simplicidade: um plano fixo de cerca de três minutos em que Welles se dirige à câmera e em seguida recita um trecho do diário de Lindbergh. Mas se torna um filme realmente impressionante pelo que nós sabemos que é, mesmo que não precise mostrar: é o último plano de Orson Welles e ele parece estar ciente disso (mesmo que algo tenha sido filmado depois). É um artista que, com todo o seu talento, estava chegando ao fim da viagem - e ele nos lê o texto em que Lindbergh fala sobre o seu final de viagem; sobre ter a sensação de ter feito o seu melhor, de ter conseguido o que queria. E a gente que conhece todos os perrengues da vida do Welles sabe que a analogia é irônica e cruel. Parece que ele também sabia disso.

O Bénard da Costa compara esse plano ao momento mais bonito de todos os filmes de Welles (talvez mesmo o momento mais bonito de todos os filmes, simplesmente): o instante em que Falstaff é rechaçado pelo recém-coroado Henrique V. É curioso, porque ambos sintetizam o movimento mais frequente e impressionante dos filmes do Welles: a queda dos gigantes farsescos. Mas aí entra em cena a distância entre arte e vida: na vida, gigantes farsescos podem desabar e desaparecer, mas na produção artística qualquer farsa gigantesca é sinal de inequívoco talento. Na arte o gigante só cai para cima, só se torna maior. A crença nesse paradoxo é o tema do F For Fake, talvez o melhor filme do cara. E, neste sentido, The spirit of Charles Lindbergh é a chave de ouro para F for Fake - com ele vem a sensação de que a longa viagem pode ter sido difícil e agora chegava ao fim, mas o percurso tinha dado bons frutos: as farsas valeram a pena, a grandeza não desaparece.

O googlevideo maltrata um bocado a imagem,  mas a versão que circula pela web está bem melhor. Pra quem quiser conferir, ela pode ser baixada aqui.

Escrito por daniel às 23h28
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noite do comodoro na curta cinema

Perdi algumas sessões recentes que queria ver por conta dos trabalhos e de uma gripe que abateu a Carol por dois dias, mas na noite de sexta, assim que cheguei de Rio das Ostras, fomos ver a sessão Olhos Livres, na programação da Curta cinema, com curadoria do nosso querido Don Carlone Reichenbach. Carlão selecionou dois curtas antigos de amigos (O suspense segundo Hitchcock, do João Callegaro, e Aula de Sanfona, do Inácio Araújo), alguns curtas recentes dele mesmo, "na estética do youtube, editados no windows movie maker", segundo disse, e finalmente dois curtas recentes: De Resto e Nas Duas Almas.

Não me impressionei com o filme-colagem sobre o Hitchcock. Carlão tem razão em dizer que o filme tem muito a ver com o Histórias em Quadrinhos no Brasil, que o Sganzerla fez com o Álvaro de Moya, mas a verdade é que nenhum dos dois me seduz - ok, é interessante ver que já na época os caras estavam defendendo Hitchcock e quadrinhos, mas os filmes são "educativos" no que o termo tem de pior: dão muita informação e nada além. O curta do Inácio eu já tinha visto e já sabia que é muito legal, assim como alguns dos curtas "corsários" do Carlão (que ele mesmo já botou no youtube). Mas a noite valeu mesmo pelos dois curtas recentes, que são muito bons. De Resto é um filme bem bacana sobre uma piração; o final com a protagonista tendo que aceitar a visão do corpo com uma falta me fez lembrar um pouco do Crime Delicado, até porque no curta do Daniel Chaia essa percepção também se dá pela arte: no filme dirigido pelo Beto Brant isso se dava pela pintura, aqui é pela música. Sobre o Nas duas almas eu já tinha lido os comentários do Carlão e do Inácio e realmente o filme é bem legal. Assim como no De Resto, dá pra fazer um exercício cinéfilo com o flme do Vébis Jr. e ficar procurando referências mil: no caso do filme do Chaia, daria pra apontar relações com filmes recentes do Carlão e com o curta O Lençol Branco, além do filme do Brant; em Nas Duas Almas, o próprio diretor já falou sobre as influências dos filmes do Cassavetes e há uma homenagem explícita ao Desprezo do Godard. Mas os dois filmes são muito mais do que conjuntos de influências: eles têm força pra se sustentar sozinhos.

O filme do Vébis padece de alguns problemas técnicos bastante evidentes, que seriam a única explicação para a estupidez dos vários festivais que não se interessaram em exibi-lo. É uma pena, mostra que as turmas que têm cuidado das seleções não prestam muita atenção nos filmes em si (pra variar), porque realmente Nas Duas Almas tem uma fotografia bastante precária por conta da captação de imagem e um som também problemático, mas basta prestar atenção pra ver que o filme é legal pra cacete. Os atores são ótimos, a montagem tem movimento, as situações são boas e, sobretudo, Nas Duas Almas apresenta personagens de verdade mesmo: com aquelas figuras totalmente rockabillies, ele transparece um clima gostoso de cotidiano, de carinho por todas aquelas coisas que mostra. Por aí já dá pra entender por que o Inácio o comparou com o Sol Alaranjado, mas o filme do Vébis tem uma certa nonchalance, um jeito relax de ser, tem um humor sem melancolia, meio gozador mesmo: aqueles personagens são estranhos, mas são gente como a gente, oras. Fiquei achando que esse estilo poderia ter uma recepção mais ampla se tantas pessoas não tivessem essa travação tecnicista. Mas é complicado, o pessoal é meio roda-presa mesmo.

Pra fechar, a nota social: depois da sessão veio a parte mais divertida da noite, quando fomos para o Lamas encher a cara de chopes e rir bastante com muita conversa boa; na mesa, eu e Carol partilhamos da companhia de mestre Carlão, que estava feliz com a boa receptividade da sessão em um Odeon bastante cheio, e também de nossos queridos André Sampaio, Dick Miranda, Phillip Hartmann, Fernando Veríssimo, sua Marina e o vindouro Guido, que vai nascer nos próximos dois meses. Mesa com Carlão e Ricardo é garantia de escutar pela primeira vez os nomes de muitos realizadores geniais que nós nunca ouvimos falar, além de muitas histórias do arco da velha, entremeadas por uma boa lingüicinha calabresa (a do Lamas é ótima).
Abençoada mesa do Lamas: os filmes valem muito, mas a gente vale mais.

Escrito por daniel às 06h00
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Cine Magik



"Do you believe in magic? Well, you do believe your eyes, don't you?"

E pensar que TV poderia ser isso...

"Às vezes é ilusão - às vezes a ilusão, quando temos sorte, em muito poucas ocasiões, é mágica"

Bem, tentei fazer upload no youtube e no google video, mas ainda não descobri como é que a gente pode botar filmes de vinte minutos nesses sites sem ter que cortar eles no meio. Esse megavideo tem a chatice de abrir uma página com aquelas propagandas picaretas, mas pelo menos guarda o filme inteiro e com uma qualidade de imagem melhor do que os dois citados (mesmo que bem pior do que o arquivo original). Se alguém souber de alternativa melhor, sugestões são bem-vindas.



Escrito por daniel às 15h54
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a Globo e os curtas

Zé José publicou uma nota imperdível relatando como foi o debate da Curta Cinema que contou com a participação do chefe da Globofilmes, Cadu Rodrigues. Ele (o Zé) zomba do possível otimismo com a relação entre a empresa e os curta-metragens, e realmente fica difícil achar que essa relação pode vir a existir, tendo em vista a tradição das coisas. Mas confesso que eu não entendo por que a Globo (ou qualquer outra rede de TV) nucna tentou fazer um horariozinho para curtas nem mesmo nas madrugadas. Sério, curta-metragem é barato, é ótimo pra assistir enquanto o sono não vem (é curto, acaba rápido) e, sinceramente, a produção pode ter muita coisa meia-boca, mas tem muitos filmes bem mais legais que alguns troços que a Globo exibe e diz que é bom cinema (tanto gringos quanto brasileiros). Numa emissora com boa transmissão e horário fixo, um negócio desses tinha chance de virar programa cult.

Mas não adianta, a mentalidade da empresa é tacanha: não se deve formar profissionais para a concorrência. É assim em todos os meios - é só perguntar ao Silvio Santos: se algum profissional faz sucesso na empresa dele, a Globo contrata o cara, nem que seja pra não fazer nada. Faz isso na TV, faz isso no jornal e por aí vai. E nem adianta reclamar muito, porque as outras emissoras são piores.

TV Brasil? Pois é, mó sucesso, exibe filmes pra chuchu...

Escrito por daniel às 00h58
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Brasil-sil-sil!!!

Nada pra fazer na noite de Rio das Ostras, agora que tive que vir pra participar de um Fórum organizado pela gente aqui da Produção Cultural... Aí não teve jeito, acabei assistindo à pelada do Botafogo contra Estudiantes na TV. Ok, é curioso ver que o Verón numa fase meia-boca é bem mais esperto que os demais jogadores em plena forma. E o jogo teve um momento engraçado quando o zagueiro André Luís, ao tomar o segundo cartão amarelo, partiu pra cima do juiz e arrancou o cartão da mão dele. O Renato Marsiglia, "comentarista de arbitragem" da Grobo, ficou indignado, e pudera. Ele disse que nunca tinha visto coisa igual, mas eu já vi uma bem mais divertida, e ao vivo no Maracanã: foi quando um goleiro de um timeco que estava apanhando do Mengo resolveu atrasar um tiro de meta, tomou cartão amarelo, ficou irado e partiu pra cima do juiz - mas, ao contrário do zagueiro bobão do Botafogo, esse goleiro mostrou senso histórico e acertou vários socos na cara do juiz, que ficou apanhando em estado de choque. Olha, foi bem engraçado. Juro que o juiz não saiu machucado e garanto que ele não estava roubando, mas, enfim, ele estava apanhando em nome de uma série de canalhices históricas da sua classe.

Mas o Marsiglia, um clássico, chegou a pedir uma punição de "dois anos sem poder jogar" pro jogador do Botafogo. Juro, bicho: dois anos por ter arrancado um cartão da mão do juiz. Contra faltas violentas eu nunca vi ele ficar tão indignado. Tá certo ele: o Marsiglia deve lembrar bem da sua incrível competência profissional na sua época de juiz. É até engraçado lembrar disso a essa altura do campeonato, já que os são-paulinos devem ter boas lembranças do árbitro Marsiglia: ele fazia uma linha de frente imbatível com o Raí e o Palhinha, acho que nunca perderam quando jogavam juntos.

Mas é sempre muito divertido assistir a jogos de times argentinos contra brasileiros porque aí fica bem evidente (e grotesco) o jeito simples de manter velhos preconceitos em torno do "caráter nacional". Sabe aquele clássico papo de "catimba argentina"? Pois é, isso permite aos locutores de futebol em geral fazer luminosos comentários acerca das diferenças entre os povos dos dois países, do tipo "o argentino sabe irritar o adversário, sabe quebrar o controle psicológico com provocações sutis, e isso o brasileiro não sabe fazer". É como dizia a Kate Lyra, brasileiro é tão bonzinho...

E esse negócio de patriotismo esportivo, se a gente levar no bom humor, até que pode ser engraçado mesmo. Por exemplo, aquele efeito de som já clássico que a Globo usa nos gols da seleção brasileira, o célebre "Brasil-sil-sil!": numa boa, isso não poderia render tema pra um divertido ensaio socio-antropológico? Ou será que isso é comum em outros países? Será que tem isso em jogos (seja lá de que esporte for) dos EUA de Bush e Obama, da França, da Venezuela, do México ou da China?
Imagina só: os americanos fazem uma cesta numa partida de basquete e a TV toca: "United States-tates-tates!!". Cubanos fazem um ponto no beisebol e entra o efeito: "Cu-ba-ba!!". Italianos ganham um set de vôlei e toca o som operístico: "Itá-lia-lia!".
Acho improvável. Mas, enfim, seria divertido se todo mundo fosse assim, né? Ou não, sei lá.



Escrito por daniel às 00h48
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duas sessões da curta cinema

Fui ver à noite duas sessõezinhas da curta cinema - queria ter ido no sábado e domingo, mas não fui e perdi uns programões. Enfim,... Mas hoje vi uma série da competitiva nacional e uma série de lançamentos cariocas. Na média, achei a segunda sessão mais forte que a primeira, mas o filme da noite de que mais gostei estava na primeira sessão mesmo, e logo no início: chama-se Ocidente, tem uma estrutura incrivelmente simples e é bonito pacas. Simples mesmo - em dois planos (ou talvez três, preciso rever), uma câmera filma a janela de um trem, em que se sobrepõem as imagens da paisagem externa e do reflexo dos passageiros do lado de dentro. Vemos o movimento, a paisagem correndo do lado de fora e os rostos se movem lentamente sobre ela. Como se os personagens espalhassem seus fantasmas sobre o lugar por onde passam, talvez. Ou talvez não - talvez seja simplesmente o reflexo de gente sendo filmada enquanto permanece num trem em movimento; seja o registro de pessoas dentro de um espaço em trânsito. Os elementos são esses: lugares, movimento, gente, tempo. Quanto menos o filme apresenta, mais ele parece sugerir novos sentidos, e talvez seja até ofensivo tentar reduzi-lo a meia-dúzia de palavras. Como já disse o outro, idéias claras são idéias mortas, e nesse caso é isso aí mesmo.

Dumdum Cerveira, que estava ao meu lado, gostou bastante do filme seguinte, Décimo-Segundo. Concordo com ele que o filme fica melhor depois que o cara chega no apartamento e encontra a menina, mas não me empolguei - vi no filme um certo fetiche do plano longo que, enfim, não me seduziu. A Demolição é um filme com algumas coisas bem bacanas - a atmosfera no momento do desaparecimento do guri, por exemplo -  mas tem um final com um clima de "culpa por erros passados" que eu não curti. Saltos, o filme seguinte, passou com uma projeção meio barra-pesada - Odeon, sacumé. O úlitmo filme da sessão era o Corpo no céu, da Luísa Marques, ex-colega da época de Contra. O filme tem momentos muito legais, ele consegue contruir uma relação bastante forte com a personagem, tem a capacidade de tomar parte daquele mundo e fazer a gente crer nele - mas o final me incomodou. Nos últimos minutos o filme se orienta para além da conta em favor de uma longa canção que, enfim, acaba sendo decisiva demais na atmosfera. Por isso, acho até que quem amar essa canção pode amar o filme, mas ela me dissociou completamente do clima.

Na sessão seguinte rolaram quatro curtas legais. Monsanto foi o filme da Paula Gaitán de que mais gostei (e, verdade seja dita, acho que a proposta de experimentalismo visual dos filmes dela funciona melhor em metragens menores - ou pelo menos foi o que eu senti nesse caso em comparação com outros). 

E Canosaone é o tipo de filme que gruda no seu personagem, vai em busca do seu mundo pessoal. O Canosa é uma figura e tanto e, na sua casa aqui no Rio de Janeiro e em uma visita a Nildo Parente, o filme retrata de uma forma bem bacana o universo e o estilo dele.

Escrito por daniel às 05h06
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sobre conceitos e vazios

Rolou uma palestra do Affonso Romano de Sant'anna hoje à tarde na Puc, por conta do livro que ele recém-publicou "para acabar com o império do homem cego, que Duchamp perversamente criou" (pra citar as palavras de uma entrevista dele disponível na web). Ele pega no pé principalmente do Duchamp, mas sobra também pra alguns surrealistas, estruturalistas, pós-estruturalistas (Derrida é "um dos maiores sofistas da academia"), Heidegger, Octavio Paz, críticos e artistas modernos de modo geral. Geral mesmo: é discurso do tipo "passar a limpo o século 20, passar um pente fino na arte moderna e a arte pós-moderna" (mesma entrevista).

Mas devo dizer que, na verdade, acho que a conversa do Sant'anna fica melhor quando quer ser abrangente do que quando dá nome aos bois. Ao pretender ser abrangente, ele traça um retrato que pode não ser correto, mas que atinge um ponto real: o mal-estar que muita gente sente diante do que se apresenta como arte nos dias de hoje. Esse mal-estar se soma a uma certa tendência à nostalgia (e me perdoem a sinceridade, mas nostalgia é um sentimento doente por definição) e, em consequência, acaba por questionar o valor dessa arte contemporânea. Ok, mas aí deriva o que me parece ser o primeiro equívoco (ou aquilo que o Sant'anna preferiu chamar de "argumento em declive"): uma coisa é questionar o valor de cada obra, uma a uma; outra coisa bem diferente é pretender definir o que pode ser chamado de "arte" e o que é "não-arte". Porque esses termos são comuns na fala do Sant'anna, mas é preciso ser um pouco mais rigoroso nos conceitos, como ele mesmo sugere. Tudo bem, ele não gosta do Duchamp, acha ridículo o urinol da Fontaine estar exposto num museu, até aí tudo bem, opinião legítima e que se baseia em uma série de valores que nem preciso apontar por óbvios. Ele não gosta e pode escrever livros à vontade sobre isso. Mas o que o Affonso Romano não conseguiu explicar é por que ele diz que aquilo, o urinol que compõe a Fontaine, pode ser chamado de "não-arte" segundo ele. O que é "não-arte"? O que o Affonso e sabe-se lá quem mais (há um certo apelo do tipo "ah, vai, todo mundo acha isso...") considera que não é bonito?

Foi mal ter que lembrar disso, mas, só pra não sair das artes plásticas, nosso querido Van Gogh não obteve muito sucesso com suas telas em vida. Tipo, hoje a gente vê ao vivo aqueles negócios que ele pintou e a beleza parece irradiar de forma evidente e cristalina. Mas não sei se ele seria muito bem-visto pelo pessoal mais impaciente da época. Um dos tópicos da conversa de hoje foi justamente o fato de a pintura ter se afastado da representação visual das coisas. Por que será? Sabe, acho que deve ter sido porque inventaram alguma máquina pra registrar imagens que substituiu a pintura. É meu palpite. Daí vieram Van Gogh, Monet, Matisse, Picasso, Pollock, pra ficar só nos mais famosinhos. Tudo isso é modernidade, bicho.

Porque, no fim das contas, é a esse ponto que temos que chegar: modernidade não é um negócio que começa no século XX não, pô. Vamo' parar com isso, minha gente. Antes de reclamar do Deleuze, do Derrida e da galera sangue-bom, vamos jogar a sério esse jogo. Se é pra avacalhar com a modernidade e vir com papinho de restauração dos valores, ok, beleza, mas aí vamos voltar aos coroas que começaram essa história toda. Sacanear o Duchamp e o Derrida sem voltar ao vovô Kant e ao vô Hegel é, tipo, piada. A definição de beleza como um valor subjetivo vem de Kant - portanto, é o moço o primeiro responsável por defender a idéia de que não há uma regra universal para a beleza; já a defesa de que a obra de arte é "a aparência sensível de uma idéia" começa com Hegel (ok, com Schiller, mas enfim) - ou seja, é ali que nasce a noção de que qualquer objeto pode ser arte, desde que transmita uma idéia, um conceito.
Modernidade tem a ver com Robespierre, cabeças cortadas, constituições nacionais e etc etc. De modo bem sintético, simples e até infantil, tem a ver com seguinte: o mundo não se sustenta mais nos mistérios divinos e no poder dos reis, mas nas descobertas da ciência e no direito de cada indivíduo. Não em Deus, mas no Homem. Pelamordedeus, isso é história de primeiro e segundo grau. A "crise da modernidade", não é difícil perceber, tem a ver com o fato de que a imagem de Deus é mais forte do que a do homem racional. Pode até parecer que não, mas é daí que vem o urinol.

Tipo, eu sei que o Affonso Romano de Sant'anna leu muito mais que eu, então vamos falar a sério: pra meter o pau na crise da modernidade de forma generalizante, então vai ter que meter o pau em geral mesmo. Junto com o Duchamp e o Andy Warhol, vão pela lixeira o Van Gogh e o Picasso. Junto com o Stockhausen, vão o Wagner, o Beethoven e até o Chopin. Isso se o papo for generalizante, do tipo "a crise da modernidade é um conjunto de falácias teóricas" etc etc. Se for por aí, a "falácia da modernidade" vai começar lá com Leonardo da Vinci. Bons mesmo eram os gregos. Eram mesmo? Eurípedes foi expulso de Atenas, não custa lembrar, depois de chocar a galera com suas tragédias demasiado humanas. De que lado estaria o Sant'anna? Tudo bem, é claro que estaria com o artista... Mas e todo o pessoal que concorda com ele e se sente aliviado por ver alguém falando mal daquela arte "difícil de entender" - de que lado estaria?

Arte incomoda, bicho. Seja lá o que for, mas a parada incomoda, ou então não tem a menor graça.

Porque foi esse o problema que eu levantei pro Sant'anna, que elogiou a pergunta mas não a respondeu: e se por acaso essa conversa dele, de que é preciso "rediscutir interdisciplinarmente os conceitos das artes", for apropriada pelos reacionários, pelos preguiçosos e pelos autoritários para definir "o que merece ser chamado de arte e o que simplesmente não é arte"? Porque o risco é esse: é acabar jogando num saco de gatos qualquer coisa que lhe desagrada e parece "falsa". Se o problema é que os conceitos são "falácias", então é preciso apresentar novos conceitos, mais sólidos, ou então a situação tende a piorar com a marola... Me parece sempre bacana e corajosa a atitude de questionar nomes e valores consagrados, mas outra coisa inteiramente oposta é dar ensejo para um discurso em favor da preguiça de pensar. É isso que acontece quando se pretende juntar toda a arte moderna (e pós e etc) num mesmo balaio e é isso que acontece quando a base dos argumentos é do tipo "a sala em que o urinol da Fontaine fica exposto está sempre vazia". Acaba parecendo, no resumo da ópera, que o sujeito está indignado porque a obra não foi feita para lhe provocar deleite - e de fato não foi, e sim para inquietá-lo acerca do que é arte. No fim das contas, o fato de ainda estarmos discutindo o valor simbólico de um urinol indica que a criação de Duchamp foi muito bem-sucedida no seu aspecto inquietante (e justamente por não apresentar um objeto deslumbrante) e, na prática, a obsessão do Sant'anna em atacar o valor simbólico da Fontaine é apenas uma forma de passar recibo através da crítica. O artista é sempre um fingidor, não é? F for Fake, pô!

Essa conversa toda está no ar por causa da Bienal de SP - que, como se sabe, deixou um andar inteiro livre para o vazio. E o espaço foi tomado por pichadores, que foram presos.



Como disse o amigo Kleber Mendonça, fantástico seria se os seguranças garantissem o trabalho dos pichadores. É isso mesmo. Se o conceito de arte, hoje, precisa aceitar a noção de vazio, é também porque esse vazio pode ser mobilizado. O que o curador e os donos da Bienal fizeram ao mandar apagar as pichações e reforçar a segurança é exatamente o tipo de autoritarismo que eu disse temer em decorrência do discurso do Sant'anna. Se deixou um espaço vazio, deixa ele livre para a criação, para a obra em construção e vamos ver no que vai dar. Aposto que ficaria melhor do que paredes em branco: ficaria mais vivo e animado. Só fala em morte quem prefere se recusar a viver o presente, ora bolas.



Escrito por daniel às 02h57
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