Histórico


Outros sites
 PURO - UFF
 Duas Mariola Filmes
 documentário "O Mundo de Um Filme"
 Arquivo de textos que publiquei em outros lugares
 Filme Cultura
 Dissertação (três contos e algumas idéias)
 Arquivo de notas do Contra-blog (PG) 2002/2008
 Olhos livres - blog do Carlão
 Anotações de um cinéfilo - blog do Filipe
 Querida tela, - blog da Carol
 Cinema de boca em boca - blog do Inácio
 MySpace do Improta
 Objeto sim objeto não - blog do Fred
 Blog do Polvo (da filmespolvo)
 Canto do Inácio
 No olho do furacão - blog do Francis
 FotosLeoRamos - blog do Léo
 O esporte favorito dos homens - blog do Guilherme, do Chiko, do Allan, do Watanabe e do Renan
 Olha só - blog do Calil
 Hey, light! - blog do Bolívar
 Chip Hazard - blog do Sérgio
 Paragrafilme - blog do Eduardo
 À Colecionadora - blog da Luiza
 Febril - blog do Dado
 Los olvidados - blog do PR
 Blog do Jean-Claude Bernardet
 Berghof, casa de loucos - blog do Rodrigo
 Cinemascópio - blog do Kleber
 RD B side - blog do Renato
 Fotograma experimental - blog do Vébis
 O amor louco - blog do Milton
 O espírito da colméia - blog da Patrícia
 Blog do Tom Zé
 Blog do Noblat
 Blog do Tutty Vasques
 Cineclube - blog do Gustavo e do Cavi
 .Polis + Arte = blog do Cezar
 Estranho encontro - blog da Andréa Ormond
 Lentilhas vesgas - blog do Érico
 Medo do quê? - blog da Laura
 Cinecasulófilo - blog do Marcelo
 As cartas não enviadas - blog da Anahí
 Diário de um cinéfilo - blog do Ailton Monteiro
 Meu nome não é superoito - blog do Tiago Superoito
 Cinema com cana - blog do Luiz Soares Júnior
 Palavras do Bruno - blog do Bruno Amato
 Fabito's way - blog do Fábio Andrade
 Acontecimentos - blog do Antônio Cícero
 Kinos - blog do Julio Bezerra
 Cultura e crítica - blog do Marcelo Coelho
 Udigrudi - blogs do André e do Adamastor Goldman
 Cinema cuspido e escarrado - blog do Marcelo V.
 Viver e morrer no cinema - blog do Leandro
 BlogIndie - blog da Francesca
 Insensatez - blog do Adilson
 Esperando Godard - blog do Saymon
 Bressonianas - blog do Adolfo Gomes
 Impressões Virtuais - blog do Lu
 Setaro's blog
 O Olhar Implícito - blog do Vlademir Corrêa
 Acabou o asfalto! - blog da Valeska
 Kynemas, Fluxus filmes - blog do Pedro Paulo
 Mamulengo - blog da Maria Carolina
 Cinema de invenção - blog do Juliano/Jairo
 Quando nada está acontecendo - blog da Noemi Jaffe
 ...rastros de carmattos - blog do Carlos Alberto Mattos
 Cinematógrafo - blog da Bibi
 Vistos e escritos - blog do Rodrigo Cássio
 Qualquer coisa - blog do Samuel
 Cinema falado - blog do Luciano Ramos
 bRog - blog do Raul
 Entre águas - blog do Heyk
 Os olhos sem roupa - blog do Daniel Salomão
 Questões cinematográficas - blog do Escorel
 Godard city - blog do Rogério Skylab
 Cine Monstro - blog do Primati
 José Geraldo Couto: No cinema
 Castelo de areia - blog do Juliano
 Mundo Fantasmo - blog do Bráulio Tavares
 Blog do André Barcinski
 Núcleo Patricia Bárbara!
 Zingu!
 Zé Pereira
 Questão de crítica
 Digestivo Cultural
 Cineweb
 Mulheres do Cinema Brasileiro
 Cinética
 Cinequanon
 Site do Avellar
 Contracampo
 Cahiers du cinéma
 Filmes Polvo
 Moviola
 Filmologia
 Cine Cachoeira
 Interlúdio
 Rouge
 jonathanrosembaum.com
 Senses of cinema
 Lola
 El Amante
 Miradas de Cine
 Tren de sombras
 Filmes Brasileiros (download)
 Manual do Minotauro - blog dos quadrinhos do Laerte
 Roteiro de Cinema
 Revista Lateral


XML/RSS Feed
 
 
Passarim


FBCU

A boa do fim de semana que começa é a programação e as farras do Festival Brasileiro de Cinema Universitário, que já chega à sua 13ª edição. O homenageado do ano é nosso querido Nelson Pereira e aAmanhã, sexta-feira, vai rolar uma exibição do filmaço El Justicero, seguida por um bate-papo do público com esse que vos escreve - nos dias seguintes vão rolar exibições da obra-prima Rio Zona Norte, seguida de bate-papo com Eliane Ivo, e do Boca de Ouro, seguida de bate-papo com o Hernani Heffner.

É claro, não tem como ser o melhor FBCU de todos os tempos porque o melhor de todos foi e sempre será o de 2007. Mas essa edição do festival promete ser bem animada.

Escrito por daniel às 14h00
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



diga 33

No mais, o bróder Bruno fez uma piada que não resisto a contar, em versão melhorada: Cristo demorou 33 anos para chegar à cruz, enquanto eu demorei o mesmo tempo para chegar à Glória.
Mesmo que a casa ainda esteja sob o signo do caos...

Escrito por daniel às 18h40
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



L'amour à mort (1984)

Vou escrever mais sobre Resnais esses dias por conta da tal mostra que falei que um pessoal está organizando para rolar nos CCBBs, mas deixo aqui o registro do impacto que foi ver Morrer de Amor, filme tristíssimo dele dos anos 80.
No que tem de comum com outros filmes dele, dá pra notar que Resnais já tinha entrado nesse clima de encenação explícita de sentimentos e relações extremadas em que está até hoje - como a gente pôde conferir no bonito Coeurs, do ano passado (na verdade já dava pra sentir isso desde Muriel - e talvez a gente possa dizer que todo esse espectro da carreira dele já se fazia presente no Hiroshima... e no ...Marienbad), assim como já tinha começado a trabalhar com seus atores mais constantes (Sabine Azéma, Pierre Arditi, André Dussolier).
Mas é no que tem de incomum que esse filme me impressionou. Não é nada de novo sugerir que o eterno duplo do amor é a morte - mas o filme encontra uma equação impressionante por fugir inteiramente do realismo convencional enquanto, ao mesmo tempo, mantém um respeito integral e fascinado pelas motivações e angústias dos personagens da Azéma e do Arditi. É bonito de doer.

Escrito por daniel às 18h36
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Subiela



Pra quem não sabe, Eliseo Subiela é o grande cineasta argentino pouco conhecido no Brasil. Ontem, no meio da bagunça que toma o lugar que será a sala de jantar, fiquei vendo com Carol o primeiro filme dele a ter bom reconhecimento internacional, Ultimas imagenes del naufragio, que eu nunca tinha visto. Achei bem menos impactante que os dois filmes que ele fez em seguida, Homem olhando para sudeste e O lado obscuro do coração, mas ainda assim um filme muitíssimo bonito. Tive nos últimos anos a forte impressão de que o Subiela passa mais despercebido por fugir bastante ao estilo realista (o cinema dele sempre se assume inteiramente poético), mas até que esse aqui é quase uma exceção - apesar de algumas imagens delirantes, o filme se segura no registro realista, ao contrário dos seguintes (recentemente ele voltou a fazer filmes mais caretas, menos porra-loucas, como vi em Lifting de corazón, que passou num festival do Rio de anos atrás).

Uma coisa que eu achei curiosa do filme foi o clima de decadência social e econômica que ele apresenta no entorno dos seus personagens. Quer dizer, a gente sempre lê por aí que o novo cinema argentino exibe essa atmosfera, que teria tomado o país depois da era Menem - mas esse filme é de 1989! Quer dizer, a sensação argentina de decadência é bem mais antiga. Mas sobre isso posso tratar em outro momento - agora é hora de almoçar e Carol está morrendo de fome aqui ao meu lado.

Escrito por daniel às 17h06
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



+ duas ou três coisas sobre contracampo

Eu tinha dito na nota anterior sobre o que rolou com a contracampo que provavelmente iria acabar voltando ao assunto - e não deu outra. Nem iria falar nada sobre as conversas com o Eduardo, sobre as manifestações do Ruy no blog do Calil e na comunidade do orkut, sobre os emails trocados com a Tatiana nem sobre os posts do Gui no blog dele; também nem pretendia, de início, escrever aqui sobre uns comentários um pouco ofensivos postados na nota anterior. Mas acabei mudando de idéia, até pra reconhecer que ainda preciso pensar em como lidar com comentários ofensivos, algo bastante comum no mundo blogueiro, infelizmente. De início, penso que a regra vai ser a seguinte: post com ofensa pessoal vai ser apagado assim que eu ver. Vamos maneirar aí, galera, isso aqui é um blog de respeito, pô!

Sobre os comentários ofensivos, cabem alguns esclarecimentos. O leitor Fernando deixou algumas ofensas ao Ruy que alguns podem até concordar, mas eu conheço o Ruy há dez anos e sei que não é bem por ali não. Quando li o comentário, cheguei a procurar nosso querido Fernando Veríssimo para saber se foi ele quem escreveu aquilo - e, como o próprio esclareceu num comentário subsequente, não foi ele. Cabe então sugerir ao leitor Fernando que inclua o próprio sobrenome - pelo menos quando acusar alguém de alguma coisa - pra não parecer que é fake. E cabe esclarecer também que essa visão do Ruy como alguém que coloca o Cinema e a Revista acima de tudo não condiz com a realidade (ainda que o próprio Ruy talvez simpatize com esse tipo de ofensa). Ao contrário, Ruy nunca mudou seu jeito de ser, goste-se ou não dele, em favor das necessidades da revista. Um dos problemas que afastaram os responsáveis pela editoria do resto da redação tinha isso como origem - a eterna preguiça do Ruy em escrever emails que esclarecessem para o resto da redação quais eram as pautas que estavam sendo pensadas. Acho que todo mundo que fez parte da lista da contracampo pode confirmar isso, e isso nos leva ao outro comentário ofensivo.

O outro comentário foi assinado com um nome assumidamente fake: "Rodrigo Cavalo". Ele fez uma inversão lógica ao usar o termo "parasita". Parasita, como se sabe, é o organismo que só sobrevive por se nutrir de outros a que se acopla. Definitivamente, não é meu caso com a contracampo ou qualquer dos colegas que tive por lá (nem é o caso de nenhum dos que saíram). Todo mundo sobrevive muito bem sem a contracampo; já a revista, por sua vez, depende de redatores. Ou seja, como eu disse, há uma inversão lógica nisso tudo. De todo jeito, talvez o "Rodrigo Cavalo" possa tirar a prova disso me ajudando a convencer o Ruy de que é melhor tirar de uma vez meus textos da contracampo. Acho meio ridículo da parte deles se negarem a seguir o meu pedido e tirar meus textos do ar. Então parece que é a contracampo que depende do trabalho gratuito das pessoas - e quem é o parasita, afinal?

Enfim, tudo isso é simbólico, seja se mantiverem os textos das pessoas para parecer que ainda é a mesma revista, seja se respeitarem meu pedido e reconhecerem meu direito a deixar meus textos publicados somente onde eu quiser. Será que o "Rodrigo Cavalo" consegue convencer o Ruy?

Outra coisa a dizer ao "Rodrigo Cavalo", e essa sim me motiva a fazer esse post, é que me sinto muito lisonjeado ao ver a importância da minha saída da revista comparada à da saída do Valente. No entanto, a comparação é equivocada  - e sintomática porque ela aponta justamente o momento em que a contracampo começou a acabar. Com isso eu tenho certeza de que 99% dos redatores vão concordar: a contracampo começou a ir por água abaixo quando Eduardo Valente preferiu manter sua própria saúde a se manter como editor da revista. Espero que o Eduardo me perdoe pela indiscrição, mas de fato ele teve problemas de saúde gerados por excesso de tensão em determinado período - e esse foi um motivo central pra ele sair da revista. Isso se dava porque, ao contrário do que o Fernando afirmou e o "Cavalo" gostaria de acreditar, o Ruy não mudou o seu jeito de ser em favor da revista, nem nunca mudará. O Eduardo é um cara que leva as coisas bastante a sério, a despeito do que podem fazer parecer todas as piadas que ele gosta de inventar - e, enquanto ele teve paciência e saúde, foi ele, e só ele, quem fez o meio-de-campo entre redação e editoria na contracampo. Quer dizer, as pessoas só se comunicavam, diziam o que estavam pensando e eram cobradas a escrever enquanto o Eduardo topou fazer esse papel. Desde o momento em que ele saiu, os dois outros editores que assumiram a função, Júnior e Tatiana, sabiam que havia esse vazio e que o Ruy jamais mudaria seu jeito de (não) se comunicar por conta das necessidades da revista. Mas não souberam cobrir essa falta, seja por não conseguirem entrar em confronto com o Ruy e seu jeito de ser, seja porque não estavam dispostos à tensão permanente que essa função acarretaria.

Nesse sentido, vale dizer algo que todos nós que estivemos na contracampo sabemos: a contracampo só conseguiu se organizar e ganhar o respeito que chegou a ter porque teve o trabalho do Eduardo para levá-la adiante. Eu disse que o Ruy foi provavelmente quem mais trabalhou pela revista e acredito nisso, mas se o volume de trabalho de alguém pode ser comparado ao dele, é o do Eduardo; e só posso dizer que o Ruy trabalhou mais porque esteve no cargo por mais tempo - porque no tempo em que dividiam as funções o Edurdo ralava mais, muitíssimo mais. Não por acaso, foi a época em que, com todas as ressalvas, a revista realmente tinha dinamismo. Como eu disse, ela começou a acabar quando o Valente saiu - e esse triste fim a que assistimos nesse último mês é consequência direta disso; é o ato final dessa comédia de erros.

Um comentário a mais sobre o texto assinado pelo pseudônimo "Cavalo" - e também sobre o comentário do Gui no blog dele e sobre o email que o Ruy assinou com o próprio nome no blog do Calil: não se pode negar que o Ruy esteja sendo sincero nesse texto que assinou sozinho. Basicamente, como alguns já notaram, ele apenas confirma meu relato sobre como as coisas se passaram - e comete apenas um equívoco bastante sintomático, quando diz que, de trinta redatores, oito "foram mantidos" na revista. Na verdade, nem todos desses oito concordam com o procedimento estúpido (sugiro que o Ruy pergunte de um a um) e nem todos continuarão publicando regularmente na contracampo. Mas ok, digamos que fossem oito entre trinta: será que estou errado ao dizer que a revista acabou e que, mesmo que continuem publicando coisas por lá, é outra revista que será feita no endereço www.contracampo.com.br? Sinceramente...

Portanto, ainda que ache maneiro o esclarecimento do Gui no blog dele e agradeça pelo carinho e pelo elogio ao Passarim, é bom lembrar que não fui o único a sair da revista. Sem querer me fazer de mártir ou herói, eu só fui o único que se dispôs a pôr a boca no trombone - e isso porque não tenho a perder, ao contrário dos outros: não preciso de emprego, não dependo do meu trabalho como crítico ou jornalista. Tenho emprego fixo e estável, bêibi. Mas os prejudicados foram vários. Muita gente foi desrespeitada no plano profissional. Por isso, acho que é necessário não reduzir essa discussão ao plano das relações pessoais. Nesse aspecto, como escrevi no outro post, não há mais nada a dizer. Mas é preciso apontar como a atitude dos "editores" foi errada, grosseira e desrespeitosa com todos os outros que escreviam por lá - não só comigo.

Pra terminar, queria notar ao "cavalo" que não deve ter sido por acaso que ele escolheu um pseudônimo quadrúpede para poder dar coices nos outros. Lembrei-me de uma ofensa gozadora no mesmo estilo, que li uns meses atrás, referindo-se a uma jornalista como uma "bípede por teimosia" - era uma forma de dizer que ela não é muito esperta. Pois bem, ao quadrúpede só me resta dizer isso: deve ser triste querer dizer o que a gente pensa e atacar outras pessoas, mas não poder assinar com o próprio nome. Acho que ele não aceitaria conselho meu, mas eu digo o seguinte pra quem faz isso: reavalie sua vida, bicho. Porque ela entrou no caminho errado, e foi ele próprio, com o pseudônimo "cavalo" ou com seu próprio nome, quem a conduziu até aí.

atualização: Há que se reconhecer quando se erra, né? Pois é - dois leitores do blog me alertaram que o tal Cavalo é fake do tipo que existe e anda pelas ruas. Enganei-me então com relação a quem seria o quadrúpede - que, pelo jeito, é do tipo que gosta de xingar quem não conhece. Aí nem adianta conselho nenhum.

atualização 2: Por conta desse motivo citado acima, mexi um pouco no texto do post. Antes, eu dizia que acreditava saber quem teria assinado como "cavalo" - mas, como descobri, estava errado. Fica aqui reconhecido o erro, mas achei inadequado manter o texto antigo com um equívoco desses, por isso corrigi meia-dúzia de frases.

Escrito por daniel às 16h55
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



A grande mudança!

Ontem foi o dia do perrengão: meu novo CEP agora é 20241-150. Até a próxima, Buarque de Macedo e praia do Flamengo. Próxima parada: Glória, como costuma dizer a locutora do metrô e a Carol adora lembrar. O Rio de Janeiro tem disso: em São Paulo o sujeito pode até dizer que mora no Paraíso, mas só no Rio alguém pode afirmar que vive na Glória. A partir de agora, é meu caso. A música-tema do dia é óbvia: Na Glória, o choro famoso do Raul de Barros. O Rio tem dessas também - em quantas cidades a gente pode morar num bairro que é título de um chorinho bonito? Só no Rio mesmo, bicho.

Escrito por daniel às 15h04
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



cante uma musiquinha de sacanagem

Por motivos diferentes, tenho visto ou revisto os filmes do Oshima e os do Resnais. Já tinha revisto o genial Max Mon Amour há uns dias e ontem eu e Carol vimos o filme dele de 1967 que em inglês ganhou mais de um nome, entre eles Sing a Song of Sex (no original: Nihon shunka-kô). Na verdade eu estava revendo - ele já tinha sido exibido num festival do rio de uns seis anos atrás (se não me engano, com esse nome que eu falei, Sing a song of sex) e se tornou uma das glórias daquele ano; lembro de vários papos sobre ele na época do festival e do pessoal lembrando a cançãozinha que os personagens cantam.

E é impressionante, bicho: o filme é uma paulada. É, em certa medida, um filme só sobre o cotidiano de uns rapazes, uma galerinha de escola - até que um professor toma um porre com eles numa noite e na manhã seguinte ele está morto. Na verdade o filme continua sendo sobre o cotidiano deles, as questões de tesão da juventude e tudo mais, mas tem o seguinte: segundo se diz, o jeito que o cara morreu foi, em tese, ao "bater com o pé sem querer" no forno e liberar gás que o intoxicou. Quer dizer, a questão do suicídio está mais do que insinuada - e antes a gente viu, na véspera do incidente, como estava bêbado e triste o tal professor. Daí o filme mostra o cotidiano da galerinha, afetado por esta culpa e também pelo desejo que os rapazes sentem pelas menininhas da sua turma. Mas não há implicação direta, não há aquele psicologismo banal, uma lógica narrativa caretinha que procure explicar o sentido dos delírios que eles têm - o que há é um certo sentimento de melancolia que eles tentam pôr para fora e que se torna expressivo na tal musiquinha de sacanagem que eles ficam cantando o tempo todo. E é incrível como o filme consegue apresentar, em mais de um momento, conflitos dramáticos e disputas de espaço e poder apenas com a insistência dos rapazes em cantar uma genial cançãozinha japonesa de putaria.

Já com relação ao Resnais, não custa lembrar a todo mundo que a boa notícia anunciada há meses no site do CCBB está próxima de rolar: um pessoal bacana daqui do Rio em breve vai apresentar nos CCBBs uma baita retrospectiva dos filmes do francês. Quem viver - e for esperto - verá.

Escrito por daniel às 06h37
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Os brios

Todo mundo sabe que a grande pilha pra esse início do Mengo no brasileiro foi a derrota bizarra na Libertadores, que tisnou a glória do título conquistado em cima do Botafogo três dias antes e deixou a torcida indignada e o time mordido - a questão é: até quando vai essa motivação? O Mengo tem um bom time, mas o ataque é aquele negócio brabo, e venderam logo o sujeito que marcava gols... Até aqui tava dando pé, mas pro time ser campeão alguém vai ter que marcar os gols. Mas, mais do que isso, o pessoal tem que ficar com os brios mexidos até o final do campeonato. Se subir no salto alto, fedeu...

Sob esse ponto de vista, o empate de hoje com a Portuguesa não foi mau: o time tinha um jogador a menos e era na casa do adversário. Mas o melhor foi ver o time partindo pra cima no final, mesmo com essas condições adversas. Eu espero que faça bem aos caras sentir que não adianta correr bastante no final de um jogo - tem que correr o campeonato inteiro. Tem gente lá que tem brios pra isso. Só tem que torcer pro Kléber Leite não "dar a lôca", digamos assim, e desfazer o time no meio do campeonato.

Enfim, ainda líderes, pelo menos até o jogo do Grêmio com o Figueirense. Agora é torcer pro time de Santa Catarina segurar a onda por lá.

Escrito por daniel às 06h02
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



[rec]

Vi ontem com Carol o tal filme espanhol tão falado, que o Fernando já tinha me recomendado com veemência. Achei a primeira meia-hora um pouco cansativa, com toda aquela gritaria exagerada mas, depois que o filme pega o embalo, ele acaba ficando bem divertido... Sabe como é, tudo parece muito clichê e sem emoção - até que uma criancinha resolve dar uma dentada em alguém, e aí a coisa se anima um pouco.


Sim, claro, todo mundo já percebeu que tem esse negócio de "câmera-testemunha", que está super-na-moda, junto com o filme do Romero e, segundo me contam, com o Cloverfield (que não vi), seguindo o caminho do Bruxa de Blair... Mas, sinceramente, acho que nesse caso o procedimento não contribui muito pro filme. No caso do Bruxa de Blair a câmera como testemunha servia para aguçar a impressão de que havia coisas escapando à nossa visão; no Diary of the dead do Romero a coisa serve para tornar ainda mais absurdo um mundo em que de repente aparecem zumbis; neste, parece servir só para o filme ter uns planos de câmera correndo e descendo escadas em alta velocidade.


Ainda assim, como eu disse, o filme constrói bem a tensão. Quer dizer, nesse tal negócio de mise-en-scène ele pode até ser um pouco imaturo e exibicionista - mas, como os jazzófilos bem sabem, os solistas excessivos podem se sair muito bem se tiverem um bom arranjo ou mesmo se estiverem naqueles momentos em que as coisas dão certo.



Escrito por daniel às 06h43
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



ainda líder

Bom, não é qualquer um que se mantém no topo da tabela depois de duas derrotas seguidas. Vamos torcer pro time conseguir religar os motores e só ter perdido enquanto podia perder mesmo.

Só queria entender o sentido de deixar irem embora os dois pontas-de-lança do time de uma vez só, mas essas coisas não têm jeito. Ainda por cima, depois de toda transação financeira ter rolado, a gente tem que ver declarações do cartola de plantão dizendo que acha tudo um absurdo, que não queria vender ninguém etc. É dureza esse negócio de gostar de futebol no Brasil.

E ter gol legítimo anulado em casa é sacanagem, pô. Querem tornar o campeonato mais emocionante? Pelamordedeus, pelo menos disfarcem um pouco!

Mas, enfim... ainda líder.



Escrito por daniel às 06h17
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



blog do Estevão

Falei aqui embaixo da dica que o Estevão me deu pra catar os filmes do Moctezuma (e ele também falou do Cordiki, que ainda não descolei) e vale dar a dica do blog que ele abriu, por conta de uma particularidade que o torna bastante curioso: Estevão está no México para fazer seu mestrado e pretende publicar no blog seus apontamentos sobre seu cotidiano de migrante no outro país gigante da América Latina. Achei genial o post "existe lasanha no Brasil?".

Escrito por daniel às 06h32
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



emulices

Como alguns amigos já sabem, graças à pilha da Carol e do Carlão eu acabei entrando no mundo dos downloads de filmes. Sacumé, sempre tive receio de que esse troço detonasse o computador e eu perdesse todo o trabalho etc, além disso nem precisava da web pra sempre ter milhares de filmes a serem vistos e, claro, ver filmes na telinha do computador ainda me parece uma idéia horrível, mas... Enfim, Don Carlone me pilhou bastante por conta de filmes que eu teria que baixar e, de quebra, me mostrou o caminho das pedras pra passar os filmes de Divx para DVd normal e assim poder vê-los no ultrapassado aparelho de DVD (isso já faz uns meses, nesses troços eu sou meio lento mesmo). Carol me explicou como funcionavam os programas de download p2p (e depois eu me senti meio idiota por precisar de explicações pra algo tão simples, é claro). E, bem, se era preciso um acontecimento que me fizesse aprender logo a usar isso, ele aconteceu uns dois meses atrás: o computador que eu temia que se detonasse caso eu começasse a baixar filmes acabou se detonando por conta própria, sem programa de download nenhum.

Aí eu tive que trocar tudo mesmo, então botei a tal da mula pra rodar aqui há umas semanas e já deu pra me divertir um pouquinho. Mas demorei um pouco pra entender o esquema da memória e quase fiz besteira: quando fui ver, dos 80 gigas de memória só tinha uns dois livres. Coisas de principiante. Mas descobri um blog com links para baixar, entre outras coisas, todos os desenhos do Pica-pau.

Vi esses dias um filme razoavelmente bem conhecido do Juan Lopez Moctezuma, Alucarda, um clássico do cinema fantástico mexicano. O Estevão já tinha me dado um toque para procurar este e outros filmes do Moctezuma porque ele poderia se encaixar bem na pesquisa que estou começando a fazer no doutorado - o Moctezuma faz esse movimento que me interessa, de ter um início de carreira ligado à contracultura e depois ter feito filmes considerados "apelativos". Achei Alucarda bem interessante - não me deu medo nenhum, mas é bem estilosão, a menina que faz a personagem-título é ótima e há um humor incrível (e bastante crítico) na contraposição que o filme faz entre o aprisionamento da "razão" e a liberação própria do misticismo. Estou catando outros filmes do Moctezuma, já consegui The Mansion of Madness.



Também vi um filme do Buñuel que eu nunca tinha visto, La Fièvre Monte a El Pao (ou Los Ambiciosos) - e, claro, a inescapável herança autorista me fazia ter imensa curiosidade sobre o filme. Que é, enfim, bem legal, mas quem mandou esperar demais? É um drama político, com muitas ironias lançadas sobre o provincianismo da política latino-americana, com atuações admiráveis do Gérard Philipe e da Maria Félix, fotografia do Figueroa... E, ok, o cara tem moral por ter tratado de golpes e convulsões políticas antes de quase todos os cineastas latino-americanos (uma exceção é a chanchada Nem Sansão Nem Dalila, do Carlos Manga - devem haver outras e eu que não sei ou não lembro).O filme foi feito em 1959, ano que começou com a revolução cubana - quer dizer, o pessoal tinha tino... Mas os melhores filmes do Don Luís, os de que mais gosto, não precisam dessa ostensividade artística ou histórica. Era um filme que eu não tinha visto e foi feito dois anos antes de Viridiana - é natural que eu esperasse demais. No fim das contas o filme é bem bom, quem mandou ficar tão curioso?

E arrumei uma cópia do Eu Matei Lúcio Flávio (porque Calmon também pode ser um caso...). Enfim, Jece é foda, tem um carisma impressionante, o filme é ducacete etcétera. Pensei até em escrever algo, mas li um texto muito bacana no blog Estranho Encontro e não precisa dizer mais nada não, só dar a dica de leitura.



Escrito por daniel às 06h25
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Brecht demais faz mal a Von Trier...

Dos filmes que peguei na locadora, o que curti mais foi o Alpha Dog, bom filme. O espanhol O Que Você Faria me encheu um pouco a paciência com aquele clima de experiência com cobaias. Mas o filme bizarro mesmo da leva foi o Grande Chefe do Von Trier. Alguns filmes do Von Trier são muito claramente sobre a relação de controle que um filme propõe a seu espectador - mas achei que esse aqui lida com a coisa de forma doentia mesmo.


O que quero dizer tem um quê de psicologismo autorista, por isso já digo meio desconfiado, mas me parece muito evidente que, depois de uma primeira fase em que os filmes trabalhavam de forma muito confortável com a manipulação de afetos e sensações (Breaking the waves encerrou essa fase de forma bastante explícita, com sinos milagrosos no final do filme), desde o movimento do dogma que o aspecto manipulatório dos filmes passou a ser uma questão para os filmes dele - e nesse Grande Chefe isso se tornou um fardo pro filme.


A proposta do dogma já procurava "limpar" os filmes do aparato sentimentalista. No Dançando no escuro, o enredo apresentava uma visão bem crítica do papel ilusório dos filmes (nos momentos mais difíceis, Selma fugia da realidade imaginando-se dentro de um musical) e trazia uma metáfora até banal na sua obviedade - a protagonista era cada vez mais cega, mas seu filho pode escapar desse destino. Vale notar o seguinte sobre Dançando no escuro: o filme apresenta a vida de uma mulher operária, migrante, que não tem transporte adequado para ir trabalhar, não tem condições de segurança na fábrica e não pode contar com o sistema de saúde para se tratar e tratar seu filho; de quebra, é sacaneada pelo casal burguês que aluga o pequeno espaço onde ela mora. Isso poderia ser o tema de um drama social inglês, mas Dançando no escuro é um filme sobre alienação - que, reconhecendo o paradoxo de usar o cinema para atacar o papel destinado ao cinema, criou uma metáfora (bastante clichê, não há dúvida) da situação: a doença de Selma e do seu filho é a cegueira. Selma às vezes não sabia distinguir a realidade da imaginação, e do mesmo modo o seu drama, cuja natureza é social, acabava sendo visto por platéias sedentas de clímaxes como um dramalhão jurídico-familiar; para os que sofriam com a vida de uma personagem, sem manter o distanciamento, o filme reservou o final mais amargo: ela morre de forma impiedosa - já para os que viram o enredo como metáfora, sem criar empatia com os personagens, o final era mais doce: seu filho não será cego como ela foi.


Isso foi no Dançando no escuro. O Dogville e o Manderlay, com a ausência de cenários, tomavam essa perspectiva anti-ilusionista já como ponto de partida. A manipulação que poderia ser exercida pela identificação com os personagens já não era uma questão porque o realismo tinha sido mandado às favas. E esse O Grande Chefe dá a bandeira de que essa mistura de fascínio e repulsa pelo aspecto manipulatório do cinema é uma questão ainda muito cheia de problemas para o dinamarquês - e, ainda que descontemos o tal aspecto psicologizante que mencionei, isso realmente faz muito mal ao filme. Ele é todo um filme sobre controle, mas procede um ataque sistemático a dois elementos básicos do cinema - a montagem de planos e o enquadramento - que não tem nada de genial e é muito chato, modorrento mesmo. Ok, é uma idéia bem divertida fazer um filme com enquadramentos e cortes pretensamente esvaziados de motivos dramáticos - divertida no papel. O Grande Chefe me parecia uma interminável instalação artística, do (mau) tipo que tem uma idéia ótima e uma fruição que fica bastante aquém da idéia.


O sujeito quer fazer um filme sobre controle social que, mais uma vez, faz do seu enredo uma analogia com o seu próprio papel? Ok, Mas o fato é que o resultado não me pareceu nada sedutor. Ficou inevitável lembrar da crítica que o Robert Stam faz, válida para tantos brechtianos do cinema: que, preocupando-se somente com a denúncia do espetáculo manipulatório, por vezes deixam escapar a força e o fascínio que o próprio espetáculo deve despertar, mesmo que dialieticamente seja apontado como manipulatório. Esse difícil equilíbrio eu vi no Dançando no escuro, no Dogville e, um pouco menos, no Manderlay, mas no Grande Chefe a coisa degringola.


Torcer pra esse ser o Kika do Von Trier - ou seja, o filme que, mesmo um tanto malsucedido, condensa uma série de preocupações de uma certa fase e abre caminho para que as criações futuras sejam de outra ordem.



Escrito por daniel às 07h48
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Anotação para contar para o Hernani

Na parede do meu quarto de hoje à noite, no hotel em que fico aqui em Rio das Ostras (o Ostrão - juro que o nome é esse), tem um cartaz de um filme na parede: é de Pinguinho de Gente, filme produzido pelo Adhemar Gonzaga, com direção da Gilda de Abreu e atuação do Anselmo Duarte.

Escrito por daniel às 00h37
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



com relação ao texto no Mais sobre o livro do Serras

Depois do post imenso aqui embaixo, vou tentar ser mais sintético (mas não muito) para falar do problema central que eu vi no texto do Fernão Ramos acerca do livro que eu organizei com ensaios sobre o Serras da Desordem. Como eu disse, no seu texto o Fernão Ramos afirma que discutir a relação entre documentário e ficção no filme é uma "falsa questão" porque o filme é um documentário e ponto final... Bem, já falei que o próprio Tonacci diz exatamente o contrário (isso está na entrevista publicada no livro), mas não quero me defender com A Palavra do Autor. O caso é outro, o buraco é mais embaixo.

Em certo momento do seu texto, o Fernão Ramos afirma o seguinte: "Tonacci, em "Serras da Desordem", trabalha livremente com a encenação (como antes dele fizeram Flaherty, Grierson, Laurentz, Morris e tantos outros), como é próprio da tradição documentária. Estaria por isso fazendo mais ou menos documentário? A questão está deslocada. O paradigma de Tonacci nesse filme é o mesmo de Jean Rouch em seus documentários mais bem-sucedidos, abrindo largo espaço para a encenação e improvisação diante da câmera". Aí reside o equívoco, na minha visão. Porque, para começar, acho falho reduzir todos os textos a discussões forçadas sobre o imbricamento entre ficção e realidade. Mas, mais do que isso, essa definição peremptória de que Serras da Desordem é um documentário comete dois equívocos seguidos: primeiro, divide o cinema entre documentário e ficção - e a construção de Serras da Desordem procura justamente apagar nossa percepção dessa divisão; segundo, depois de manter essa divisão sempre questionável, o texto do Mais escolhe a opção errada para categorizar o filme.

Vamos ser mais claros: se cinema obrigatoriamente se dividirá sempre entre documentário e ficção, Serras da Desordem então é uma FICÇÃO. Uma ficção baseada em fatos reais, como está escrito na página 9 do livro que organizei. Não se trata de documentário baseado na encenação, na recriação ou no improviso, como Ramos parece crer, devido a uma simples razão: o filme apresenta aos espectadores uma fábula, entendendo-se por isso uma história cujo desenlace não faz parte da realidade. Não se trata de compreendermos Carapiru a partir do modo como ele interpreta a si mesmo, como Jean Rouch já fizera em Eu, Um Negro - trata-se sim de usar a figura real de Carapiru para apresentar ao espectador um personagem que, baseado numa pessoa real, tem no final do filme um destino inteiramente diferente da pessoa em que se baseou. Ou seja: o destino que o filme apresenta do personagem Carapiru não condiz com a realidade.

O filme mostra Carapiru abandonando sua aldeia para voltar a morar sozinho. Isso faz parte de uma fábula que se relaciona às primeiras imagens de Serras da Desordem - no início a relação dos índios com a natureza é apresentada de forma muito harmoniosa, ao contrário do que acontece na aldeia na parte final. Pois bem, Carapiru, a pessoa real, nunca mais abandonou a aldeia (ao contrário do que mostra o filme). O Carapiru que Ramos conheceu através do filme é um personagem que se tornou um desterritorializado; já o Carapiru real soube refazer seus laços e vive entre seus novos pares. Esta é a medida da diferença entre ficção e realidade.

No entanto, como eu já disse no outro post, o filme arma uma estratégia narrativa em que o papel exercido pelo Carapiru real se transforma no condutor de uma reflexão sobre a expansão "civilizatória" da nossa "sociedade tecnológica" (para usar a expressão do Tonacci). Nessa medida, a ficção desemboca num documentário sobre as consequências reais do projeto de nação desse país; e, por consequência, sobre a relação entre pessoas de diferentes culturas.

Neste sentido, me parece equivocado negar o aspecto ficcional de Serras da Desordem; e, na mesma medida, me parece bastante careta insistir que o imbricamento entre ficção e realidade é uma "falsa questão". Talvez a "falsa questão" resida, aí sim, na necessidade de rotular os objetos artísticos.

Enfim, isso tudo dito, cabe notar que a discussão é bem-vinda. O nosso trabalho foi para dar a nossa contribuição no esforço de pensar esse filme, e discuti-lo significa pôr em debate um filme que pede para ser pensado e repensado. Nesse sentido, unanimidades são um horror, como já disse o outro.



Escrito por daniel às 07h24
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



O que aconteceu com a contracampo - minha visão

Bem, eu já imaginava que um monte de gente iria me perguntar o que aconteceu quando eu mencionasse o fim (na prática, embora não oficialmente) do que foi a contracampo no email que enviei para anunciar aos amigos a existência desse blog aqui. Não imaginava por outro lado que, justamente quando eu tinha decidido contar aqui o que rolou, iria encontrar por acaso o Ruy Gardnier na locadora Macedônia, aqui do lado. Falei de forma bem resumida e direta para ele o que penso da situação e, como praticamente não fui contestado por ele, acredito que o que vou dizer não está nada distante da realidade dos fatos.

Sobre os fatos, sendo bem sintético: há exatas duas semanas, Ruy enviou um email aos redatores da revista, assinado pelos três editores - ele, Tatiana e Júnior. Neste email, informavam a "decisão" de que a redação passaria a ser constituída somente pelos três e mais cinco selecionados - que, em pelo menos dois casos, não haviam sido avisados previamente. Minutos depois, retiraram da lista de emails os demais redatores, agora "ex", e mudaram a senha do site. Resumidamente, foi isso. No email, diziam que faziam isso para "fazer a contracampo reerguer-se". Quem conseguir acreditar nisso pode seguir acreditando que a revista ainda existe.

Para nós outros, cabe a triste constatação de que Ruy Tatiana e Júnior resolveram abrir uma nova revista e, para isso, acabaram destruindo o respeito profissional que deviam a algumas pessoas - e, em consequência, algumas amizades de anos. Tudo, basicamente, porque não conseguiram encarar serenamente o que era o seu real desejo - abrir uma revista nova - e quais as atitudes que lhes cabiam nessa situação. Não conseguiram nos procurar para uma conversa - ao contrário, boicotaram todas as tentativas de combinar um encontro para acertar os ponteiros para a edição 92. Não conseguiram entender que, mesmo que estivessem decididos a seguir seu próprio caminho (um direito natural), deveriam procurar os demais redatores para conversar - ao invés de mandar um email e silenciar qualquer discussão ou negociação sobre o destino do site.

De todas as coisas que disse ao Ruy hoje, a única que ele respondeu foi quando lhe disse que a revista havia sido roubada pelos três. Ele me deu uma resposta que serve como senso de medida de um certo descolamento da realidade: disse literalmente que "90% da revista" foi feito por eles. Sem querer desmerecer o trabalho do Ruy, que criou a contracampo junto com o Bernardo dez anos atrás e provavelmente foi quem mais trabalhou nela (mas não em todos os momentos), qualquer visita ao site, em qualquer edição, mostra o tamanho do equívoco. Muita gente trabalhou para fazer a contracampo ter tanto material bacana.

Mas eu preferi respondê-lo com exemplos recentes e indiscutíveis: quem foi o redator que mais escreveu para a contracampo nos últimos meses, muitíssimo mais do que todos os outros? Ele sabia e disse - o Rodrigo.

E quem foi que organizou as duas maiores pautas das duas edições mais recentes (a 90 e a 91)? Ruy me disse que não sabia porque estava "de férias" (e de fato estava, desde janeiro). Eu lhe contei, então: foi o Estevão, com a pauta dupla sobre o Jodorowski.

E o Rodrigo e o Estevão, que se dedicaram a trabalhar DE GRAÇA para a revista nos últimos meses... agora estão fora da revista. Quem ficou com os espólios pode se apresentar (arrumar trabalhos, umas viagens, umas credenciais...) com um histórico cuja imagem mais recente teve uma contribuição majoritária de gente que foi expulsa de lá.

Essa para mim é a questão fundamental do caso, que me leva a dizer que a contracampo realmente acabou e o que vem aí, mesmo no mesmo endereço, vai ser outro troço. É que o negócio sempre foi feito na base da união, e isso cria uma confusão que eu já vi que está presente nos modos de ver o que rolou. Para mim o negócio é simples, mas se divide em dois aspectos: no plano profissional houve desrespeito ao grupo e isso merece discussão; e no plano pessoal já não há nada a dizer. Isso sou eu que acho. No plano profissional, eu e mais quase dez pessoas investimos nosso tempo e trabalho na contracampo e isso representou investimento na revista. Ao contrário de iniciativas fora da internet (a Paisà, por exemplo), os responsáveis pela edição da revista nunca arcaram com gastos de impressão ou qualquer coisa do gênero - então, em termos de capital, o que fazia o site era unicamente o trabalho cedido pelos redatores. O "direito material" ao site era de todos que trabalhavam na revista, não de seus editores. Tudo poderia ser conversado, negociado, mas há uma diferença entre conversa e golpe e foi essa diferença que acabou com a contracampo.

Enfim, eu acho o seguinte: a coisa virou uma sinuca de bico. Se os três "editores" querem mesmo preservar a história do que foi a revista, têm que criar vergonha na cara e fazer um novo site para eles, que pode se chamar Cinemaníacos, Cinistros, Cineuróticos, o que for - porque contracampo não é mais. É isso que eles têm que fazer.

Agora, se fizerem mesmo questão de levar na sacola o nome, o histórico e o prestígio que o site conquistou, acho que têm que ter a dignidade de abrir mão dos textos que não foram eles que fizeram (e, claro, que os autores pedirem para serem retirados do site). Não é por outra razão que estou republicando meus textos antigos - eles fizeram parte da contracampo, mas não escrevi eles de graça para dar cartaz a editor que pensa que é dono da revista. Internet não é papel: está registrado que foi publicado lá, mas não acho correto que, depois de junho de 2008, eles possam aproveitar do prestígio que a qualidade dos textos alheios dá ao site. Não acho correto os três "editores" poderem se dizer responsáveis pela pauta sobre o Jodorowski que está no ar, nem sobre o montão de críticas que o Rodrigo escreveu. No que me diz respeito, não acho correto que possam obter ganhos com a relevância que o site ganhou com trabalhos que eu fiz - teve caso de entrevista que me fez pagar até viagem e estadia em São Paulo (como na entrevista com o Tonacci, em que fiquei hospedado na casa dos irmãos Martins Furtado - que também ficaram de fora da lista dos "editores"). Imagino que outros redatores devem pensar de forma parecida. 

Já vi gente ser expulsa de casa, mas normalmente o pessoal pelo menos deixa levar as roupas, não é mesmo? Então, se querem roubar o nome do site, se quiserem ficar com a "casa", mesmo que desta maneira lamentável, o mínimo que fazem é tirar os textos dos outros de lá. O resto é apropriação indébita. E não só do meu trabalho: do meu e de todo mundo que passou por lá e não concorda com esse "direito" a que os "editores" se arrogaram de tomar a revista e o trabalho alheio para si.

Enfim, essa é minha visão; esses são os motivos que me levam a afirmar que a contracampo, na prática, acabou. Mesmo que outra coisa venha a ser publicada no mesmo endereço, o que levava a revista a ser feita por companheirismo acabou há duas semanas com um email sugestivamente intitulado "mudanças".

Só falei aqui especificamente da minha visão sobre as consequências dessa atitude dos "editores" calcada em motivações estranhas. Nem falei do contexto, das ações e climas que poderiam indicar essas motivações e precederam esse evento triste. Talvez seja necessário para mim falar de tudo isso - quem me conhece um pouco sabe como me impressiona o assunto do destino de projetos coletivos no nosso lugar e tempo. É um assunto presente no Conceição (tanto no próprio filme como no processo de fazê-lo), na pesquisa que gerou O Mundo de um Filme (e também num roteiro escrito e volta e meia inscrito em concursos, chamado Verão) e, claro, no modo de trabalhar com a contracampo - que agora parece me servir como um novo objeto de estudo prático nesse assunto.



Escrito por daniel às 06h25
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



artigo no mais sobre o livro do Serras

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0607200811.htm

Saiu hoje, domingo. A diagramação da página deu bastante destaque ao lançamento, com três fotos num tamanho bacana. A crítica foi escrita pelo Fernão Ramos e ele deixou claro que não gostou porque se incomodou com a "falsa questão" sobre o imbricamento que o filme cria entre documentário e ficção - para ele, o filme é um documentário e ponto final.
Beleza, a gente até pode invocar a "palavra do autor" e lembrar que o próprio Tonacci já definiu o filme como uma ficção em mais de uma oportunidade - mas, sinceramente, a opinião do Tonacci vale porque ele é genial, mas pra explicar que o filme é ficção e também é mais que isso (e que, sendo bem claro, dividir eternamente o cinema entre documentário e ficcão é caretice) vai ser preciso escrever um pouco mais.



Escrito por daniel às 03h57
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Líder absoluto

Levei Carol para o Maraca no sábado para ver o jogão entre Flamengo e Náutico. Como se pode ver pelo resultado, a moça é pé-quente: o Mengão ganhou de três a zero e agora está a cinco pontos de distância do segundo colocado do campeonato. Vamos torcer pra se manter assim.

Sobre o jogo, vale notar o que todo mundo já sabe: os laterais do Flamengo são muitíssimo superiores aos que a besta do Dunga vem convocando. Léo Moura é cracaço de bola e Juan está jogando bem já faz tempo.

Mas não adianta: pra entrar na seleção titular, o jogador não pode estar jogando num time brasileiro. Isso acontece por pura covardia dos "técnicos" de plantão - pra evitar pressão. Antigamente, o técnico tinha que encaixar sempre uns seis paulistas, quatro cariocas, dois mineiros e dois gaúchos entre os convocados - e dar um jeito pra botar todo mundo em campo. Agora é fácil: não convoca nenhum jogador e não sofre pressão dos times. Em compensação, dá motivos pra qualquer um ir tentar a sorte na Turquia, na Ucrânia ou na Arábia: não faz diferença mesmo; já houve até caso de jogador convocado a partir de seleção de video-tapes, afinal ele joga na Europa... E assim a seleção vai contribuindo para a decadência do nosso futebol.

Ok, esqueçamos os perebas do Dunga e falemos do Flamengo. Mais uma opinião: o Caio Júnior não pode deixar um craque como o Jônatas mofando no banco. Jônatas é um dos poucos verdadeiros armadores a jogar atualmente no Brasil - e, obviamente, é o único no Flamengo com essas características. Não é volante nem ponta-de-lança: é armador.

Os gols da partida:



Escrito por daniel às 03h18
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Quiroga => Martel

Hoje na Folha on line:

"Martel explicou que na Província de Salta, onde nasceu e cresceu [ela foi para Buenos Aires com 19 anos], não havia cinema e que, portanto, ela não teve em sua formação como cineasta uma lembrança de filmes passados em telas, mas, sim, das imagens que se formavam em sua mente quando escutava histórias do uruguaio-argentino Horacio Quiroga (1878-1937)."

Quem quiser ler alguns contos do genial Quiroga na web pode procurar no site Ciudad Seva. Vale muito a pena.

Escrito por daniel às 19h58
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



A cor e a coragem

Ficar semanalmente em pousadas fuleiras em Rio das Ostras me leva a ver de vez em quando umas coisas bem bizarras na TV. Hoje, por exemplo, pretendo ver o programa do Doc TV na TV Brasil, porque descobri que, para minha sorte, ele passa no meio da madrugada (às duas da manhã) de quinta pra sexta-feira. Realmente, tenho que agradecer, afinal de contas eu só assisto TV na madruga de quinta pra sexta, então escolheram na mosca. E é preciso reconhecer: se o resto da população brasileira tiver um cotidiano como o meu, o horário do programa é bastante acessível. Viva a TV Brasil com seus horários adequados a todos!

Pois é, mas o que eu queria contar é que ontem fiquei vendo um filme dublado no Intercine. Dublado, bicho! Tem coisas que só em RO mesmo... Mas o legal é que eu me diverti pacas com o filme! Tanto que até pesquisei na web pra saber que troço era aquele. O nome em português é Com a cor e a coragem (sic), em inglês chama-se Undercover Brother. Não estreou nos cinemas, acho, mas saiu em DVD. Não vou enganar não: o filme me fez rir pra caramba.

É aquela história que tanta gente já comentou: é impressionante a vitalidade que têm algumas das produções mais vulgares feitas pela indústria de Hollywood - e esse é um caso exemplar: uma comédia rasgada (um misto de chanchada com o estilo dos filmes do trio Abrahams e irmãos Zucker dos anos 80) cujo tema é a divisão racial nos EUA. Aqui isso só rende uns artigos chatésimos nas páginas "de opinião" dos jornais; lá, além de filmes militantes (e, claro, artigos tão ou mais chatos que os daqui), pode render uma comédia hilária.

A história, muito resumidamente, é que uma conspiração WASP tenta acabar com as chances do primeiro negro que pode vir a ser candidato a presidente dos EUA (não se pode negar o senso de timing) e, para fazer as coisas voltarem ao normal, uma organização secreta de militantes negros chama um agente muito doido para o trabalho, o tal Undercover Brother do título. Pra se ter uma idéia, tem um personagem coadjuvante que, negro militante, não aceita receber "bom dia" porque isso significa menosprezo à raça negra... Noutra hora, quando começa a ouvir alguns relatos das conspirações feitas pelos WASP (do tipo "você nunca notou que negros entram nos filmes para ficarem amigos dos heróis, ensinar receitas de camarão e depois morrer"), o agente conclui, convicto: "E O.J. Simpson nunca fez aquilo!?" - e aí os outros olham para o lado e dizem "vamos mudar de assunto?"...

Em meio a muitas piadas bobas e boas, duas realmente me fizeram gargalhar. Numa, o tal agente se disfarça como executivo de uma empresa de tabaco para obter informações e, como parte do seu disfarce, apresenta um plano para convencer negros a comprarem mais cigarros - a idéia dele consiste em mudar o formato dos cigarros, que acabam se parecendo com outro tipo de fumo... Na outra piada, os cospiradores têm uma arma secreta para deter o agente negro: uma loura gostosíssima! (que é interpretada pela Denise Richards, nossa conhecida de Wild Things)
Aí ele é acusado por outra agente negra de ter se tornado um "vendido" - ela denuncia que ele está dando uns pegas numa loura. Aí, sob o olhar enfurecido da mulher, todos os caras da organização, que estavam irritadíssimos, mudam completamente de postura e passam a tratá-lo como ídolo! O tal militante que não aceita "bom dia" chega a dizer: "cara, sempre quis saber como é que é...".

De quebra, James Brown himself faz uma participação especial.

Olha, acho que vou pegar em DVD hora dessas pra ver de novo.



Escrito por daniel às 19h39
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Paz

No texto aqui embaixo eu fiz uma analogia entre o Estranho Sem Nome, filme de 1973 do Eastwood, e o Dogville do Von Trier - e o Eduardo fez uma analogia entre a situação que eu apontei e outra acerca da minha opinião sobre Miami Vice. Isso me fez lembrar do que escreveu o Octavio Paz sobre analogias, que já andei citando por aí mais de uma vez. Aspas para dar vez às palavras do próprio, então:

"A analogia é a ciência das correspondências. Só que é uma ciência que não vive senão graças às diferenças: precisamente porque isto não é aquilo, é capaz de lançar uma ponte entre isto e aquilo. A ponte é a palavra como ou a palavra é: isto é como aquilo, isto é aquilo. A ponte não suprime a distância: é uma mediação; tampouco anula as diferenças; estabelece uma relação entre termos distintos. A analogia é a metáfora na qual a alteridade se sonha unidade e a diferença projeta-se ilusoriamente como identidade. Pela analogia, a paisagem confusa da pluralidade e da heterogeneidade ordena-se e torna-se inteligível; a analogia é a operação por intermédio da qual, graças ao jogo das semelhanças, aceitamos as diferenças. A analogia não suprime as diferenças: redime-as, torna sua existência tolerável. Cada poeta e cada leitor são uma consciência solitária: a analogia é o espelho em que se refletem. Assim, pois, a analogia implica não a unidade do mundo, mas sua divisão, seu perpétuo dividir-se. A analogia diz que cada coisa é a metáfora de outra coisa, porém no plano da identidade não há metáforas: as diferenças se anulam na unidade e a alteridade desaparece. A palavra como evapora-se; o ser é idêntico a si mesmo. A poética da analogia só poderia nascer em uma sociedade fundamentada - e corroída - pela crítica. Ao mundo moderno do tempo linear e suas infinitas divisões, ao tempo da mudança e da história, a analogia opõe, não a unidade imposível, mas a mediação de uma metáfora. A analogia é o recurso da poesia para enfrentar a alteridade."

bonito, né?

Isso foi escrito pelo Octavio Paz no livro Os Filhos do Barro, editado pela Nova fronteira e atualmente fora de catálogo.

Com relação a Dogville e Miami Vice, republiquei meus textos em um novo blog. Eu demorei a ter um blog e agora já tenho vários. Estou republicando meus textos antigos em http://daniel-caetano.blogspot.com/ .



Escrito por daniel às 05h59
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Fofura

Tava revendo agora com Carol o Estranho sem nome, do Eastwood. Mó filmão, estilosaço e coisa e tal. Tem até um anão que parece ser homenagem ao Buñuel ou ao Jodorowski (mas é do mesmo ano de The Holy Mountain...).
E, lá pelo final do filme, estava pensando em como é fofinho o pessoal que ama de paixão Eastwood por filmes como esse e faz cara feia quando o pessoal lembra do já clássico Dogville, do Von Trier.

Certo, esse Estranho sem nome é estilosão - bem menos sóbrio do que os filmes mais recentes do Eastwood. Mas as analogias entre os filmes são bastante evidentes - o que não deixa de ser curioso, já que o filme do Eastwood é uma refilmagem não-assumida de um filme italiano, Django, o Bastardo (PS: e não Meu Nome é Ninguém, como o Rodrigo bem me avisou num comentário acima). As relações entre personagens estão em chave inversa (o personagem sem nome do Eastwood domina a cidade, a Grace da Nicole Kidman se submete a ela), mas a forma agressiva com que se mostram para nós é bastante parecida. Claro, pelamordedeus, há diferenças óbvias de encenação - mas os motivos dos filmes são bastante aparentados, embora isso possa passar despercebido ao pessoal da ala dos perfumes.



Escrito por daniel às 05h42
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Flores do mal

Fui ver hoje o Fim dos tempos com Carolina, achei o filme bem legal.
Nas cadeiras de trás, a clássica situação do rapaz que pergunta à namorada "mas como você gostou? o que foi que você entendeu? - e a moça, muito simplesmente: "Mas não é para entender...". Pô, também não precisa exagerar.
Na saída, conversando com Carol, não resisti à piada de imitar os zumbis suicidas. Ok, não sou original, azar o meu.

O que eu acho legal nos filmes mais recentes do Shyamalan é o despudor com que eles se assumem, ao mesmo tempo, fabuladores e poéticos. São sempre estórias contadas com bastante paixão (talvez fé fosse um bom termo - fé na narração) e são sempre estórias cheias de sentidos a se tomar e pensar. O curioso é que os filmes conseguem sim apresentar os aspectos mais caretas da narratividade - sempre existe uma moral da história, seja explícita ou a ser decifrada - e apresentar os pontos-de-vista mais clichês - "só o amor salva". E, ainda assim, seus filmes recentes não se esvaziam na obviedade interpretativa - ao contrário, seus signos abrem-se para as interpretações mais variadas.

Com essa associação - em que reconhecemos a encenação de velhos lemas morais ao mesmo tempo em que percebemos as diversas ambiguidades de enredos e personagens -, esses filmes trouxeram uma sensação de restauro do fascínio de descobrir a arte de conhecer estórias, uma sensação que remete a uma percepção infantil mesmo, no sentido de ser desarmada, sem História. Certo, o filme anterior do cara, "A dama da água", lidava com isso de forma pouco positiva, até como se fosse fórmula. Mas, embora não tenha me impressionado tanto quando "A Vila" (que ainda acho que é o melhor filme dele), esse "Fim dos tempos" é um filme bastante interessante, sobretudo com sua capacidade de gerar incômodos como o do rapaz que se sentou com a namorada na cadeira atrás da minha. As pessoas se sentem provocadas a "entender" o filme, embora ele próprio crie armadilhas para esse entendimento, no sentido tradicional.

E, nesse sentido, esses filmes do Shyamalan talvez hoje sejam os mais notáveis casos recentes de cinema de poesia feito dentro do coração da indústria.




Escrito por daniel às 05h46
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



Flamengo Paixão (brasil, 1980)

Devido à baixaria que rolou na Contracampo, decidi postar aqui meus textos que foram publicados pela primeira vez por lá.
Resolvi começar por esse aqui para comemorar a alegria de ver o time liderando o campeonato brasileiro. Rumo ao Hexa!
E dessa vez o artigo pode ser lido do jeito imaginado, ao som da gravação que o Jorge Ben fez do hino do Flamengo, citada no primeiro parágrafo:


http://www.4shared.com/file/53105977/a848df0/Jorge_Ben_-_hino_do_flamengo.html




A trilha sonora mais indicada para a leitura deste artigo é a gravação do Hino do Flamengo, de Lamartine Babo, feita por Jorge Ben na década de setenta. Infelizmente ainda não relançada oficialmente em CD, pode ser encontrada apenas no velho disco em que foi lançada – ou então em versões piratas em CD ou na internet. É uma gravação muito bonita, antológica, feita por Ben na sua melhor fase, com aquele violão numa levada que é suíngue puro.

***

David Neves era vascaíno. Flamengo Paixão foi um projeto pensado e produzido por Joaquim Vaz de Carvalho e Carlos Moletta, para ser feito com rapidez antes da produção de Luz del Fuego. Documentários com futebol, mal ou bem, têm um razoável público em potencial, ainda mais que o Flamengo estava prestes a ser, talvez, tri-campeão carioca, pela terceira vez em sua história – e, além disso, tematizar o clube mais popular do país é, mais do que óbvio, vital. Eles são Flamengo, oras! E como não ser?

Aí aconteceu o seguinte: quando o filme estava sendo feito, o time começou a emplacar na Taça de Ouro – era como se chamava o campeonato brasileiro na época. O filme estava sendo feito com produção independente, pouco dinheiro, mas os produtores resolveram arriscar – foram à Embrafilme e ganharam uma promessa de verba que lhes garantiria continuar as filmagens (promessa que acabou não sendo cumprida), tomaram empréstimos, conseguiram apoios e foram filmando. Torcendo para sair logo uma grana para desafogar o pescoço e torcendo sobretudo para o time ser campeão – isso seria a melhor garantia de uma boa bilheteria. E, de quebra, eles seriam campeões.

***

O título parece ter se originado na mais simples sessão de pingue-pongue. Aquela situação em que um analista ou entrevistador cita palavras para que o entrevistado associe a outros conceitos. Flamengo? Paixão.

De novo: Paixão? Flamengo.

Flamengo Paixão. Paixão. O que é o Flamengo? Paixão. Exemplifique Paixão: Flamengo. Conceitos gêmeos.

***

Documentários tratando de assuntos de futebol, que existem no cinema brasileiro desde os cinejornais que registravam partidas diversas, se tornaram algo comum e natural na época pós-cinema novo, desde que Joaquim Pedro fizera Garrincha, Alegria do Povo (onde, como se disse, não era Garrincha que trazia alegria ao povo, era na verdade a alegria trazida pelo povo que lhe permitia jogar como jogava). Nada mais natural então que David Neves fizesse um filme que ligasse observações do cotidiano dos torcedores com mostras do fascínio que provocava aquela paixão imensa, incompreensível.

O filme não se furta, portanto, a mostrar desde cenas pitorescas como jovens torcedores vestindo a camisa do time, outros entrando no Maracanã, alguns declamando amor eterno (como faz Jards Macalé antes dos letreiros), ou mesmo um casal que sai de baixo do bandeirão que os escondia, no gramado de um parque – nem se nega a mostrar cenas e mais cenas de jogos e gols, às vezes em registros inéditos, às vezes em imagens cedidas por canais de televisão. O filme faz questão de homenagear os grandes ídolos do passado, já esquecidos por novas gerações, mas não se nega a mostrar até com certo suspense as imagens do jogo decisivo. Ao final, todas essas idéias e estes sentimentos parecem se juntar nas imagens finais de torcedores que pagam promessas se arrastando em torno do gramado do Maracanã. Pagando promessas por ter visto o time ser campeão brasileiro.

O dinheiro da Embrafilme não saiu, mas mesmo assim foi possível filmar tudo que tinha que filmar. E o Mengo foi campeão.
E o filme termina por documentar uma geração que acabaria sendo tri-campeã brasileira e campeã mundial, em Tóquio.

***

O filme é como o time da época: joga por música. Tem Pixinguinha tocando o "Urubu Malandro", tem Wilson Simonal (numa época em que isso não era considerado fashion), tem um belo tema original do produtor Moletta, tem Moreira da Silva, tem João Nogueira, tem Jacob tocando o choro "Flamengo", tem, é claro, o Hino do Flamengo, de Lamartine Babo. Não é a gravação de Jorge Ben, é pena. É a gravação oficial, clássica, cantada por coro.

Confesso que tenho problemas com o Hino do Flamengo. Não gosto da letra, não gosto nem um pouco. Que história é essa de citar adversário no hino ("Nos Fla-Flus é um ai, Jesus...") ? O Flamengo é grande o bastante para não se preocupar com adversários em seu hino. Mais que isso, como se pode querer imaginar o peso do Flamengo ("Ele é fibra, muita libra/ Já pesou?")? Que mente delirante pode criar tal letra? E como assim "Eu teria um desgosto profundo/ Se faltasse o Flamengo no mundo"? Será que o sujeito que escreveu esse hino realmente podia conceber o mundo sem o Flamengo? Eu não consigo, nem creio que alguém que o cante consiga. "Flamengo até morrer"? Como assim, meu amigo, que delírio é esse? A morte não livra ninguém de seus deveres clubísticos! Não fosse assim, por que colocar a bandeira do clube em cima dos caixões, em funerais? Ora, meu chapa, o sujeito morre e continua Flamengo...

Enfim, não quero sair insultando a memória de Lamartine. No estádio, no meio de todos, acho mais do que certo que se cante o hino a plenos pulmões. Mas não vou esconder os fatos – Lamartine, que não gostava de futebol e, na dúvida, torcia para o América (alguém precisa de prova maior de que ele realmente não gostava de futebol?), fez hinos musicalmente fantásticos – embora às vezes adequados para canções de exaltação, como no caso do hino intimista do Fluminense, às vezes tão aparentados com as marchinhas de carnaval que, em caso de serem cantados em momentos em que o time precisa de apoio (como quando precisa reagir depois de levar um gol), criarão uma situação de ridículo incomum – como é o caso do Hino do América, com seus lá-laiá-lá-laiá.

Musicalmente, o Hino do Flamengo é fabuloso, talvez seja o melhor que eu conheça, com aquela introdução magnífica, com aquele tema absolutamente vibrante, vitorioso. Mas a letra é de um sujeito acuado por torcedores (esse tipo de coisa acontece), não a de um apaixonado pelo time.

Mas a gravação do Jorge supera tudo. Pelo suíngue, pela emoção. Pela sinceridade presente quando o cantor diz "Sempre Flamengo eu hei de ser/ Pois é o meu maior prazer / Vê-lo brilhar / Seja na terra / Seja no mar...", esticando e suingando em cada vogal pronunciada.

***

Rever o filme para escrever sobre ele é um perigo! Porque, enquanto eu penso num assunto a se comentar, como aconteceu com a letra do Hino, de repente o filme, ao fazer o panorama de todos os grandes jogadores que vestiram o manto sagrado, começa a mostrar os (poucos) grandes craques que nunca o fizeram. Aparece então o depoimento de Nílton Santos, que conta do amistoso que fez jogando com a Camisa, e em seguida vemos fotos de Pelé o fazendo, na ocasião famosa. Mas – aí sim nossa atenção não tem como não se prender – logo o filme trata de relembrar os grandes nomes da história do time. Desde Moderato, passando pelo mitológico Friedenreich, que jogou por um breve período no clube, pelo maior zagueiro da história do país, Domingos da Guia, por gente como Pirilo, Perácio, Dida, Vevé, pelo herói do primeiro tri Valido (cuja história é das mais incríveis) e pelos dois maiores jogadores do Brasil até a era Pelé, Leônidas da Silva (até hoje o brasileiro que fez mais gols em uma só Copa do Mundo) e Zizinho. Quem viu Leônidas ou Zizinho jogarem sempre afirmou que não ficariam em nada a dever ao Rei – pode ser, a memória do futebol vive de mitos, e o próprio Pelé sempre afirmou que o melhor jogador que já viu foi Zizinho, já em fim de carreira no São Paulo.

É então que o filme, enumerando os heróis do clube, chega ao ponto em que pretendia chegar : ao Rei Rubro-Negro, que, naquela época, estava ainda se firmando nacionalmente. Ao apresentar seu personagem, o filme não escapa da observação sociológica simplista. Nas palavras do narrador: “E amanhã, como uma deusa mitológica, esta ilusão se renova em outros nomes, para satisfazer a fantasia dos seus súditos”. Vemos então as imagens do Galinho de Quintino, e logo depois alguns dos seus muitos gols. Como não parar para ver e rever?

***

Feito por apaixonados pela história do Flamengo, o filme faz questão ainda de lembrar dos ídolos que morreram ainda jovens, como o zagueiro Reyes, como o presidente Gilberto Cardoso, como o polêmico Almir Pernambuquinho. Vemos fotos do célebre gol de Almir na final da Taça Guanabara de 1966, em que, num dia chuvoso, num ataque do Flamengo, o goleiro deixou passar uma bola cruzada e Almir, que tinha mergulhado para cabecear, viu ela ir parando vagarosamente na lama. Não teve dúvidas e foi se arrastando, com a cara na lama, até empurrar a pelota para dentro das redes.

***

Depois de mostrar as imagens dos jogos do tri-campeonato (o terceiro) e a festa se espalhando pela cidade, o filme não esconde, ao contrário, exibe ao espectador uma cartela para explicar que naquele ponto acabaria o filme, mas aí entrou a realidade no jogo e "veio a Taça de Ouro"...

Aí, imagens de televisão de gols e mais gols antológicos. Dribles geniais de Júnior e Adílio, lançamentos incríveis de Carpeggiani, chutes certeiros de Nunes. E Zico, fazendo tudo isso e muito mais.

E alguns gols e jogadas incríveis de jogadores que caíram no esquecimento. O gol mais bonito do filme é de Anselmo, o mesmo que, meses mais tarde, entraria quase no fim do jogo decisivo da Libertadores para dar uma cacetada em Mario Soto, jogador do Cobreloa, para descontar as pancadas de três jogos seguidos. O gol do Anselmo é depois de um lançamento que ele recebe na corrida. No que recebe, já dá um drible da vaca no goleiro. Depois, chuta milionésimos antes da chegada do zagueiro, para encobrir o outro que chegava correndo ao gol. Bonito mesmo.

***

Na final, o filme já não tinha dinheiro nenhum, só dívidas. Vice-campeão não vai ao cinema rever o time: era tudo ou nada. No primeiro tempo, Nunes, “o tanque da Gávea”, mandou um petardo que o hoje deputado João Leite nem teria como segurar: Mengo um a zero. Logo depois, o empate – o Atlético Mineiro seria campeão se arrancasse o empate no Maracanã. No final do primeiro tempo, depois de alguma confusão na entrada da área, Zico teve que se atirar na grama para dar força ao chute na bola que, no repique, estava em péssima posição para o arremate – acertou no ângulo! Com dois a um, o campeonato seria do Mengo. Mas aí, no início do segundo tempo, Reinaldo, que estava contundido e jogou mancando, fez o segundo do Atlético. Para deixar de ser besta, foi expulso do jogo – saiu fazendo o cumprimento dos Panteras Negras, com o punho para o alto. (não foi o primeiro a fazer um gol mancando no Maracanã – Dida já fizera um, décadas antes). De todo jeito, dois a dois era do Atlético.

E assim se passou o segundo tempo, debaixo de muita pressão do Mengo e de muita angústia para a torcida. Se todos os rubro-negros estavam aflitos, se até David Neves, que era vascaíno, torcia por um gol rubro-negro, imagine-se como não estavam Joaquim Vaz e Carlos Moletta...

Aos trinta e oito, trinta e nove do segundo tempo, Nunes recebeu uma bola na esquerda da área e partiu, marcado pelo zagueiro. Parou, encarou o marcador, fez que ia partir para a ponta, que não ia partir para a ponta, partiu. O zagueiro ficou. Meio sem ângulo, o jogador que seria conhecido como o artilheiro das decisões mandou o pontapé. Pobre João Leite. Cinco minutos depois, "fim de papo", como diz o letreiro do Maraca, Mengo campeão brasileiro de 1980. Alegria imensurável de muitos. De quantas pessoas o Flamengo não influencia decisivamente, todos os dias, para o bem e para o mal, o humor, a vida? Nação, força da natureza, seja o que for, merece respeito. É grande.

***

Na comemoração, João Nogueira canta "Flamengo joga amanhã/ eu vou para lá / Vai haver mais um baile / No Maracanã // O mais querido / tem Zico, Adílio e Adão/ Eu já rezei pra São Jorge/ Pro Mengo ser campeão...". A canção é de Wilson Batista, se chama Samba Rubro-Negro, e originalmente citava os jogadores Rubens, Dequinha e Pavão.

***

Certo, a situação atual. Parece piada de meus editores vascaínos (como David Neves) propor esta pauta agora, quando falar do time significa ter que falar do momento degradante em que anos de administrações incompetentes e mal-intencionadas parecem levar o clube para o abismo.

Sim, a pequenez de certos personagens, em tudo contrastante com a história rubro-negra, parece esconder, estragar, apagar, denegrir tudo que o clube representa. Mas a vida é rio que corre, e neste fluxo tudo pode mudar. O Mengo já teve um presidente mau-caráter que vendeu Zizinho em troca de favores no credenciamento de pontos de venda da loteria federal, assim como todos os clubes brasileiros ainda estão recheados de picaretas e safados, que convivem com uns poucos idealistas e apaixonados – acontecendo mesmo o triste caso de idealistas que acabam se transformando em picaretas e arrivistas.

Mas há algo maior, e nós sabemos disso. Nós somos isso. É a torcida que faz o Flamengo grande, como se pôde ver num dos cada vez mais raros momentos de glória recentes, o do quarto tri-campeonato estadual, vencido com um gol de falta antológico de Petkovic que coroou uma vitória magnífica de três a um sobre o rival Vasco. Neste dia, como nos anos anteriores, percebeu-se que, mesmo por causa de um campeonato desprestigiado como o Carioca, o Rio se torna mais alegre quando veste rubro-negro. Isto não tardará a acontecer novamente. O Flamengo pode parecer estar sendo apequenado – mas, não se enganem, ele é eterno.

***

Para escrever este texto, foi fundamental não apenas a revisão do documentário como também a releitura de um livro-irmão. Se chama Flamengo, Uma Emoção Inesquecível e foi editado pela Relume-Dumará em 1995, com criação e organização de Joaquim Vaz de Carvalho. Ter o mesmo nome que produziu o filme, com o mesmo propósito de documentar – através de depoimentos de torcedores, de ‘sofredores’ (os torcedores de outros times) e de heróis (os jogadores) – as emoções que traz o Flamengo, já seria motivo para perceber a proximidade dos dois projetos. Mas é no depoimento escrito pelo outro produtor, Carlos Moletta, que a ligação se torna fundamental, pois seu texto, também intitulado Flamengo Paixão, relata justamente a história da complicada feitura do filme.

***

Vale lembrar a beleza do último plano do filme, em que o câmera do filme invade o campo para filmar a comemoração de Nunes e dos demais jogadores depois do gol decisivo.

***

É preciso dedicar este texto e os leitores sabem a quem. O filme é dedicado a todos que aparecem na tela, principalmente O Torcedor. Entretanto, este texto foi escrito por um sujeito que sempre foi torcedor – e a repetição do gesto, então, seria imprópria. Mas estas mal-traçadas devem ser dedicadas aos heróis do garoto que viu o auge dessa geração documentada no filme. Foi tradição familiar, mas também foram eles que fizeram do menino Flamengo. Então, mesmo que nenhuma palavra dê conta de tal gratidão, é preciso lembrar de nomes como os de Leandro, Raul, Júnior, Cláudio Adão, Adílio, Nunes, Mozer, Tita, Andrade, Júlio César. E o Zico.

São heróis. Abençoados sejam.

(texto escrito em junho de 2002)



Escrito por daniel às 05h03
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]