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Romance

Fui ver hoje à tarde com Carol o novo filme do Arraes no São Luiz. Antes de falar do filme, a primeira coisa a dizer é que a iniciativa tomada pela Ancine para diminuir o preço dos ingressos pra filmes brasileiros durante esse mês pode dar certo, mesmo com todas as limitações: a sala tinha algo em torno de 80 pessoas numa sessão de terça-feira à tarde. Se todas as sessões tiverem esse nível de ocupação, o sucesso da iniciativa é admirável.
Claro que isso não resolve todos os problemas de difusão de filmes. Vi que o Manoel Rangel foi questionado na entrevista pro Globo sobre o problema de isso só atingir os locais que já têm sala de cinema - a mesma questão que eu tinha lembrado há um tempo, quando comentei a iniciativa. Acho que ficou evidente que, diante dessa questão, a Ancine ainda não sabe o que dizer: o Rangel teve que responder que, se essa iniciativa der certo, é possível que as locadoras e redes de TV se interessem em exibir mais filmes brasileiros - o que, convenhamos, é uma forçada de barra tremenda. De todo jeito, cada coisa é uma coisa - de fato a Ancine se esquiva de reconhecer que, na realidade, o atual governo não tem qualquer política para difusão de filmes pela TV e nem pretende ter pra não arrumar confusão (em DVD tem, pelo menos, a Programadora Brasil). Mas, com relação a lugares onde já há salas comerciais de cinema, o que vi hoje me faz acreditar que esse programa de apoio da Ancine, que funciona a partir de uma redução do preço da entrada, pode dar certo sim.

Sobre o filme do Guel Arraes, devo dizer que gostei bastante. Bem, os amigos e os leitores que já me conhecem há mais tempo sabem que eu gosto bastante de Lisbela e o Prisioneiro (fez parte da minha lista de prediletos do ano em que foi lançado) e, além disso, se fosse pra citar os programas de TV de que eu realmente fui fã, TV Pirata e Armação Ilimitada estariam no topo. E, mesmo nos filmes dele de que não gosto, me parece bem evidente que há uma vitalidade, um clima pilhado que é bem raro e bem interessante (ainda que, quando não dá certo, acabe se tornando cansativo).

Certo, é verdade que esse Romance mostra uma necessidade meio histérica de de mostrar sabichão, de mostrar que tem lastro com uma profusão de citações bastante desnecessárias (aquelas do Nietzsche no início do filme são bastante forçadas e mais atrapalham do que ajudam). Por outro lado, o filme retrata muito bem algumas questões das pessoas que trabalham com representação - entendo o que o Inácio disse no texto da Ilustrada, mas a divisão que relaciona teatro a arte e Tv a diversão vazia não é algo que se restringe ao filme: isso faz parte do universo dos personagens. Se alguém duvida, sugiro que vá perguntar a atores e diretores que trabalham em teatro e TV. Talvez não sejam todos, mas muitos irão responder que a TV suga, que "só se preocupa com audiência" e que teatro é "libertação", "arte" e todos esses clichês. Mas é claro que o modo obsessivo com que a questão é apresentada no filme indica que ela é especialmente cara aos realizadores (não só ao Arraes, mas também ao Jorge Furtado, parceiro dele no roteiro). Há algo de bobo em dar uma forçadinha de barra para terminar mostrando como tudo pode se dar ao contrário, com o teatro servindo para diversão e a TV apresentando um programa "artístico"? Sim, há, mas esse lado "bobo" combina perfeitamente com as questões sobre romantismo que o filme apresenta.

De todo modo, não vejo muito motivo para divulgar esse filme como um trabalho mais "sério" do Arraes. Porque, afinal de contas, embora ele se esforce para dar um lastro "sério" (desnecessário) e seu enredo se centre na intriga amorosa, o que o filme tem de melhor não é o retrato dos sentimentos dos personagens, e sim o humor usado na crônica das produções teatrais e televisivas - e para isso contribuem muito as ótimas atuações da Andréa Beltrão e do José Wilker, que estão engraçados pacas nas paródias da produtora e do chefão da TV.



Escrito por daniel às 22h08
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Vicky, Cristina, Barcelona

Eu e Carol fomos ver ontem o novo do Allen com a boa companhia do amigo Bruno, de quem fui vizinho por anos e ultimamente tenho visto pouco. Bruninho está desenvolvendo um projeto bacana que ainda vai dar o que falar, a partir de um apoio de Furnas para jovens artistas plásticos. Enfim, fomos ao Arteplex na sessão da madrugada, que estava razoavelmente cheia, provando que Allen ainda segue mantendo seu velho prestígio na Zona Sul carioca, mesmo com os altos e baixos dos últimos anos. Achei o filme bastante bom, dos melhores que ele fez nos últimos, sei lá, dez anos. Devo dizer inclusive que foi uma boa surpresa, porque tinha achado bem chatinhos os filmes anteriores dele; de fato, puxando pela memória e consultando o imdb, de 1999 pra cá os únicos de que gostei tanto foram os muito bons Sweet & Lowdown e Hollywood Ending (sobre o qual já escrevi um textinho).

Gostei muito do que o Inácio escreveu no final da sua crítica sobre o filme e concordo que é inevitável pensar que, tendo sido feito por um senhor de mais de 70 anos, o filme mostra um interesse sincero pelos sentimentos e modos de amar típicos dos nossos anos. É um filme bastante datado, e esse é o melhor elogio que se poderia fazer: sua trama soaria bizarra trinta anos atrás e hoje não há nada de profundamente trangressor em mostrar relações que só funcionam como triângulos, como ocorre com os artistas espanhóis que se envolvem com Cristina; ao contrário, isso tem uma força, uma impressão de realidade que parece beneficiar o filme.

Há, no entanto, algo de bem curioso no modo como o filme retrata os sentimentos, revelando um ponto de vista um tanto, digamos, careta. Afinal, segundo o filme mostra, parece que apenas Vicky é capaz de sentir emoções intensas e profundas, paradoxalmente por ser justamente quem tenta freá-las. O casal Juan Antonio e Maria Elena tem emoções sempre excessivas, à flor da pele, mas parecem lidar com essas emoções como teatro - não há dor no que sentem, ao contrário do que acontece com Vicky. E Cristina, bem, parece evidente que, segundo o filme, as pessoas que se abrem demais em busca de emoções mais fortes são justamente aquelas que se deixam entediar mais rapidamente. A própria narração se encarrega de deixar explícito que Vicky é a caretinha e Cristina é a moça em busca de experiências; outra maneira de ver a divisão das duas seria notar que Vicky é uma típica heroína romântica, que sofre por tentar represar seus sentimentos, e Cristina é a típica heroína da falência do romantismo, que se vê tomada por tédio por tentar viver seus sentimentos sempre de forma extrema.

Enfim, o filme deu uma certa alegria por ver o Allen mostrar um vigor cada vez mais raro fazendo algo que ele já tinha feito muito bem - retratar com seu humor característico uma ciranda amorosa. O filme me lembrou muito o Hannah e suas irmãs, que é o melhor exemplo desse gênero alleniano que eu mencionei, mas faz lembrar de uma maneira que não soa gasta ou repetitiva. Certo, talvez o melhor momento da carreira do Allen já tenha passado (pra mim, certamente seria aquela sequência de filmaços dos anos 80, feitos a partir de Zelig até Radio Days, incluindo ainda os posteriores Crimes e Pecados e Maridos e Esposas); mas, como já disse o Inácio, é um cineasta que, em qualquer momento, sempre merece atenção.

Escrito por daniel às 18h22
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The spirit of Charles Lindbergh

O filme mais bonito de todos:



Há um texto bem legal do João Bénard da Costa em que o filme é mencionado: pode ser lido aqui.

O filme já seria bonito pacas pelo que mostra, pela sua simplicidade: um plano fixo de cerca de três minutos em que Welles se dirige à câmera e em seguida recita um trecho do diário de Lindbergh. Mas se torna um filme realmente impressionante pelo que nós sabemos que é, mesmo que não precise mostrar: é o último plano de Orson Welles e ele parece estar ciente disso (mesmo que algo tenha sido filmado depois). É um artista que, com todo o seu talento, estava chegando ao fim da viagem - e ele nos lê o texto em que Lindbergh fala sobre o seu final de viagem; sobre ter a sensação de ter feito o seu melhor, de ter conseguido o que queria. E a gente que conhece todos os perrengues da vida do Welles sabe que a analogia é irônica e cruel. Parece que ele também sabia disso.

O Bénard da Costa compara esse plano ao momento mais bonito de todos os filmes de Welles (talvez mesmo o momento mais bonito de todos os filmes, simplesmente): o instante em que Falstaff é rechaçado pelo recém-coroado Henrique V. É curioso, porque ambos sintetizam o movimento mais frequente e impressionante dos filmes do Welles: a queda dos gigantes farsescos. Mas aí entra em cena a distância entre arte e vida: na vida, gigantes farsescos podem desabar e desaparecer, mas na produção artística qualquer farsa gigantesca é sinal de inequívoco talento. Na arte o gigante só cai para cima, só se torna maior. A crença nesse paradoxo é o tema do F For Fake, talvez o melhor filme do cara. E, neste sentido, The spirit of Charles Lindbergh é a chave de ouro para F for Fake - com ele vem a sensação de que a longa viagem pode ter sido difícil e agora chegava ao fim, mas o percurso tinha dado bons frutos: as farsas valeram a pena, a grandeza não desaparece.

O googlevideo maltrata um bocado a imagem,  mas a versão que circula pela web está bem melhor. Pra quem quiser conferir, ela pode ser baixada aqui.

Escrito por daniel às 23h28
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noite do comodoro na curta cinema

Perdi algumas sessões recentes que queria ver por conta dos trabalhos e de uma gripe que abateu a Carol por dois dias, mas na noite de sexta, assim que cheguei de Rio das Ostras, fomos ver a sessão Olhos Livres, na programação da Curta cinema, com curadoria do nosso querido Don Carlone Reichenbach. Carlão selecionou dois curtas antigos de amigos (O suspense segundo Hitchcock, do João Callegaro, e Aula de Sanfona, do Inácio Araújo), alguns curtas recentes dele mesmo, "na estética do youtube, editados no windows movie maker", segundo disse, e finalmente dois curtas recentes: De Resto e Nas Duas Almas.

Não me impressionei com o filme-colagem sobre o Hitchcock. Carlão tem razão em dizer que o filme tem muito a ver com o Histórias em Quadrinhos no Brasil, que o Sganzerla fez com o Álvaro de Moya, mas a verdade é que nenhum dos dois me seduz - ok, é interessante ver que já na época os caras estavam defendendo Hitchcock e quadrinhos, mas os filmes são "educativos" no que o termo tem de pior: dão muita informação e nada além. O curta do Inácio eu já tinha visto e já sabia que é muito legal, assim como alguns dos curtas "corsários" do Carlão (que ele mesmo já botou no youtube). Mas a noite valeu mesmo pelos dois curtas recentes, que são muito bons. De Resto é um filme bem bacana sobre uma piração; o final com a protagonista tendo que aceitar a visão do corpo com uma falta me fez lembrar um pouco do Crime Delicado, até porque no curta do Daniel Chaia essa percepção também se dá pela arte: no filme dirigido pelo Beto Brant isso se dava pela pintura, aqui é pela música. Sobre o Nas duas almas eu já tinha lido os comentários do Carlão e do Inácio e realmente o filme é bem legal. Assim como no De Resto, dá pra fazer um exercício cinéfilo com o flme do Vébis Jr. e ficar procurando referências mil: no caso do filme do Chaia, daria pra apontar relações com filmes recentes do Carlão e com o curta O Lençol Branco, além do filme do Brant; em Nas Duas Almas, o próprio diretor já falou sobre as influências dos filmes do Cassavetes e há uma homenagem explícita ao Desprezo do Godard. Mas os dois filmes são muito mais do que conjuntos de influências: eles têm força pra se sustentar sozinhos.

O filme do Vébis padece de alguns problemas técnicos bastante evidentes, que seriam a única explicação para a estupidez dos vários festivais que não se interessaram em exibi-lo. É uma pena, mostra que as turmas que têm cuidado das seleções não prestam muita atenção nos filmes em si (pra variar), porque realmente Nas Duas Almas tem uma fotografia bastante precária por conta da captação de imagem e um som também problemático, mas basta prestar atenção pra ver que o filme é legal pra cacete. Os atores são ótimos, a montagem tem movimento, as situações são boas e, sobretudo, Nas Duas Almas apresenta personagens de verdade mesmo: com aquelas figuras totalmente rockabillies, ele transparece um clima gostoso de cotidiano, de carinho por todas aquelas coisas que mostra. Por aí já dá pra entender por que o Inácio o comparou com o Sol Alaranjado, mas o filme do Vébis tem uma certa nonchalance, um jeito relax de ser, tem um humor sem melancolia, meio gozador mesmo: aqueles personagens são estranhos, mas são gente como a gente, oras. Fiquei achando que esse estilo poderia ter uma recepção mais ampla se tantas pessoas não tivessem essa travação tecnicista. Mas é complicado, o pessoal é meio roda-presa mesmo.

Pra fechar, a nota social: depois da sessão veio a parte mais divertida da noite, quando fomos para o Lamas encher a cara de chopes e rir bastante com muita conversa boa; na mesa, eu e Carol partilhamos da companhia de mestre Carlão, que estava feliz com a boa receptividade da sessão em um Odeon bastante cheio, e também de nossos queridos André Sampaio, Dick Miranda, Phillip Hartmann, Fernando Veríssimo, sua Marina e o vindouro Guido, que vai nascer nos próximos dois meses. Mesa com Carlão e Ricardo é garantia de escutar pela primeira vez os nomes de muitos realizadores geniais que nós nunca ouvimos falar, além de muitas histórias do arco da velha, entremeadas por uma boa lingüicinha calabresa (a do Lamas é ótima).
Abençoada mesa do Lamas: os filmes valem muito, mas a gente vale mais.

Escrito por daniel às 06h00
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Cine Magik



"Do you believe in magic? Well, you do believe your eyes, don't you?"

E pensar que TV poderia ser isso...

"Às vezes é ilusão - às vezes a ilusão, quando temos sorte, em muito poucas ocasiões, é mágica"

Bem, tentei fazer upload no youtube e no google video, mas ainda não descobri como é que a gente pode botar filmes de vinte minutos nesses sites sem ter que cortar eles no meio. Esse megavideo tem a chatice de abrir uma página com aquelas propagandas picaretas, mas pelo menos guarda o filme inteiro e com uma qualidade de imagem melhor do que os dois citados (mesmo que bem pior do que o arquivo original). Se alguém souber de alternativa melhor, sugestões são bem-vindas.



Escrito por daniel às 15h54
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a Globo e os curtas

Zé José publicou uma nota imperdível relatando como foi o debate da Curta Cinema que contou com a participação do chefe da Globofilmes, Cadu Rodrigues. Ele (o Zé) zomba do possível otimismo com a relação entre a empresa e os curta-metragens, e realmente fica difícil achar que essa relação pode vir a existir, tendo em vista a tradição das coisas. Mas confesso que eu não entendo por que a Globo (ou qualquer outra rede de TV) nucna tentou fazer um horariozinho para curtas nem mesmo nas madrugadas. Sério, curta-metragem é barato, é ótimo pra assistir enquanto o sono não vem (é curto, acaba rápido) e, sinceramente, a produção pode ter muita coisa meia-boca, mas tem muitos filmes bem mais legais que alguns troços que a Globo exibe e diz que é bom cinema (tanto gringos quanto brasileiros). Numa emissora com boa transmissão e horário fixo, um negócio desses tinha chance de virar programa cult.

Mas não adianta, a mentalidade da empresa é tacanha: não se deve formar profissionais para a concorrência. É assim em todos os meios - é só perguntar ao Silvio Santos: se algum profissional faz sucesso na empresa dele, a Globo contrata o cara, nem que seja pra não fazer nada. Faz isso na TV, faz isso no jornal e por aí vai. E nem adianta reclamar muito, porque as outras emissoras são piores.

TV Brasil? Pois é, mó sucesso, exibe filmes pra chuchu...

Escrito por daniel às 00h58
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Brasil-sil-sil!!!

Nada pra fazer na noite de Rio das Ostras, agora que tive que vir pra participar de um Fórum organizado pela gente aqui da Produção Cultural... Aí não teve jeito, acabei assistindo à pelada do Botafogo contra Estudiantes na TV. Ok, é curioso ver que o Verón numa fase meia-boca é bem mais esperto que os demais jogadores em plena forma. E o jogo teve um momento engraçado quando o zagueiro André Luís, ao tomar o segundo cartão amarelo, partiu pra cima do juiz e arrancou o cartão da mão dele. O Renato Marsiglia, "comentarista de arbitragem" da Grobo, ficou indignado, e pudera. Ele disse que nunca tinha visto coisa igual, mas eu já vi uma bem mais divertida, e ao vivo no Maracanã: foi quando um goleiro de um timeco que estava apanhando do Mengo resolveu atrasar um tiro de meta, tomou cartão amarelo, ficou irado e partiu pra cima do juiz - mas, ao contrário do zagueiro bobão do Botafogo, esse goleiro mostrou senso histórico e acertou vários socos na cara do juiz, que ficou apanhando em estado de choque. Olha, foi bem engraçado. Juro que o juiz não saiu machucado e garanto que ele não estava roubando, mas, enfim, ele estava apanhando em nome de uma série de canalhices históricas da sua classe.

Mas o Marsiglia, um clássico, chegou a pedir uma punição de "dois anos sem poder jogar" pro jogador do Botafogo. Juro, bicho: dois anos por ter arrancado um cartão da mão do juiz. Contra faltas violentas eu nunca vi ele ficar tão indignado. Tá certo ele: o Marsiglia deve lembrar bem da sua incrível competência profissional na sua época de juiz. É até engraçado lembrar disso a essa altura do campeonato, já que os são-paulinos devem ter boas lembranças do árbitro Marsiglia: ele fazia uma linha de frente imbatível com o Raí e o Palhinha, acho que nunca perderam quando jogavam juntos.

Mas é sempre muito divertido assistir a jogos de times argentinos contra brasileiros porque aí fica bem evidente (e grotesco) o jeito simples de manter velhos preconceitos em torno do "caráter nacional". Sabe aquele clássico papo de "catimba argentina"? Pois é, isso permite aos locutores de futebol em geral fazer luminosos comentários acerca das diferenças entre os povos dos dois países, do tipo "o argentino sabe irritar o adversário, sabe quebrar o controle psicológico com provocações sutis, e isso o brasileiro não sabe fazer". É como dizia a Kate Lyra, brasileiro é tão bonzinho...

E esse negócio de patriotismo esportivo, se a gente levar no bom humor, até que pode ser engraçado mesmo. Por exemplo, aquele efeito de som já clássico que a Globo usa nos gols da seleção brasileira, o célebre "Brasil-sil-sil!": numa boa, isso não poderia render tema pra um divertido ensaio socio-antropológico? Ou será que isso é comum em outros países? Será que tem isso em jogos (seja lá de que esporte for) dos EUA de Bush e Obama, da França, da Venezuela, do México ou da China?
Imagina só: os americanos fazem uma cesta numa partida de basquete e a TV toca: "United States-tates-tates!!". Cubanos fazem um ponto no beisebol e entra o efeito: "Cu-ba-ba!!". Italianos ganham um set de vôlei e toca o som operístico: "Itá-lia-lia!".
Acho improvável. Mas, enfim, seria divertido se todo mundo fosse assim, né? Ou não, sei lá.



Escrito por daniel às 00h48
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duas sessões da curta cinema

Fui ver à noite duas sessõezinhas da curta cinema - queria ter ido no sábado e domingo, mas não fui e perdi uns programões. Enfim,... Mas hoje vi uma série da competitiva nacional e uma série de lançamentos cariocas. Na média, achei a segunda sessão mais forte que a primeira, mas o filme da noite de que mais gostei estava na primeira sessão mesmo, e logo no início: chama-se Ocidente, tem uma estrutura incrivelmente simples e é bonito pacas. Simples mesmo - em dois planos (ou talvez três, preciso rever), uma câmera filma a janela de um trem, em que se sobrepõem as imagens da paisagem externa e do reflexo dos passageiros do lado de dentro. Vemos o movimento, a paisagem correndo do lado de fora e os rostos se movem lentamente sobre ela. Como se os personagens espalhassem seus fantasmas sobre o lugar por onde passam, talvez. Ou talvez não - talvez seja simplesmente o reflexo de gente sendo filmada enquanto permanece num trem em movimento; seja o registro de pessoas dentro de um espaço em trânsito. Os elementos são esses: lugares, movimento, gente, tempo. Quanto menos o filme apresenta, mais ele parece sugerir novos sentidos, e talvez seja até ofensivo tentar reduzi-lo a meia-dúzia de palavras. Como já disse o outro, idéias claras são idéias mortas, e nesse caso é isso aí mesmo.

Dumdum Cerveira, que estava ao meu lado, gostou bastante do filme seguinte, Décimo-Segundo. Concordo com ele que o filme fica melhor depois que o cara chega no apartamento e encontra a menina, mas não me empolguei - vi no filme um certo fetiche do plano longo que, enfim, não me seduziu. A Demolição é um filme com algumas coisas bem bacanas - a atmosfera no momento do desaparecimento do guri, por exemplo -  mas tem um final com um clima de "culpa por erros passados" que eu não curti. Saltos, o filme seguinte, passou com uma projeção meio barra-pesada - Odeon, sacumé. O úlitmo filme da sessão era o Corpo no céu, da Luísa Marques, ex-colega da época de Contra. O filme tem momentos muito legais, ele consegue contruir uma relação bastante forte com a personagem, tem a capacidade de tomar parte daquele mundo e fazer a gente crer nele - mas o final me incomodou. Nos últimos minutos o filme se orienta para além da conta em favor de uma longa canção que, enfim, acaba sendo decisiva demais na atmosfera. Por isso, acho até que quem amar essa canção pode amar o filme, mas ela me dissociou completamente do clima.

Na sessão seguinte rolaram quatro curtas legais. Monsanto foi o filme da Paula Gaitán de que mais gostei (e, verdade seja dita, acho que a proposta de experimentalismo visual dos filmes dela funciona melhor em metragens menores - ou pelo menos foi o que eu senti nesse caso em comparação com outros). 

E Canosaone é o tipo de filme que gruda no seu personagem, vai em busca do seu mundo pessoal. O Canosa é uma figura e tanto e, na sua casa aqui no Rio de Janeiro e em uma visita a Nildo Parente, o filme retrata de uma forma bem bacana o universo e o estilo dele.

Escrito por daniel às 05h06
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sobre conceitos e vazios

Rolou uma palestra do Affonso Romano de Sant'anna hoje à tarde na Puc, por conta do livro que ele recém-publicou "para acabar com o império do homem cego, que Duchamp perversamente criou" (pra citar as palavras de uma entrevista dele disponível na web). Ele pega no pé principalmente do Duchamp, mas sobra também pra alguns surrealistas, estruturalistas, pós-estruturalistas (Derrida é "um dos maiores sofistas da academia"), Heidegger, Octavio Paz, críticos e artistas modernos de modo geral. Geral mesmo: é discurso do tipo "passar a limpo o século 20, passar um pente fino na arte moderna e a arte pós-moderna" (mesma entrevista).

Mas devo dizer que, na verdade, acho que a conversa do Sant'anna fica melhor quando quer ser abrangente do que quando dá nome aos bois. Ao pretender ser abrangente, ele traça um retrato que pode não ser correto, mas que atinge um ponto real: o mal-estar que muita gente sente diante do que se apresenta como arte nos dias de hoje. Esse mal-estar se soma a uma certa tendência à nostalgia (e me perdoem a sinceridade, mas nostalgia é um sentimento doente por definição) e, em consequência, acaba por questionar o valor dessa arte contemporânea. Ok, mas aí deriva o que me parece ser o primeiro equívoco (ou aquilo que o Sant'anna preferiu chamar de "argumento em declive"): uma coisa é questionar o valor de cada obra, uma a uma; outra coisa bem diferente é pretender definir o que pode ser chamado de "arte" e o que é "não-arte". Porque esses termos são comuns na fala do Sant'anna, mas é preciso ser um pouco mais rigoroso nos conceitos, como ele mesmo sugere. Tudo bem, ele não gosta do Duchamp, acha ridículo o urinol da Fontaine estar exposto num museu, até aí tudo bem, opinião legítima e que se baseia em uma série de valores que nem preciso apontar por óbvios. Ele não gosta e pode escrever livros à vontade sobre isso. Mas o que o Affonso Romano não conseguiu explicar é por que ele diz que aquilo, o urinol que compõe a Fontaine, pode ser chamado de "não-arte" segundo ele. O que é "não-arte"? O que o Affonso e sabe-se lá quem mais (há um certo apelo do tipo "ah, vai, todo mundo acha isso...") considera que não é bonito?

Foi mal ter que lembrar disso, mas, só pra não sair das artes plásticas, nosso querido Van Gogh não obteve muito sucesso com suas telas em vida. Tipo, hoje a gente vê ao vivo aqueles negócios que ele pintou e a beleza parece irradiar de forma evidente e cristalina. Mas não sei se ele seria muito bem-visto pelo pessoal mais impaciente da época. Um dos tópicos da conversa de hoje foi justamente o fato de a pintura ter se afastado da representação visual das coisas. Por que será? Sabe, acho que deve ter sido porque inventaram alguma máquina pra registrar imagens que substituiu a pintura. É meu palpite. Daí vieram Van Gogh, Monet, Matisse, Picasso, Pollock, pra ficar só nos mais famosinhos. Tudo isso é modernidade, bicho.

Porque, no fim das contas, é a esse ponto que temos que chegar: modernidade não é um negócio que começa no século XX não, pô. Vamo' parar com isso, minha gente. Antes de reclamar do Deleuze, do Derrida e da galera sangue-bom, vamos jogar a sério esse jogo. Se é pra avacalhar com a modernidade e vir com papinho de restauração dos valores, ok, beleza, mas aí vamos voltar aos coroas que começaram essa história toda. Sacanear o Duchamp e o Derrida sem voltar ao vovô Kant e ao vô Hegel é, tipo, piada. A definição de beleza como um valor subjetivo vem de Kant - portanto, é o moço o primeiro responsável por defender a idéia de que não há uma regra universal para a beleza; já a defesa de que a obra de arte é "a aparência sensível de uma idéia" começa com Hegel (ok, com Schiller, mas enfim) - ou seja, é ali que nasce a noção de que qualquer objeto pode ser arte, desde que transmita uma idéia, um conceito.
Modernidade tem a ver com Robespierre, cabeças cortadas, constituições nacionais e etc etc. De modo bem sintético, simples e até infantil, tem a ver com seguinte: o mundo não se sustenta mais nos mistérios divinos e no poder dos reis, mas nas descobertas da ciência e no direito de cada indivíduo. Não em Deus, mas no Homem. Pelamordedeus, isso é história de primeiro e segundo grau. A "crise da modernidade", não é difícil perceber, tem a ver com o fato de que a imagem de Deus é mais forte do que a do homem racional. Pode até parecer que não, mas é daí que vem o urinol.

Tipo, eu sei que o Affonso Romano de Sant'anna leu muito mais que eu, então vamos falar a sério: pra meter o pau na crise da modernidade de forma generalizante, então vai ter que meter o pau em geral mesmo. Junto com o Duchamp e o Andy Warhol, vão pela lixeira o Van Gogh e o Picasso. Junto com o Stockhausen, vão o Wagner, o Beethoven e até o Chopin. Isso se o papo for generalizante, do tipo "a crise da modernidade é um conjunto de falácias teóricas" etc etc. Se for por aí, a "falácia da modernidade" vai começar lá com Leonardo da Vinci. Bons mesmo eram os gregos. Eram mesmo? Eurípedes foi expulso de Atenas, não custa lembrar, depois de chocar a galera com suas tragédias demasiado humanas. De que lado estaria o Sant'anna? Tudo bem, é claro que estaria com o artista... Mas e todo o pessoal que concorda com ele e se sente aliviado por ver alguém falando mal daquela arte "difícil de entender" - de que lado estaria?

Arte incomoda, bicho. Seja lá o que for, mas a parada incomoda, ou então não tem a menor graça.

Porque foi esse o problema que eu levantei pro Sant'anna, que elogiou a pergunta mas não a respondeu: e se por acaso essa conversa dele, de que é preciso "rediscutir interdisciplinarmente os conceitos das artes", for apropriada pelos reacionários, pelos preguiçosos e pelos autoritários para definir "o que merece ser chamado de arte e o que simplesmente não é arte"? Porque o risco é esse: é acabar jogando num saco de gatos qualquer coisa que lhe desagrada e parece "falsa". Se o problema é que os conceitos são "falácias", então é preciso apresentar novos conceitos, mais sólidos, ou então a situação tende a piorar com a marola... Me parece sempre bacana e corajosa a atitude de questionar nomes e valores consagrados, mas outra coisa inteiramente oposta é dar ensejo para um discurso em favor da preguiça de pensar. É isso que acontece quando se pretende juntar toda a arte moderna (e pós e etc) num mesmo balaio e é isso que acontece quando a base dos argumentos é do tipo "a sala em que o urinol da Fontaine fica exposto está sempre vazia". Acaba parecendo, no resumo da ópera, que o sujeito está indignado porque a obra não foi feita para lhe provocar deleite - e de fato não foi, e sim para inquietá-lo acerca do que é arte. No fim das contas, o fato de ainda estarmos discutindo o valor simbólico de um urinol indica que a criação de Duchamp foi muito bem-sucedida no seu aspecto inquietante (e justamente por não apresentar um objeto deslumbrante) e, na prática, a obsessão do Sant'anna em atacar o valor simbólico da Fontaine é apenas uma forma de passar recibo através da crítica. O artista é sempre um fingidor, não é? F for Fake, pô!

Essa conversa toda está no ar por causa da Bienal de SP - que, como se sabe, deixou um andar inteiro livre para o vazio. E o espaço foi tomado por pichadores, que foram presos.



Como disse o amigo Kleber Mendonça, fantástico seria se os seguranças garantissem o trabalho dos pichadores. É isso mesmo. Se o conceito de arte, hoje, precisa aceitar a noção de vazio, é também porque esse vazio pode ser mobilizado. O que o curador e os donos da Bienal fizeram ao mandar apagar as pichações e reforçar a segurança é exatamente o tipo de autoritarismo que eu disse temer em decorrência do discurso do Sant'anna. Se deixou um espaço vazio, deixa ele livre para a criação, para a obra em construção e vamos ver no que vai dar. Aposto que ficaria melhor do que paredes em branco: ficaria mais vivo e animado. Só fala em morte quem prefere se recusar a viver o presente, ora bolas.



Escrito por daniel às 02h57
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Castelar e Nelson Dantas...

Esperava mais, muito mais do novo filme do Prates Correia. Gosto muito dos filmes antigos dele, sobretudo do Perdida e do Cabaré Mineiro, e sabia que esse quase-documentário era sobre o cinema mineiro segundo as lembranças do Prates, então tive a expectativa de ver um filme emocionante, conforme já tinham dito por aí. Mas acho que o filme traz muitas referências e nenhuma contextualização, parecendo ser uma brincadeira poética a partir de um álbum de juventude. Isso poderia ser bem legal, mas o clima poético-emotivo do filme acaba não se casando muito com a vontade de nos apresentar aquelas referências todas - boa parte do que surge na tela me pareceu meio inexpressivo, no sentido de que só exprime emoção pra quem viveu e conhece tudo aquilo; no fim das contas, parece que só a própria pessoa que pensou aquilo vai entender as brincadeiras da narrativa. O filme tem um ponto de partida interessante por ser uma poesia da memória autobiográfica e, simultaneamente, uma autobiografia em que a vida se confunde aos filmes feitos. Mas nem os filmes feitos nem a memória autobiográfica são apresentados de modo que nos transmitam o vigor do afeto por aquilo tudo. Decerto o filme deve ser uma experiência emotiva bem forte pro seu protagonista-autor Castelar, mas da minha parte devo dizer que eu não me comuniquei muito com a obra não.



Escrito por daniel às 02h31
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Programações

Só pra dar uma divulgação pra mostras legais que estão chegando agora que acabou a farra da época Festival do Rio + Mostra de SP: aqui no Rio começou ontem no CCBB uma mostra maravilhosa com todos os filmes sobreviventes do Murnau - tipo da coisa imperdível mesmo pra quem não viu no cinema (alguns são bem bem raros). Hoje começa a Curta Cinema, que esse ano inclui homenagens ao Bressane e a nossos mui queridos Carlão Reichenbach e Andrea Tonacci, além de uma sessão com curtas do Jonas Mekas, além dos muitos curtas brasileiros inéditos no Rio. E logo logo chega ao Rio a mostra de Nouvelle Vague Indiana, que no momento está ocupando o CCBB de SP com filmes do Satyajit Ray e seus conterrâneos.

Dá pra fazer uma analogia, talvez meio boba: como eu gosto de rodas de samba, já sei que a pior época pra se ouvir samba realmente bom no Rio de Janeiro é justamente o carnaval. Ok, seria um exagero maldoso dizer isso dos grandes festivais, mas, enfim, vocês entenderam.

Escrito por daniel às 02h10
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Qual é a relação da prefeitura do Rio com o cinema?

A resposta é bem conhecida: Riofilme, oras.

A Riofilme foi criada durante a gestão do Marcello Alencar na prefeitura. Ganhou alguma força e relevância quando apoiou o lançamento de alguns filmes que se tornaram bem conhecidos nos meados dos anos 90: Central do Brasil, Pequeno Dicionário Amoroso etc. Já há muitos anos, desde que os filmes brasileiros começaram a acertar outros esquemas de distribuição, tanto com os gringos quanto com independentes, a Riofilme acabou se tornando uma distribuidora de lançamentos pequenos, por conta de dificuldades eternas de orçamento.

Na verdade, não exatamente eternas. A Riofilme chegou a ter bastante prestígio no orçamento municipal durante uns poucos anos da era César Maia, sobretudo no mandato que se seguiu à gestão do Luiz Paulo Conde. Isso aconteceu naqueles anos em que o prefeito e o seu secretário "das culturas" pretendiam destinar recursos faraônicos para projetos caros na área de artes: tentaram fazer o museu Guggenheim e acabaram torrando uma nota nessa tal de Cidade da Música. Depois que a relação de confiança entre o prefeito e o secretário "das culturas" se detonou, os projetos foram deixados à míngua, apesar de terem "gestores" bastante conhecidos, o José Wilker na Riofilme e, por um bom tempo, o Miguel Fallabela na Rioarte. Ambos, como se sabe, se viram limitados a ficar com o pires na mão por longos períodos.

Mas a Riofilme conseguiu uma sobrevida nos últimos anos graças a um mecanismo de apoio da Ancine, o programa Adicional de Renda. Adaptado de uma versão original dos anos 60, esse programa garantiu um repasse de verbas direto da autarquia federal para a empresa municipal. Foi assim que a Riofilme pôde investir no lançamento de alguns filmes nos últimos tempos.

O esquema tem algo de absurdo, já que cabe a uma empresa municipal fazer o trabalho de lançamento, mas a verba que a mantém é federal. Mas há que se considerar que o Estado brasileiro, nas suas três esferas, se exime de legislar, julgar e organizar os esquemas de difusão de filmes (veja-se a lei do curta, veja-se o direito constitucional de produção independente nas redes de tv etc...). Diante disso, o remendo que representa essa graninha que a Ancine repassa à Riofilme pode ser uma alternativa viável para determinadas produções que ficam à margem dos grandes esquemas. Remendo sim, mas é melhor que nada, não é mesmo?

(cabe esclarecer aos eventuais leitores desavisados que, graças a esse bendito mecanismo de apoio da Ancine à Riofilme, foi lançado no circuito de cinema Conceição, o longa em que este que vos escreve trabalhou em diversas funções por alguns anos - do mesmo modo como vêm sendo lançados com este apoio muitos outros filmes brasileiros de 2007 pra cá, tanto pela Riofilme quanto pelas demais distribuidoras).

Enfim, Eduardo Paes assumirá a prefeitura no início do ano. Receberá a Riofilme inteiramente abandonada pelo governo municipal, dependente do recurso ancinesco do programa Adicional de Renda. Em entrevista recente à Zé Pereira, Mariza Leão, a primeira presidente da Riofilme, classificou-a como "caixão ainda aberto". Paes ainda não apresentou suas propostas para o futuro da empresa, mas não acho impossível que ele acerte o passo das coisas (e não apenas em relação à Riofilme - a herança do César Maia é braba...). No cargo para que se elegeu, ele pode agir para que a empresa cresça, pode deixá-la nesse esquema miserável ou pode até piorar a situação - mas é sempre melhor esperar que o melhor aconteça, afinal de contas. Planos bacanas e já antigos podem acontecer - salas com equipamento digital, distribuição de DVD e por aí vai.

E, já que um dos seus principais pontos de campanha falava do bom relacionamento com as esferas federais e estaduais, cabe torcer também para que os responsáveis pelas respectivas áreas - Ancine e repartições de cultura - trabalhem pra não deixar a Riofilme nesse esquema brabo de não poder fazer nada além de atirar os filmes num mercado hostil a ela.

Escrito por daniel às 05h04
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... vota no Gabeira

O voto do redator deste blog no próximo domingo será para Fernando Gabeira. Não sou tão empolgado com o jeito de Gabeira como são alguns amigos meus e sei que uma figura que representa tão bem a tradição da esquerda ipanemense é bem mais conservadora do que parece. Mas numa escolha entre um ou outro, entre Gabeira, o candidato elitista de Ipanema, e Eduardo Paes, o candidato demagogo e errático da Barra, não dá pra ter dúvida, ainda mais pelo jogo pesado que vem acontecendo no Rio, como vem sendo noticiado por aí (há um bom comentário sobre isso no blog do Noblat).
A essa altura, não há mais dúvida de que só quem não se importa com o que seu candidato faz é que vota em Eduardo Paes (e eu juro que a rima pobre é intencional).

Ah, e esse blog também declara apoio a Barack Obama. That´s show business!



Escrito por daniel às 17h51
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só é possível filosofar em alemão.........

Na chuvosa noite de domingo, eu estava indo ver a peça Warum Warum, dirigida pelo Peter Brook e apresentada no novo teatro do Jardim Botânico. Aí o táxi em que eu estava com Carol e minha mãe parou por um minuto e encontramos a querida Clarinha Linhart, minha parceira na realização do O Mundo de um Filme (junto com a Camila). Clara nos viu, chegou na janela do táxi e curtiu uma com a nossa cara: "vocês não vão me dizer que estão indo ver a peça do Peter Brook, né? que clichê!". Ainda me sacaneou: "só falta você escrever depois no Passarim sobre a peça...".
Pois é, mas a gozação da Clara acabou sendo a parte mais divertida da noite. Ok, o jantar depois da peça também foi bom, mas o que eu quis dizer é que a peça em si foi um tanto quanto, enfim, um tanto quanto decepcionante. A atriz Miriam Goldschmidt falava em alemão e a gente tinha que acompanhar o texto através de legendas que ficavam no alto do palco. Até aí tudo bem, mas as legendas falhavam um bocado - e mesmo assim boa parte da platéia ria das piadas dela, o que prova que o pessoal tá bem afiado no alemão.
E, claro, tudo bem que as legendas falhassem um bocado, mas o pior é que a fala dela não chegava a constituir uma personagem num monólogo: eram frases bastante interessantes sobre teatro e eu acho bacana a idéia da busca pelo despojamento artístico, mas acho que mesmo o despojamento extremo acaba ficando meio vazio se tudo que temos é uma atriz fazendo as vezes de showman num texto sobre o que é o teatro. O esquema era parecido com o Hamlet que o mesmo Brook dirigiu e foi apresentado no Rio há cinco anos - mas ali, mesmo que o ator William Nadylam falasse com a platéia do mesmo jeito irônico, havia o interesse pelo que se fazia com Hamlet, um personagem que pairava sobre a peça como um fantasma. Dessa vez simplesmente não tinha personagem...Ela menciona em certo momento a despropositada questão sobre o teatro se tornar literatura, como se a existência do teatro dependesse unicamente de ele ser não-literatura. Ora, a questão não faz sentido: o teatro é o teatro, tem questões inteiramente diversas da literatura, mas não me parece que dramas, sentimentos e personagens sejam conceitos pertencentes apenas ao modo de expressão literário. Não me empolgou muito esse teatro-sem-drama, teatro que é misto de tese e stand-up comedy. Talvez o assunto que ele quer abordar fique mais interessante quando o Peter Brook escrever um livro sobre isso, se é que ainda não o fez.

(taí, Clarinha!)

Escrito por daniel às 03h35
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O Fim da Picada

Recebi hoje um email de divulgação do pessoal do CineEsquemaNovo contando que O Fim da Picada, filme dirigido pelo Christian Saghaard, foi escolhido pelo júri o melhor da competição. Achei bem bacana por gostar bastante do filme, e também achei importante por nos fazer lembrar que O Fim da Picada não está sendo exibido na Mostra de São Paulo, justo esse filme que retrata a cidade de modo tão cruel - talvez seja por isso mesmo, não sei. Mas é curioso que acusem o pessoal da Mostra de exibir tudo que aparece, sem critério. Baita injustiça com os caras, e eu mesmo posso testemunhar isso por ter inscrito o Conceição lá e não ter entrado. Outro que me lembro que não foi exibido, por exemplo, foi o nosso querido Serras da Desordem. Aliás, o mesmo se deu em relação ao Festival do Rio. Bem, com relação ao Conceição a gente sempre poderia alegar que a cópia 35mm não estava pronta (na verdade, ainda estávamos mixando o filme na época das inscrições no Rio e em SP) e, sendo sincero, não sei se o Tonacci inscreveu o filme na Mostra de SP, nunca perguntei. Viva a Mostra e o Festival, ainda bem pra nós que gostamos de cinema que eles existem no Rio e em SP; mas o problema é dar a impressão de que exibem um panorama completo. Não o fazem na produção internacional, nem na nacional, e é bastante ruim que alguns marqueteiros vendam essa imagem e que parte da imprensa eventualmente compre o peixe.

Enfim, até pelos casos pregressos que mencionei vocês devem imaginar que a minha simpatia pelo O Fim da Picada cresce ainda mais. Mas a verdade é que virei fã desde que vi o filme pela primeira vez, quando a gente estava selecionando os filmes pro Riofan, alguns meses atrás. Já tinha visto os curtas do Christian e gostado sem grande empolgação, mas fiquei bem impressionado por esse longa enlouquecido e irado (que fez o Valente me dizer, no final da estréia que rolou no Riofan, que até que o Conceição não era um filme tão doido assim). O Fim da Picada pode ser excessivo, extremo e desconjuntado na sua imaginação cruel - no fim das contas, é uma prova fílmica de que São Paulo conjuga realidade e pesadelo: é um filme de horror em que o inferno é a cidade. Não é um filme facilmente palatável, mas é uma descarga de energia e tanto. Espero que ele consiga circular bem por aí, pra quem gosta de cinema poder ver.



Escrito por daniel às 06h55
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Hollywood se curva ante o novelismo pátrio

Só há uns dias que eu fui ver em DVD, com Carol e a companhia de um comentarista eventual do blog, o Homem de Ferro com o Downey Jr. e o Jeff Bridges. Não me empolgou muito, o início é bem melhor que o final e as cenas de ação entre bonecos de lata me pareceram bem chatinhas. Isso é um problema de o herói do filme estar dentro de uma armadura, sem rosto, em brigas filmadas com muita computação gráfica - tudo acaba parecendo videogame, e o pior é que a gente assiste ao jogo sem participar.

Mas o enredo é bem divertido - falei pra Carol umas quatro vezes durante o filme que aquilo tudo parecia novela da Glória Perez. Numa boa, olha só a história: depois de ser sequestrado, o maior industrial de armas do mundo resolve mudar os rumos da sua empresa, para deixar de fazer armas e passar a criar geradores de energia ecologicamente corretos. No entanto, o velho amigo de seu pai, que sempre foi o seu braço direito, vê na situação a oportunidade para trair o patrão e tomar-lhe o lugar. É ou não é pura Glória Perez?

Escrito por daniel às 02h26
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Opus 3 nº 1 - pra confundir mais

Falei no post abaixo que iria falar com o bróder Improta pra saber se era nesse disco do Moacir Santos, Opus 3 nº1, que o João Donato tocava piano (ou se era só no Ouro Negro ou em algum outro). Bem, falei com o Improta e confesso que acho tudo mais confuso, porque ele me falou que conseguiu a ficha técnica do disco com a família do Moacir e ela seria a seguinte:

Moacir Santos: vocal & baritone sax
Bill Hood: woodwinds
Abraham Lewak: piano
Bob Saraiva: bass
Jerry Redmond: drums
João Donato: percussion
Frank Ponti/Alicia Rodrigues: voices

O que parece misterioso é o seguinte: o Donato participou do disco tocando percussão? Somente percussão?!
Isso soa estranho, porque o sujeito já gravou eventualmente como acordeonista e trombonista, mas como percussionista eu nunca tinha ouvido falar. E o piano de algumas faixas é tão parecido com o seu estilo que, enfim...
Enfim, como o Moacir já faleceu, talvez isso pudesse ser esclarecido pelo Mário Adnet e pelo Zé Nogueira, que trabalharam em cima da obra dele nos últimos anos. Ou talvez apenas o próprio Donato possa explicar a sua participação (que talvez tenha sido o início e o fim da sua breve carreira como percussionista...) nesse disco do Moacir.

De todo jeito, continua sendo meu disco predileto do maestro.

Escrito por daniel às 02h24
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Moacir Santos

Não sei se todo mundo já sabe, mas já tem algum tempo que os quatro discos que o Moacir Santos lançou ao longo de sua carreira nos EUA podem ser baixados na web. São eles:
- The Maestro
- Saudade
- Carnival of the spirits
- Opus 3 nº1

Como são discos que foram disponibilizados por alguns blogs de música, apesar de nunca terem sido lançados no Brasil, acho legal dar a dica aqui - e vale comemorar o trabalho desses blogs em botar na web essas preciosidades. Os discos são bem bonitos, talvez mais do que o que ele gravou no Brasil, o Coisas. Meus predileto tem sido o último, Opus 3 nº1, que tem algumas faixas realmente incríveis.



O Improta (que fez sua dissertação de mestrado sobre o uso do baixo e bateria nos arranjos do Moacir) me contou que o Donato toca em uma faixa (ou mais de uma, não estou certo). Nem me lembro bem se era mesmo nesse disco que o Donato tocava (ou se era no Ouro Negro, o disco de uns anos atrás com regravações das coisas do Moacir), mas o solo de piano em Love is a happening thing é bonito pra chuchu, então preciso me lembrar de conferir isso com o Gabriel. Na web eu já achei os os nomes dos músicos dos outros discos, mas desse aí eu procurei um bocado e até agora nada.



Escrito por daniel às 04h23
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terminando o Festival

Fiquei pensando mais um pouco sobre o Loki, sobre o qual já escrevi numa nota aqui embaixo, e resolvi voltar ao assunto aqui por conta do comentário do Rodrigo (que, aliás, como anunciou, agora também tem blog - e já começou de um jeito genial, com um post sobre o Costinha). É que fiquei achando que o que eu disse sobre algumas coisas que me incomodaram no filme poderia dar a entender que não curti - e, olha, realmente os tais depoimentos explicativos são meio dispensáveis, mas achei o filme bem bonito porque o personagem se impõe e é fascinante. Uma coisa que eu não contei aqui é que, no final da sessão do Odeon, assim que se iniciaram os letreiros finais, toda a platéia começou a aplaudir e... todos os aplausos se viraram na direção de Arnaldo Baptista. Isso me impressionou bastante, porque dava pra perceber que todo mundo tinha gostado do filme, mas gostaram por causa de Arnaldo. E isso não é demérito, porque é o filme se dedica a fazer isso mesmo, a construir esse perfil romântico do gênio desajustado. E não consegui não pensar em como a carência é parte da natureza de certos artistas, como é o caso de Arnaldo Baptista. Afinal de contas, dá pra imaginar quantos milhões de aplausos Arnaldo já escutou por seu trabalho - mas basta estes aplausos se interromperem para ser preciso ouvi-los de novo. Era muito bonito ver a alegria dele em receber essa homenagem, muito bonito mesmo, mas foi inevitável imaginar que esse vício pelo amor do público, de certo modo, foi o veneno do Arnaldo.

Também fui ver com Carol A Canção de Baal, dirigido pela Helena Ignez, pessoa genial, de uma afetividade maravilhosa e uma lucidez impressionante. Por toda a trajetória de Helena, pela sua personalidade e pelo carinho que ela merece, era natural que a gente esperasse do filme mais do que ele pode dar. De todo modo, há um gosto pelo risco, Carol adorou ouvir um depoimento do próprio Bertold Brecht e eu gostei de algumas imagens muito bonitas, de algumas relações selvagens entre personagens. Mas nós dois ficamos com a impressão de que o personagem Baal precisava de um ator mais carismático que o Carlos Careqa: Baal precisaria ser mais sedutor e mais exuberante para nos fascinar e dar sentido ao personagem, que deveria ser ao mesmo tempo um gênio e um cafajeste. Helena segue sendo a artista genial e figura maravilhosa que é, mas o filme não nos cativou.

Ontem fui ver o filme o Sonata de Tóquio, do Kiyoshi Kuroisawa, e achei bonito pacas. Teve uma hora em que eu achei que ele ia jogar o filme fora, fazendo um retrato banal das infelicidades de uma família em processo de desmoronamento - mas o jeito que o filme encontra pra terminar sua história traz um grau de maravilhamento que parece solucionar qualquer mal-estar gratuito que, segundo eu temia em certa altura, poderia contaminar o filme inteiro. A Beleza se impõe, faz a gente esquecer de todo o resto e permite que a vida siga adiante, é o que esse final parece dizer e mostrar.

Depois vi com Carol o Sad Future, dirigido pelo Aoyama, e também gostei, mas sem tanta empolgação. O filme tem alguns momentos bem legais, tem uma relação entre mãe e filho que está entre as mais bizarras que já vi no cinema e um final esforçadamente poético, como bem gosta o Aoyama - mas aí tem essas coisas de festival: depois da beleza impressionante do final do Sonata de Tóquio, a poesia a fórceps do Sad Future acaba parecendo consideravelmente menor.

Pra encerrar o festival, uma pizzazinha na Cobal na companhia do bróder Filipe Furtado. E, pra variar, dos filmes que listei como os que mais queria ver, não consegui ver quase nenhum, fosse por tempo ou idiossincrasias familiares ou pessoais. Agora, nessa repescagem o único filme que não vi, quero ver e vou poder encaixar no horário é o do Coppola. Se tudo der certo, esse eu confiro no domingão.



Escrito por daniel às 21h32
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Teatrinho pra boi dormir

Li agora o post do nosso querido Ricardo Calil sobre a iniciativa da Ancine de criar subsídios para a exibição de filmes brasileiros, com a tentativa experimental de oferecer os ingressos para filmes brasileiros a apenas R$ 4,00 durante as primeiras semanas de novembro.
Bem, qualquer trabalho para tornar os filmes brasileiros acessíveis a todos é sempre louvável. Mas confesso que esse esquema me incomoda por alguns motivos. Primeiro porque isso denota a criação de um gueto para os filmes brasileiros. De quebra, isso representa uma transferência de renda para os exibidores sem qualquer garantia de continuidade - mas isso nem me pareceria grave se fizesse parte de um programa contínuo de estruturação da difusão de filmes. Só que essa difusão se torna limitada pelo reduzido número de salas que temos no país - e é esse o ponto que mais me incomoda.

Outro dia o Globo publicou aquela reportagem sobre as tendências do público que frequenta cinema no Brasil,  a partir de uma pesquisa paga pelos próprios exibidores, e o principal aspecto dessa pesquisa não foi realçado: a parcela da população que ainda vai a salas de cinema é consideravelmente minoritária no país. Certo, isso não foi ressaltado porque todo mundo já sabe. Mas dá pra imaginar o seguinte cenário pra daqui a uns anos: o país com uma população superior a 200 milhões de pessoas, a parcela que frequenta cinemas cair pra menos de 5% da população e a Ancine, desesperada, oferecer dinheiro pra quem for ver filmes brasileiros em salas de cinema. Só falta isso mesmo: patrocinar o espectador. Porque o resto da turma já tem seu quinhão garantido (pelo menos os bem-aquinhoados, é claro).

E isso acontece por quê? Porque mais da metade da população brasileira só assiste a filmes em DVD ou na TV aberta. E a Ancine não quer se meter nessa briga. Não tem filme brasileiro na TV aberta? Bem, a Ancine não tem nada a ver com isso... Aí tem que ficar inventando esses troços pra parecer que seus executivos estão preocupadíssimos com a difusão dos filmes brasileiros em território nacional. 

Posso estar de pura implicância, mas confesso que isso me parece apenas o caso de manter um pouco a pose pra esperar o boi pegar no sono. O pessoal tenta mostrar serviço e eu bem que gostaria de acreditar que essa iniciativa pode resolver pelo menos uma parte dos nossos problemas de difusão, mas não consigo acreditar não. Infelizmente.

Escrito por daniel às 19h17
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quatro sessões do Festival

Se nada mais der certo

Achei uma beleza de filme. Fui com Carol, ela gostou mais ainda. Por outro lado, figuras como Kléber e Débora não curtiram. Buenas, os três longas que eu vi assinados pelo Zé Eduardo Belmonte (não vi Meu mundo em perigo) têm pelo menos uma característica em comum: tanto Subterrâneos quando A Concepção são filmes que, assim como Se nada mais der certo, preferem o excesso à contenção. Mas a Carol fez uma comparação interessante no final do filme - ela notou que ele consegue fazer tudo que o Nossa vida não cabe num Opala não consegue. Quer dizer, da mesma maneira que no outro filme, os caras são uns fudidos e o enredo mostra eles se enfiando numa ladeira abaixo, mas Se nada mais der certo não é um filme de aquário: ao contrário, parece que o filme fica grudado nas questões deles - parece mesmo que, se os personagens tiverem que nadar, o filme vai preferir o risco de se afogar a ter que se distanciar deles, e o afeto que esses personagens criam entre si, por mais inverossímil que às vezes possa parecer, contribui bastante para o impacto disso tudo. Os atores estão bem pacas e, desse jeito meio grosseirão, misturando os climas de filme de ação da ralé com instantes de intimidade dos personagens, o filme acaba tendo momentos que me pareceram bem bacanas, bem fortes.

Loki - Arnaldo Baptista

Em seguida ao filme do Belmonte, que rolou no Palácio, não resisti a dar um pulo na frente do Odeon e acabei indo ver Loki, o filme sobre o mítico líder dos Mutantes, avisado que fui da chance reduzida (pelo menos até o momento) de ele vir a ser lançado em circuito. Pra dar uma idéia da comoção que foi a sessão, basta dizer o seguinte: era um documentário sobre a vida de Arnaldo Baptista e ele estava presente. É claro que a presença do retratado torna qualquer sessão de um documentário biográfico mais emocionante, mas o caso aqui é bastante especial: para além de o filme ser inteiramente louvatório, a vida de Arnaldo Baptista é incrivelmente dramática. E tudo isso é narrado pelo filme, desde o período do auge da criatividade e popularidade ainda no final da adolescência, nos primeiros anos dos Mutantes, passando pelo uso de drogas, pela separação de Rita, pela saída do grupo, pela época das internações, a tentativa de suicídio e a recuperação do período em coma, até a volta dos Mutantes em alguns shows recentes. Teve algumas coisas no filme de que não gostei. Tem vários depoimentos que só servem para "situar historicamente o espectador", ou seja, pra dizer às pessoas o que elas devem entender: todos os de Nelson Motta, Sean Lennon, Lobão e Tárik de Souza me parecem inteiramente descartáveis - acho que o filme não precisava de nenhum deles para explicar aos espectadores a importância do Arnaldo. Além disso, como se pode imaginar, Rita Lee acaba ficando com o papel de vilã e os demais tropicalistas (inclusive os outros integrantes dos Mutantes) parecem não ter muita importância diante da necessidade de criar "o retrato de um gênio maldito". Mas esse é o ponto: o filme assume explicitamente a opção de apresentar este personagem, o gênio desajustado, o artista cuja trajetória vai do auge à dor e termina na ressurreição. Com seu talento e sua trajetória, Arnaldo é o personagem perfeito para o discurso romântico sobre o papel socialmente instável do gênio criador: para ser um artista original é preciso fazer coisas diferentes de todo o resto, e para se adequar à sociedade é preciso agir como todos os demais - logo, o gênio está condenado ao infortúnio.

Minha mágica

Roubada total do festival. O filme é ruim de doer, com sua historinha constrangedora sobre o pai que faz de tudo pra arrumar dinheiro pro filho. Se o Zavattini soubesse que ia acabar nisso, acho que ele ia chorar. De quebra, foi exibido numa projeção digital de última categoria.

Quatro noites com Anna

Filme bem bonito, bem triste. Dos que vi do Skolimowski, talvez tenha sido o de que mais gostei. Agora, acho bem bizarro como as questões de comunicabilidade, nos filmes dele, acabam descambando pra uma travação completa. Especialmente nesse filme, parece que os corpos não conseguem se aproximar sem sofrimento. Tá vendo? É isso que dá viver num país sem samba na Lapa.



Escrito por daniel às 05h18
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Conceição em SP amanhã, segunda-feira

Aviso aos paulistanos: dentro da programação da IX Semana do Audiovisual, promovida pelo pessoal de cinema da Eca-Usp, nosso Conceição - autor bom é autor morto vai ser exibido no Cinusp amanhã, segunda-feira, às 19hs, com projeção em 35mm e entrada gratuita.



Escrito por daniel às 20h44
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Ressaca - uma cronicrítica

Acabou que ainda na noite de sexta deu pra encaixar uma sessãozinha - à meia-noite, depois de chegar de Rio das Ostras. O dia tinha sido cansativo, mas divertido. De manhã, a reunião do colegiado do Puro, que costuma ser chatíssima como todas as reuniões, foi surpreendida pela invasão de uns vinte alunos, que foram lá pra protestar contra o novo regimento do colegiado. Ok, o assunto era tão chato como de hábito e a discussão teve seus momentos constrangedores, mas é sempre divertido ver manifestação de estudantes revoltados, não é mesmo? Depois do almoço, rolou a aulinha básica - mas, como o tema era estética nietzscheana, resolvi tentar animar o negócio: primeiro a gente fez uma leitura da genial As Rãs, peça do Aristófanes, que eu argumentei ser, de certo modo, a base para a crítica do Nietzsche ao socratismo e ao decadentismo grego, ou seja, a base não apenas para suas idéias sobre estética mas sobre filosofia como um todo. Pra quem não conhece a peça: o Aristófanes cria uma cena em que Dionísio desce ao Hades com o intuito de resgatar um poeta trágico e, por um desses azares, acaba se tornando juiz de uma disputa entre Eurípedes e Ésquilo. Isso serve para o Nietzsche apontar o socratismo do Eurípedes como o marco da decadência do teatro musical grego e, a partir disso, defender o fundamento dionisíaco da arte. Bem, diante de um assunto desses, depois de ler a peça eu resolvi sugerir à turma que fôssemos tomar uma cerveja na lanchonete em frente ao Puro, e foi lá que continuou a conversa. Então foi assim, com algumas cervas na cabeça, que eu voltei pro Rio e, tão logo cheguei em casa, eu e Carol corremos pro Estação 1. Corremos um pouco à toa, porque o negócio estava programado pra começar à meia-noite e acabou começando à uma da madruga.

O esquema era o seguinte: no palco em frente à tela, ficava alguém fazendo as vezes de VJ para o filme exibido. Primeiro foram exibidos dois curtas de uma finlandesa chamada Mia Makela, em seguida foi apresentado pela primeira vez no Rio o Ressaca, do Bruno Vianna. Sendo bastante simples e direto, o problema maior que unia os três filmes, ou seja, que tornava meio bizarra a proposta de live cinema - o nome que o Festival deu à sessão é em inglês mesmo - o problema maior, eu dizia, é que toda essa parafernália em frente à tela parecia inteiramente inútil pra quem estava assistindo da platéia. Talvez os envolvidos tenham se divertido em ir pro meio do palco e feito algumas escolhas de improviso, mas, sinceramente, a minha experiência pessoal é que aquelas pessoas no palco não despertavam o menor interesse. Não sei se fui claro, mas o problema que eu vi é que o palco não é usado pra nada - os realizadores ou músicos ficam na frente da tela, diante do público, mas não vi nada de interessante em tê-los à nossa frente.

No caso dos filmes da finlandesa, eles são compostos apenas por atmosferas audiovisuais que não definem qualquer narrativa, que apelam para uma recepção inteiramente sensorial de imagens e sons. Achei mais interessante pra fazer pensar sobre a relação entre narrativa e estímulo sensorial que é própria do cinema: é uma relação em que o experimentalismo é comumente associado ao aspecto sensorial, obviamente porque o esquemão industrial, mais do que encaretar as narrativas, tende a definir padrões de sensações. Só que, como eu disse, a presença da VJ/cineasta no palco podia ter muito a ver com o conceito da parada, mas parecia meio desnecessário, porque ela podia estar fazendo muitas coisas relacionadas à projeção no computador em que mexia, no entanto a gente da platéia não tinha como saber o que ela estava fazendo. Como bem observou uma amiga, pra quem estava olhando pra tela não fazia diferença se a realizadora estava escolhendo sons e imagens ou se estava apenas checando emails enquanto o filme era projetado.

Depois teve o projeto/filme Ressaca. Fiz questão de diferenciar projeto e filme porque eu diria que o filme, se um dia existir por si só, parece poder vir a ser bastante bom - pelo que eu vi, pode vir a ser o melhor filme do Bruno. Mas acerca do projeto que não era filme, aconteceram problemas técnicos que talvez tenham interferido na recepção do filme - ou, esse é meu receio, o projeto não apenas não tem o que acrescentar ao filme como só o atrapalha, e não apenas porque tem duas pessoas fazendo na hora a trilha sonora, em cima do palco. Digo isso com um bocado de tristeza justamente porque gostei bastante do filme (e não do projeto). Eu ficarei bastante contente se vier a saber que o Bruno pretende montar uma versão definitiva do filme (ou, sei lá, duas ou até três), que as pessoas poderão assistir em salas de cinema ou nas suas TVs da forma tornada clássica nos últimos cem anos - aí eu não só vou querer ver o filme nessa versão definitiva, como também vou dizer pra todo mundo que, pelo que eu vi, vale a pena conferir, porque Ressaca, o filme, tem cenas realmente muito boas.

Trata-se da história, ou melhor, de episódios da adolescência de um garoto e seus amigos nos anos 80 e 90. A comparação óbvia seria com Podecrer, e o Ressaca, pelo que vi, sai-se muitíssimo melhor em retratar os ambientes e as questões dos jovens da época (assim como o filme anterior do Bruno Vianna tinha trama parecida com a de Era Uma Vez... e, embora tenha duas versões, ambas são bem melhores do que o filme do Breno Silveira). Do filme que vi, Ressaca tem bons atores, alguns ótimos diálogos, situações bastante boas. Mas isso era o filme. Voltando ao assunto que comentei acerca dos filmes da finlandesa, como filme o Ressaca é bem narrativo. Claro, tem momentos que podemos considerar bem sensoriais, como quando o garoto tira com uma agulha a "pele" criada com cola Polar, mas sempre se tratam de personagens de um enredo dramático.

Daí volto à questão sobre a presença de realizadores no palco. Bem, o Bruno Vianna não pôde fazer conforme tinha planejado originalmente -e el pretendia ficar no palco com um objeto redondo, razoavelmente grande, em que a platéia poderia ver a interface do computador - e, assim, ver ele fazendo o trabalho que, como eu disse antes, não dava pra ver a finlandesa fazer. Só que falhou o equipamento e, diante da falha, ficaram no palco somente os músicos Lucas Marcier e Rodrigo Marçal, selecionando na hora a trilha sonora.

Mas o que se ganha com isso, com a presença deles no palco? E mesmo que o Bruno estivesse no palco também, mexendo na interface (correndo o risco de parecer com o Tom Cruise naquelas cenas de Minority Report), de que modo isso enriquece o espetáculo?

Falei ali em cima sobre esse lance das relações entre as forças apolínea e dionisíaca. Talvez o modo de se ver filmes hoje em dia em salas de cinema seja apolíneo demais mesmo, e talvez seja até por isso que o interesse que desperta na sociedade esteja em decadência histórica (afinal, numa pesquisa recente não teve gente que reclamou que em cinema não dá pra paquerar?). Mas eu não classificaria como aparições dionisíacas a presença de dois DJs na frente da tela. Pode ser implicância minha. Logo no início, depois de ver a finlandesa, já tinha ficado convicto que, se é pra subir à cena, os artistas têm que representar papéis mais interessantes do que ficar mexendo em computadores. Sei lá, poderia ser mais interessante ter umas dançarinas semi-nuas, ou alguém fazendo cambalhotas, ou mesmo um sujeito metido a poeta berrando frases desconexas, enfim, o que quer que fosse. Seria inclusive mais interessante se, ao invés de dois DJs, tivéssemos instrumentistas de outra natureza no palco. Nada contra Lucas e Rodrigo, que são músicos e trilheiros geniais - mas a verdade é que pessoas mexendo em computadores ou qualquer tipo de seletores de música não é algo cenicamente interessante. Confesso que não me parece que traga qualquer benefício ou inovação ao espetáculo. Entendo que o projeto é ambicioso, acho ótimo isso, ter ambição faz bem; entendo a valorização do conceito de work-in-progress e todas essas conexões históricas que a gente pode traçar com artistas inovadores como Marcel Duchamp e Julio Cortázar - mas, no fim das contas, o que temos são apenas duas pessoas na frente da tela.

Outros tipos de interação poderiam ser criados? Possivelmente. Se num filme estritamente sensorial a ação fora-da-tela provavelmente se obrigaria a ser também sensorial (como músicos ao vivo), num filme narrativo seria possível pensar em relações entre personagens dentro-da-tela e fora-da-tela, com um ator encenando na hora. Mas essa é a principal questão que tive com a relação problemática entre o filme Ressaca e o projeto Ressaca: é que o filme parece não ter qualquer vocação para esse tipo de ressignificação. Pelo que eu soube do projeto, a cada exibição o filme terá uma montagem diferente, com trilha sonora diferente - a cada vez, algumas cenas serão subtraídas, outras adicionadas, sem ter jamais uma versão final da montagem. Como eu disse, espero muito que o Bruno não queira seguir esse caminho, porque o filme Ressaca que eu vi não apresenta nada que nos faça pensar na sedimentação de formas de criação artística, nem na valorização do work-in-progress em detrimento da obra fechada: o filme, pelo que vi, trata da adolescência de alguns amigos, e parece fazer isso muito bem. Torço muito pra que ele ganhe logo uma versão final e que ela circule bastante por aí - pelo que vi, acho que bastante gente vai curtir.



Escrito por daniel às 03h51
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o show do Roberto e do Veloso

Depois do cinema de ontem ainda deu pra correr pra uma TV e ver o show do rei Roberto e do xará Veloso na TV. Show que contou, inclusive, com o nosso bróder Gabriel Improta no violão (pra quem ainda não visitou o site do Improta pra conferir as músicas dele, fica aqui a dica - acho que posso contar que está pra ficar pronto um filme aí que vai ter uma música dele na trilha).

Enfim, com relação ao show: se, por um lado, ele realmente foi bastante careta, com arranjos nada surpreendentes e músicas já bem conhecidas, uma coisa esse show deixou claro mais uma vez - Roberto Carlos, o cantor, é o melhor discípulo do João Gilberto. É o rei mesmo: cantando aquelas músicas mais do que clássicas do Jobim, Roberto deu um banho em matéria de canto, com uma musicalidade extraordinária.
Sei que não estou sendo original em relacionar o Rei ao João - o Augusto de Campos fez isso ainda em 1966 no célebre artigo "Da Jovem Guarda a João Gilberto" (incluído no livro O Balanço da Bossa), e o próprio Roberto já admitiu que em suas primeiras gravações tentava imitar o estilo do João (quem quiser conferir pode ouvir uma delas aqui - aviso logo que não é lá muito empolgante...).
Mas, enfim, foi preciso que ele parasse de imitar para que a proximidade ficasse mais clara: Roberto não grita, está sempre criando novas formas de dividir a melodia, mas sempre do modo mais musical, nunca de forma exibicionista - exatamente como João. Sua gravação de Lígia, no especial exibido ontem à noite, me pareceu especialmente bonita. Espero que esse negócio caia na web logo.

Escrito por daniel às 21h44
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