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Passarim


prediletos de 2014

Foi um ano de trabalho e muita pilha, então vários filmes que pretendo ver foram deslizados pra 2015. De todo jeito,

longas:
- Maps to the stars (Cronenberg)
- Jauja (Alonso)
- Nervos de aço (Capovilla)
- Jersey Boys (Eastwood)
- Já visto, jamais visto (Tonacci)
- Teorema zero (Gilliam)
- Jodorowsky's Dune (Pavich & Jodo)
- Bacanal do diabo (Ivan)
- La jalousie (Garrel)
- e o episódio "KD" (André Sampaio, no final do longa que produzimos, "Rio em chamas").


bordas:
- O Passinho do Faraó + O Passinho do Faraó, Clipe oficial (MC Bin Laden)
- Love never felt so good (Michael Jackson feat. Justin Timberlake) (melhor filme de zumbi do ano)
- Alemanha 7 x 1 Brasil (J. Low e F. Scolari) (segundo melhor filme de zumbi do ano)

pior cineasta do ano: João Santana.



Escrito por daniel às 15h18
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Conceição disponível na web em 720p

No vimeo, liberado pra download num arquivo mp4:

https://vimeo.com/89278234



Escrito por daniel às 07h00
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retrospectiva de verão

No final do ano passado eu tentei fazer uma retrospectiva dos fatos que tornaram 2013 muito doido. Naquele momento ainda era possível pensar numa análise cronológica. Agora, com a repetição intensificada e crítica de vários conflitos, isso fica cada vez mais difícil.
De todo jeito, como o "jornalismo cultural" gosta de fazer retrospectos de verão, desconfio que o deste ano pode ser bem forte pra mexer com os humores (pra melhor ou pior, aí já não dá pra garantir). Tentando ser minimamente cronológico (no que me arrisco a fazer confusões) e sendo muito centrado no Rio, onde moro, o verão de 2014 foi o seguinte:

- Foi o verão em que programaram uma manifestação com mulheres de peitos de fora, mas na hora agá só tinha os voyeurs. Isso foi uma carioquice tão carioca que nem os cariocas conseguiram prever.

- em que não vai ter copa e algumas pessoas não entenderam.

- em que o prefeito do Rio pediu para as pessoas não saírem de casa.

- o verão do Ronaldo sendo zoado pelo Romário.

- em que o julgamento do mensalão acabou duas vezes, com uma reviravolta entre elas causada pela mudança de juízes; o que não mudou quase nada no final das contas, mas serviu para os dois lados ficarem reclamando como se isso fosse a coisa mais importante do mundo.

- o verão em que um cinegrafista morreu por causa de um morteiro disparado por uns garotos idiotas numa manifestação e, depois disso, durante uns dias apareceu maluco dizendo que defender manifestações era o mesmo que fazer apologia ao crime.

- Foi o verão em que todo mundo que circula pela cidade ficou preso no trânsito e reclamou do fim da perimetral; depois que derrubaram o elevado, até bloco de carnaval foi feito para protestar.

- em que o Alckmin "resolveu o problema" das manifestações: passou a mandar duas vezes mais policiais do que manifestantes e mandar eles baixarem o cacete em todo mundo. Deu tão certo que o ministro da justiça disse que vai copiar o modelo e implementar país afora.

- o ano em que botaram batalhão da tropa de choque da polícia para fiscalizar bloco de carnaval.

- em que a guerra começou: o governador de São Paulo resolveu desviar o curso do rio Paraíba do Sul pra evitar que a megalópole fique sem água.

- em que Porto Velho inundou, mas a presidenta afirmou que é absurdo culpar as usinas recém-construídas pela cheia do rio e pelo que aconteceu com os moradores de Rondônia.

- foi o verão em que o Mujica decidiu dar asilo aos presos de Guantánamo. Depois ainda tripudiou, pedindo ao Obama que em troca liberte cubanos presos nos EUA.

- o verão em que a inundação de uma rodovia isolou o Acre do resto do país.

- em que foram marcadas "marchas" para fazer parecer que o ambiente ideológico é o mesmo de 50 anos atrás. O verão em que um governo que joga bombas de gás em manifestantes, manda o exército cuidar da segurança civil e tira terras de índios foi acusado de ser "comunista". Ainda não se averiguou se os autores dessa acusação são agentes secretos do próprio governo ou se são só malucos mesmo.

- E foi o verão que acabou com a imagem do cadáver de uma mulher, Cláudia Silva Ferreira, sendo arrastado por um carro de polícia pelas ruas. O viúvo disse ao governador (que, por razões misteriosas, ainda se encontra em liberdade) que ela só virou notícia por ter sido filmada, senão seria mais um Amarildo. Como que para comprovar isso, na mesma ocasião foi morto um adolescente de 16 anos, William Possidonio - e sua morte passou batida como outras tantas classificadas como "autos de resistência".

não dá pra dizer que foi um verão agradável, na verdade foi bem barra pesada - bem quente.
pior que não devo ter me lembrado nem da metade, me ajudem aí.

(e, claro, foi o verão que eu passei organizando e montando o Rio em Chamas com a galera. Vem aí!



Escrito por daniel às 18h00
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prediletos de 2013

- Passion
- La danza de la realidad
- Doce amianto
- O estranho do lago
- A batalha do passinho
- O que se move
- Django livre
- This is the end
- Na carne e na alma
- Invocação do mal
- Em trânsito



Escrito por daniel às 02h33
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uma tese nas nuvens

A quem interessar: disponibilizei on-line o texto da minha tese de doutorado.
Ele trata de dois cineastas - um brasileiro, nosso saudoso Carlão Reichenbach, o outro argentino, Alberto Fischerman - e seus contextos históricos-culturais.

A versão com anexos (alguns documentos bem interessantes que coletei durante a pesquisa) é pesada, tem pouco mais de 100mb por causa dos textos escaneados. Está aqui:
http://www.4shared.com/office/d-mXpGPr/reichenbachefischerman_-_texto.html

A versão só com o texto, sem os anexos, é bem mais leve (menos de 1,5mb) e pode ser baixada aqui:
http://www.4shared.com/office/zKSWZUR6/casosdereichenbachefischerman_.html



Escrito por daniel às 02h07
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alguns filmes prediletos de 2012

- Tabu
- O som ao redor
- Cosmópolis
- Habemus papam
- Esse amor que nos consome
- Killer Joe
- Caminho para o nada
e os curtas:
 - Piove, il film di Pio
- Dizem que os cães vêem coisas

 O predileto entre os prediletos não consta nessa lista porque já entrou na lista do ano passado, quando eu o assisti. Foi O homem que não dormia. Em breve, textinho sobre ele na Filme Cultura.



Escrito por daniel às 15h19
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este blog

O blog mudou um pouco, com atualizações menos relacionadas ao que se chamaria de cobertura da produção e das notícias de cinema.
Agora, não devo mais usá-lo para fazer crítica de cinema. Por conta disso, os posts serão menos frequentes.



Escrito por daniel às 23h54
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Filme Cultura nº 56

Está chegando às livrarias e já está disponível para download o número 56 da Filme Cultura.

Esse número teve como tema as relações entre cinema e teatro, com alguns artigos da pesada escritos por gente como Filipe Furtado, Daniel Schenker, Gilberto Silva Jr. e outros, além dos atuais redatores da casa: eu, Carlinhos Alberto Mattos e Luís Alberto Rocha Melo. Excepcionalmente, eu editei esse número em parceria com o Carlinhos. A partir do próximo número (já em preparação), ele assina a editoria sozinho.

Há muitos textos bons e é sempre meio injusto destacar um ou outro. Mas, como a partir do próximo número o editor vai ser somente o Carlinhos, vou me permitir chamar a atenção de vocês para o ensaio fotográfico do Ivan Cardoso e, mais do que tudo, para a  entrevista+listagem de filmes concedida pelo Carlos Alberto Prates Correa na seção "E agora?". Os pequenos textos que o Prates escreveu para sua lista de "filmes-faróis" são especialmente bonitos.
Além disso, a edição traz textos de Daniel Schenker, Filipe Furtado, Gilberto F. Silva Jr., Rafael de Luna, Jose Geraldo Couto, Juliano Gomes, Dinah Cesare, Susana Schild, Sérgio Moriconi e Caio Cesaro; há também uma entrevista com João Moreira Salles e textos escritos pela atual equipe de redação: eu, Carlinhos e Luís Alberto Rocha Melo. E publicamos também uma versão resumida de uma mesa-redonda sobre o tema da edição, que a redação (acrescida do meu xará Schenker) fez com a participação de Pedro Asbeg, Chris Jatahy e Enrique Diaz.
Mantivemos a tradição de publicar um material exclusivamente no site. Nessa edição, publicamos o seguinte: um curta-metragem do Enrique Diaz, um artigo do Carlinhos sobre os projetos relacionados a teatro produzidos pelo Evaldo Mocarzel e a versão integral da conversa da mesa-redonda.



Escrito por daniel às 16h53
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apresentação de tese à banca

Aviso aos amigos e leitores que vai ser amanhã, terça-feira, a apresentação da minha tese de doutorado à banca (uma turma da pesada).
Meu texto tem como título "Entre a transgressão vanguardista e a subversão da vulgaridade: os casos de Carlos Reichenbach e Alberto Fischerman", e vou defendê-lo na terça, dia 3 de julho, às 15hs, lá na PUC-Rio. Vai ser no prédio da Letras, na antiga sala LF.42, que agora se chama Sala Cleonice Berardinelli. Faço aqui então o convite aos interessados - é só chegar, a sala é aberta ao público.



Escrito por daniel às 03h15
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A prova dos nove

Encontrei Don Carlone quando passei em frente a uma velha sala de cinema do Centro de SP. Eu nem sabia que ainda existia cinema de rua no Centro, ainda mais ali, em plena Avenida São João. Don Carlone estava examinando o cartaz, que mostrava duas mulheres seminuas abraçando ameaçadoramente o herói do filme, sob o fundo de uma floresta em que se viam umas cobras e onças, além de uma cachoeira. Ele apontou o detalhe: "Porque cinema é cachoeira, é ou não é?". 

Em seguida, entrou na sala para ver uma cópia estalando de nova de The Naked Kiss, do Fuller. Eu não entendi como foi que ele tinha arrumado aquela cópia novinha só para ele - depois ele me explicou que tinha combinado com o Jairo, mas o outro tinha desistido porque não tinha mais paciência para ver os filmes inteiros sem conversar. Don Carlone estava eufórico com a notícia de que a Sessão do Comodoro iria continuar no Cinesesc, organizada pelo Vébis e pelo Leopoldo. Ele me contou que ia passar a eternidade lendo poemas do Murilo Mendes, ouvindo música de todo tipo e vendo e revendo seus filmes favoritos. Fez questão de relembrar que "o importante é rever". Contou que chegou a chorar novamente ao rever Cronaca Familiare - e daí emendou no assunto do filme que pretendia fazer com o Jacques Perrin. Na ocasião, eu não sabia como me referir aos eventos da semana passada. Comentei que publiquei na Cinética um pequeno artigo sobre o cinema dele, tirado de um trecho da tese que eu enfim tinha acabado de escrever. Ele me respondeu na lata: "El Caetano, todos nós somos seguidores do poeta Oswald de Andrade, mas você só não pode esquecer que meu cinema deve mais ao Fritz Lang e ao Fuller do que ao Deleuze e àquele Agamben". E aí deu uma daquelas boas risadas. Me perguntou se eu tinha revisto o Tigre de Eschnapur do Fritz Lang para escrever meu texto, e disse para eu não esquecer do Zurlini. Depois, voltou a falar dos filmes do Silvio Bandinelli, que ele tinha descoberto há uns meses. Falei pra ele que mencionei no texto a dica que ele deu dos filmes do Mario Salieri, mas não falei do Bandinelli, o cineasta ultra-marxista italiano que se dedica ao cinema dito pornográfico e há uns anos fez uma adaptação pornô e séria do Macbeth de Shakespeare. Don Carlone gargalhou lembrando dos créditos do filme: "uma adaptação do clássico de William Shakespeare", com direito a cenas de suruba. Aí eu perguntei se ele tinha visto as muitas manifestações de carinho da semana passada, até de gente que aprontou umas brabas para o lado dele. "Olha, desde que a Cinemateca Brasileira não me foda com mais nenhum negativo, como já fez com Filme Demência, eu acho ótimo. Não é? Quem é que não gosta de receber afagos?".

Eu perguntei se ele sentia muita saudade. "Só da família, que ficou mais longe por um tempo. Da minha mulher Lygia, dos três filhos, das duas netas. Tenho saudade da minha Carolina, mande um beijo para a sua. Mas não tenho do que reclamar: enquanto minha família não vem, terei 200 vestais à minha disposição. Sabe aquela lenda muçulmana do prêmio para os guerreiros honrados? Pois é, é verdade e eu ganhei!", contou ele, e deu boas risadas.
Perguntei então:"Você viu que estão dizendo que você foi o último dos grandes, o fim de uma era e toda aquela conversa?". Aí ele respondeu com aquela fúria: "Ora, porra, manda essa gente se foder! Ninguém veio falar isso quando eu lancei o Garotas do ABC, que foi um dos meus melhores filmes! Você sabe disso!". Ponderei que gosto do filme, mas meus preferidos são outros, sobretudo Império do Desejo e Alma Corsária. Além disso, ele mesmo sabia que o Garotas, com suas imensas qualidades, tinha também sofrido muito por todos os problemas de produção. Mas eu já sabia que o Garotas tinha dele o carinho de um filho rejeitado pela sociedade. É, sem dúvida, o melhor retrato feito em muito tempo da tal "classe C" que atualmente é tão falada - e talvez tivesse hoje ótima recepção se chegasse a esse público. Don Carlone foi ao ABC e captou as mudanças que aconteceram naquele espaço social. O filme penou por outras razões, mas era a grande aposta dele para chegar ao grande público de novo. Sei que ele ficava triste por isso não ter sido percebido, e não aceitava de jeito nenhum que eu e quase todo mundo que a gente conhece preferíssemos Falsa Loura, a sua versão violenta e atual da cinderela.

Para não se chatear lembrando do Garotas, ele esquentou um café num forno micro-ondas, depois pingou um pouco de leite e entrou na sala. Um dos seus poodles ficou junto dele, latindo enquanto ele enchia a xícara. No caminho para a sala do cinema, retomou o assunto: "O problema não é não entenderem os meus filmes, isso sempre teve quem entendesse e muito bem. E você sabe que eu sempre tive mais interesse no público do Marabá do que na elite dos cinemas de arte. A classe baixa sempre foi mais fiel aos filmes brasileiros - e os nossos filmes só foram mal quando perdemos esse público. O problema é se derreterem para o meu trabalho em tom de nostalgia para detonar o cinema brasileiro. Isso é sacanagem, eu sempre falei que o cinema brasileiro era a minha maior influência, você sabe disso!". Aí eu tive que concordar, e ele continuou: "Arthur Omar, Andrea Tonacci, Mojica, Carlos Adriano, Dennison Ramalho, Joel Pizzini, o próprio Julio... Tem muita gente fazendo cinema, porra! Vão me usar para detonar os outros? Quem tinha que voltar a filmar é o Calmon. O que não dá é para ficar defendendo esses filmes com cacoetes e modismo, a porcaria sub-televisiva ou essa muleta do documentário. Eu não tenho pudor de dizer que isso virou uma fórmula". Eu sabia que ele ia acabar implicando com os documentários. Acendeu um cigarro, é claro.

"Pode não ser o meu estilo favorito, mas é claro que tem alguns documentários maravilhosos. O problema é virar fórmula. É isso que não pode acontecer. Mas essa briga não acaba nunca, e é por isso que eu defendi e sempre vou defender o cinema de autor. É esse que pode ser o nosso diferencial. Para repetir fórmula, não tem diferença de onde vem. Às vezes é até mais interessante que venha de fora, você não concorda?"

Aí eu lembrei do projeto de documentário que ele tinha há anos, de viajar o Brasil inteiro (junto com a filha, que é produtora) para registrar toda a diversidade de pássaros existente no país. Ele se empolgou e começou a me explicar sobre o canto dos pássaros e sobre como captar imagens e sons de determinadas espécies arredias, com tantos detalhes que eu confesso que não lembro aqui. Depois ele emendou um papo sobre os muitos projetos que ainda levava na cabeça: o filme sobre o início da tortura no Brasil, com o Tarantino, o filme infantil protagonizado por cachorros... Perguntei como tinha sido aquele projeto de filmar o Heliogábalo do Artaud com produção do Galante, no início dos 80, e por que tinha sido abandonado. Daí ele falou das complicações da produtora do Galante, que inclusive tinha impedido que Império do Desejo passasse em Rotterdam em 1985 porque estava acertando a distribuição do filme em alguns países europeus.

O projecionista estava demorando para iniciar a sessão e, enquanto isso, ele me falou que tinha baixado alguns filmes policiais franceses dos últimos anos. "Esse Jean François Richet põe no bolso todos os queridinhos franceses da Cahiers dos últimos anos".

 Don Carlone pediu licença e foi consultar rapidamente o computador num canto da sala. Em dois minutos, compartilhou no facebook e no blog os links para download de vários filmes do Richet. Também compartilhou os links para download de Winchester'73, do Anthony Mann, dedicando o post ao Leo Pyrata, "que tem tudo para ser um dos melhores atores da geração dele. O Pyrata me falou que gostava de Anthony Mann lá em Brasília. Esses mineiros são umas figuras, não é mesmo?"

Perguntei sobre os roteiros recentes, e comentei que o Daniel Chaia deve cuidar do "Deus desarticulado". "Um Anjo Desarticulado", ele me corrigiu: "A Sara tem que produzir o que ele quiser. Você viu os filmes dele, o Borboletas Indômitas e o De Resto, não viu? Te digo sem favor, o Dani Chaia é um dos melhores criadores de atmosfera do nosso cinema atualmente. Saber criar o ambiente de uma cena é uma arte, é uma questão fundamental para os cineastas de verdade. Por isso que o Valente tem que voltar a fazer filme. E por isso que o Fernando tem que fazer o dele. Não é mesmo? Da turma de vocês, ele sempre foi o que teve mais olho, como o Inácio na nossa. Eu sempre falei pro Inácio que os melhores textos dele eram os que transmitiam paixão, que faziam a gente querer sair de casa para ir no cinema! É ou não é? Foi assim quando ele escreveu sobre A Bela Intrigante, do Rivette, eu li e fui ver o filme na mesma hora!"

 Vi que o filme ia começar. Perguntei se ele queria que eu levasse algum recado para quem quer que fosse. Não precisava: "Todo mundo sabe onde me encontrar". É verdade. Quis dizer a ele que tinha escrito na minha tese que A Ilha dos Prazeres Proibidos e Império do Desejo conseguiam reconciliar o projeto marginalista com a utopia e que, através daquele estilo formalmente elaborado, ele tinha conseguido refletir artisticamente sobre uma porrada de questões do seu tempo - o desencanto em Lilian M, a radicalização existencial nas pornochanchadas subversivas, a crise dos 80 em Filme Demência. E que tinha feito com Alma Corsária o filme mais bonito sobre amizade, dane-se Sergio Leone. Que ele foi mestre de uma geração, de um monte de gente.
Não precisava dizer. "Todo mundo sabe onde me encontrar". Me dei conta de que tinha sido o último a ficar sabendo que Don Carlone está vivíssimo, todo mundo sabe onde pode encontrar ele.

Como a sessão estava começando, dei um abraço e resolvi sair fora, sem fazer mais barulho. Ele me levou até a porta, junto com seu poodle, e ainda me falou: "Insiste com o Sérgio Cohn. Ele é um desses malucos fundamentais. E avisa ao Aguilar que eu encontrei com o Peckinpah e o velho falou para ele parar de implicar com o Lynch". E deu uma boa risada.
Deixei um dvd com um bilhete curto, que dizia o mesmo que um monte de gente disse: Don Carlone, um beijo na alma e obrigado por tudo. 




Essa foto acima eu peguei do Daniel Camargo, que botou no youtube uma conversa com Don Carlone.

Abaixo, a música de Alma Corsária:

 



Escrito por daniel às 08h07
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