Diegues gentilmente me concedeu uma entrevista no início de junho, a pedido da equipe de produção do CineOP. Ela foi publicada no catálogo da Mostra de Ouro Preto e agora pode ser lida no site da mostra.
Fala-se muito da produção dos anos 70 nesta conversa - não estranhem, este era o tema do CineOP. Mas em certo momento Diegues defende de forma explícita a regulação da exibição de filmes brasileiros na TV aberta, tanto nos canais públicos como nas concessões a empresas privadas: "A intervenção do Estado tem que ser essa: na TV pública, nas regras para a televisão, no DVD mais barato". Cabe notar que essa sua opinião não havia sido esclarecida à época do tal caso polêmico da Ancinav, quando tanto se falou em "dirigismo" e etc.
Começou hoje no CCBB da capital federal a mostra Cinema é Coisa de Maluco, cuja curadoria eu assino, reunindo filmes que apresentam personagens que se desviam dos padrões de comportamento social e filmes que mostram como a própria estrutura social se relaciona com essas figuras desviantes. O pessoal da produção fez um trabalho bonito: vão ser mais de vinte filmes exibidos em película, tendo como joias da coroa duas lindas cópias trazidas do exterior - a de Titicut Follies, do Frederick Wiseman, e a de Homem Olhando para o Sudeste, do Eliseo Subiela. Além destes, vão rolar filmes como Van Gogh, Os Idiotas, A Paixão de Joana D'Arc, Crepúsculo dos Deuses, A Bela da Tarde, Da Vida das Marionetes e o sumido Louco Por Cinema, do meteorango André Luiz de Oliveira. A programação pode ser vista aqui.
Acho curioso que, no momento em que morreu Michael Jackson, nós tenhamos dois documentários em cartaz sobre músicos brasileiros que não tiveram vidas fáceis. Claro, isso é só coincidência, há uma porção de histórias de músicos de sucesso no mundo e muitos deles têm vidas muito felizes e contentes. Mas um romancista já escreveu que as histórias felizes são todas parecidas e as infelizes o são cada uma do seu jeito - e existe uma triste ironia em saber da morte de Jackson no momento em que nas salas de cinema nós podemos ver as trajetórias de Wilson Simonal e de Arnaldo Baptista.
Não duvido que logo seja feito um filme sobre Jackson (quer dizer, mais um, depois de A Fantástica Fábrica de Chocolate, que era disfarçado), mas será que esse filme vai saber captar o pathos do enredo, o ponto em que seu drama se torna potente? Porque é fácil de enxergar o clichê no drama de Jackson - um caso típico de "pobre menino rico" - e também é fácil cair nos psicologismos baratos. Mas esses clichês não têm força para traduzir a trajetória dele. Ok, ele teve uma infância infeliz, apanhava do pai, sua irmã contou ter sido molestada e tudo mais. Mas o que o levou a fazer com que suas próprias pirações se transformassem em espetáculo midiático? Por que um sujeito que tem tudo o que precisa faz questão de tornar evidente sua insatisfação com o que a vida lhe reserva?
Vi alguns amigos dizendo que ele foi uma "vítima" e outros dizendo que foi um personagem "trágico", um agente da própria falência. Nenhuma das duas perspectivas me parece dar conta do que pôde ser visto no espetáculo de sofrimento de Jackson. Não se trata apenas de um problema da "mídia" ou da "personalidade" - e é as duas coisas, porque de certo modo trata-se da consequência de transformar a própria vida em espetáculo. O que matou Jackson foi um órgão interno (já estou quase passando do ponto, mas prometo que vou evitar metáforas bregas por ele ter morrido do coração); mas foi na fronteira que o corpo faz ao mundo que se podia ver os indícios de que o espetáculo era auto-destrutivo: era na própria pele de Michael Jackson que se via que algo estava errado. Em dado momento dos anos 90 sua pele já mostrava que o espetáculo estava se esfacelando.
É uma pena, porque ele tinha de fato uma presença cênica impressionante. No entanto, basta olhar e ouvir com atenção para notar sinais de falência física desde cedo: Jackson se tornou um dançarino de primeiro time (ao mesmo tempo irônico, revolucionário e deslumbrante), mas sua voz a cada ano se tornava mais fraca, desde que deixou a adolescência. Off The Wall e Thriller são discos melhores do que os que fez com os Jackson Five e os primeiros da carreira solo, mas não por causa de sua presença como cantor e sim apesar dela, já que sua voz tinha menos segurança e dali para frente teria cada vez menos firmeza e expressividade.
O espetáculo sobrevivia a isso - na sua mais célebre apresentação ao vivo, na comemoração dos 25 anos da Motown, Jackson mostrou quais eram suas novas armas: como já disse, ele havia se tornado um grande dançarino; e, além disso, tornara-se também o rei do estilo visual (aparecia então pela primeira vez com uma luva branca na mão esquerda). Quanto à voz, naquela época ainda estava muito boa, mas ao vivo era melhor garantir do que arriscar - basta ter atenção para perceber o playback.
Também, pudera - a gravação era muito boa mesmo...
Foi o fascínio e a curiosidade das multidões que Simonal perdeu e que Baptista queimou e jogou fora - em escalas bem diferentes, é claro. Isso o Jackson teve, mais do que ninguém desde os Beatles, e nunca perdeu por inteiro - então talvez tenha sido essa a sua perdição, para aproveitar o jogo de palavras. De certo modo, mesmo que ele tenha ficado escondido naquela fortaleza que parecia misturar Peter Pan com Cidadão Kane, sua figura já tinha sido marcada como um lugar público. A impressão que deixa de que sua vida sempre foi infeliz torna difícil escapar do olhar moralista sobre essa relação tão intensa e promíscua de um corpo com a indústria cultural; pior não é a morte, mas a tristeza da vida. Afinal de contas, era um dos homens mais ricos da indústria do entretenimento, mas quem gostaria de ter estado na pele de Michael Jackson?
XX XXX XX
Isso dito, vale contar o diálogo entre eu e Carol.
Ela: Enquanto isso, o Fidel segue inteiro...
Eu: E o Niemeyer também... Ou seja, isso comprova a supremacia da vida comunista sobre a capitalista!
Peço licença aos leitores para tratar desse tema pouco usual aqui no blog. A comunidade do local onde trabalho, o PURO (Pólo Universitário de Rio das Ostras) vem passando por problemas bastante graves de segurança (e não só) e isso levou o pessoal a organizar uma passeata de protesto que irá acontecer na tarde de sexta, depois de amanhã - resolvi então usar esse espaço para falar tanto sobre as mazelas quanto sobre a manifestação.
Pra começar pelo começo, Rio das Ostras é um município recente (separou-se de Casimiro de Abreu em meados dos anos 90) e com uma baita fonte de renda - vinda dos royalties da extração de petróleo feita na região. Macaé, sua cidade vizinha, foi uma das que mais cresceram na última década. E, junto com o aumento demográfico vieram a favelização e a violência, consequências graves da junção de falta de estrutura urbana com a alta quantidade de dinheiro circulando. Em Rio das Ostras, em dado momento, procurou-se evitar isso - mas, como se pode imaginar, a briga política local acaba ficando sinistra. Pois bem, por conta disso a prefeitura local, numa administração anterior, procurou a UFF e topou patrocinar a criação de um pólo universitário, que depois de muita confusão e o apoio decisivo do MEC (graças ao projeto de expansão universitária em cidades do interior) tornou-se o Puro. No entanto, até por ter sido um projeto da gestão anterior, o Pólo é visto com evidente má-vontade pela administração atual da prefeitura.
O Pólo hoje tem um problema grave de espaço (o prédio anexo, que deveria abrigar mais da metade das aulas, nem começou a ser construído) e fica num local desabitado da cidade, onde já há algum tempo vêm acontecendo casos de violência. Policiamento? Nada - o contingente da polícia militar para toda a cidade de Rio das Ostras é mínimo, não chega a quarenta policiais. Guarda municipal? Pois é, nada também. Nem iluminação nas ruas nem nada. Consequência? Assaltos quase todos os dias. Até aí tudo bem, claro. Mas a coisa fica inaceitável quando as mulheres do lugar passam a conviver com a ameaça de abuso sexual. Estupro, pra falar sem meias palavras. Um caso isolado um ano atrás, outro que aconteceu noutro curso, de repente se sabe de dois casos e aí começam a haver os relatos de que isso aconteceu com mais garotas que não chegaram a avisar à direção do Pólo.
Pois é, a coisa está bem feia. Esse tipo de coisa não dá pra deixar rolar - isso demanda manifestação e algum tipo de confronto com o poder público, porque o negócio tem que se resolver. E esse é o motivo para o assunto entrar aqui no blog. Vários moradores de Rio das Ostras comentam que, embora os índices de violência da cidade estejam subindo (é o município com maior número de estupros da região), a prefeitura tem feito o que pode e o que não pode para evitar que isso apareça na mídia. Por isso, peço aos leitores que tenham ligações na imprensa que repassem as informações sobre o que está acontecendo por lá. A atual administração está numa situação confusa - o prefeito foi cassado anteontem, mas ainda pode recorrer -, mas o fato é que a gente não pode achar normal que este tipo de problema seja varrido para debaixo do tapete.
Uma coisa que isso me faz pensar é que o mesmo deve estar acontecendo em diversos dos lugares onde está sendo feita essa expansão universitária. É claro que isso é algo que acontece até mesmo em locais universitários tradicionais dos grandes centros - aqui no Rio, sei que no Fundão, da UFRJ, a coisa também é braba. Mas a própria lógica da expansão - criar espaços que reunem jovens do lugar e de outras partes em locais onde não há oferta de faculdades - cria um terreno perigosamente fértil para que a violência tome conta dos arredores, como nós tememos que venha a acontecer no Puro. Em quantos pólos mais isso pode estar se passando pelo país afora?
Não vou poder estar presente à manifestação, mas fica o aviso de que ela vai rolar no dia 26/06 às 14hs em Rio das Ostras, começando no bairro Jardim Bela Vista, na estrada para Macaé. Acontecerá uma passeata com faixas até a Prefeitura e de lá até a praça José Pereira Câmara (Centro), onde haverá uma assembleia e tudo mais. Peço a quem puder que divulgue.
Cabe reconhecer ao menos um bom sinal - se há algo de positivo a se tirar desse episódio, é certamente a mobilização dos alunos. Embora a organização conte com a participação e apoio de professores e funcionários, são os estudantes do Puro que estão tomando a frente do processo,
XX XXX XX
Ainda sobre o Puro, mas noutro tom, já que a vida continua, cabe avisar que o grupo da Produção Cultural, de que faço parte, está criando uma revista chamada Almanaque de Estudos Latino-Americanos - e no momento a chamada para artigos está aberta, com o pedido para que resumos de até 250 palavras sejam enviados até 15 de julho. A revista está aberta a textos sobre música, literatura, cultura indígena, artes visuais, dança, cinema e estudos sobre diásporas - o email para envio é almanaque_las@vm.uff.br.
Vim a Ouro Preto para participar como mediador de uma mesa de debate no CineOP sobre a atuação da Embrafilme nos anos 70, com convidados da pesada fazendo parte dessa mesa: Roberto Farias, Luiz Carlos Barreto, Neville D'Almeida e Geraldo Veloso. Acho que a discussão foi boa por dois motivos. Primeiro porque as falas foram claras, honestas com a herança da Embrafilme. Barreto e Farias apontaram a origem do projeto da distribuidora na criação da DiFilm pelo grupo cinemanovista, cerca de dez anos antes, e falaram também das relações institucionais que esse grupo teve com alguns nomes do governo militar que estava no poder naquele momento, através dos ministros Reis Velloso, do Planejamento, e Ney Braga, da Educação e Cultura, além de Manuel Diegues (pai de Cacá Diegues), diretor do Departamento de Assuntos Culturais do MEC. É algo plenamente claro para todos que o projeto da Embrafilme como distribuidora foi criado pelo grupo cinemanovista e também foi dito explicitamente que o dinheiro não dava para todo mundo. Sempre teve gente boa que ficou de fora da lista - acho que não se pode discutir a Embra sem ter isso em vista.
Além disso, o debate não ficou restrito ao passado - os convidados não se furtaram a relacionar aquele momento com o atual, ambos com vícios e virtudes próprios. E nisso a discussão teve alguma controvérsia - Barreto defendeu mais uma vez que é preciso abrir mais salas de cinema pelo país afora e que é preciso criar um vale-cultura para ser distribuído aos trabalhadores, porque assim o público aumentará, o ingresso poderá se baratear e os produtores não precisarão mais do incentivo de leis de benefícios fiscais; e eu fiz aquela velha defesa de exibir os filmes pela TV, porque só assim se pode garantir a sua difusão.
Na verdade, não acho nem que seja um problema exatamente de discordância, já que a ideia do vale-cultura me parece boa - o caso é mais de uma escolha entre o pragmatismo e a utopia ilusória. Ok, estou sendo parcial, defendendo o meu ponto de vista - mas, ora bolas, esse blog é o meu. E me parece ilusório supor que é possível abrir milhares de salas país afora e também que é possível garantir que um número expressivo de pessoas vai preferir ver filmes em salas de cinema do que em casa; mas, mais do que isso, me parece um grave engano imaginar que é preciso criar esse vale-cultura e essas salas todas para poder enfim difundir os filmes. Ambos os caminhos são possíveis - mas criar e equipar novas salas é algo que exige muito dinheiro e muito tempo, enquanto exibir os filmes na TV (na pública e nos demais canais) só demanda organização institucional. Ou, pra ser mais claro, só demanda um pouco de vergonha na cara e esforço dos ministros que andam comandando os destinos da TV brasileira e suas equipes.
Depois o debate esquentou quando Roberto Farias defendeu a simplificação das prestações de contas devidas pelos filmes incentivados - uma vez que os produtos já estão prontos, segundo ele, não faz sentido criar uma mega-estrutura de fiscalização. Nisso um sujeito da plateia se manifestou - era um funcionário de alto escalão da Eletrobrás que resolveu defender a prestação "rigorosa" das contas, porque segundo ele há "muito superfaturamento" nos filmes. Bem, aí vocês imaginam o que acontece quando alguém diz isso a uma mesa em que está presente Luiz Carlos Barreto... Os dois começaram a bater boca, o sujeito da Eletrobrás se encrespou, disse que tinha a responsabilidade de fiscalizar tudo e levou o Neville a perguntar: "Meu amigo, por acaso o senhor é da polícia?". Aí o Farias fez um comentário com bastante lucidez e conseguiu serenar os ânimos - disse que todos concordavam com o respeito ao investimento público e etc, mas lembrou que a máquina da fiscalização acaba custando mais do que o dinheiro destinado às obras, cuja simples existência evidencia que os orçamentos foram cumpridos.
Na saída, o sujeito veio conversar de novo com o Barreto - e acabaram amigos, claro.
Agora há pouco eu e Carol fomos conferir Um Homem de Moral, documentário sobre o compositor e zoólogo Paulo Vanzolini. Eu gostei, ela adorou. Confesso que fiquei um pouco cansado com aquela sensação de que o filme acabava sendo espremido pela força dos belos números musicais. Mas de fato Vanzolini é um sujeito bem divertido, carismático, e suas canções são muito bonitas. Uma das coisas de que mais gostei no filme foi o que se tratou da divisão de sua vida como zoólogo e sambista - são bem fortes o momento em que ele fala sobre seu fascínio pela floresta e sobre ser compositor no intervalo dos trabalhos como cientista.
Fui ver ontem com Carol essa peça com Fernando Eiras e Emilio de Mello, dirigida pelo Enrique Diaz. Achei muito bacana: os dois atores estão brilhantes e o texto é bem legal. Ele usa um truque narrativo clássico que hoje chamam de contemporâneo, o de estruturar o enredo como uma peça dentro da peça - a ação dos personagens principais, um casal em crise, é ensaiar, como atores que sugerem ser. E ele, o texto de In On It, faz isso criando um enredo bastante melancólico na peça dentro da peça e outro enredo mais brigão e cheio de humor (portanto menos sério como melodrama) na relação entre os dois personagens. É uma estratégia muito boa, porque provoca um choque nos tons entre os dois planos narrativos, sugerindo que a criação dos personagens, a peça dentro da peça, pode ter um grau de verdade muito grande em si - mas o mundo (dos personagens) não se rende à faceta melodramática e, portanto, não tem um desfecho, um instante que a tudo encerra. A representação que o personagem constrói tem força em meio aos clichês próprios do melodrama - mas ela é apenas uma invenção, uma ideia que pode se resolver de uma vez por todas ao seu final, ao contrário das coisas do mundo como elas são.
Isso tudo poderia criar uma baita confusão histérica ou, por outro lado, poderia parecer uma estorinha boba e sem personalidade caso estes personagens não parecessem tão reais, se a relação entre eles não tivesse tanta vida. Ou seja, se estes personagens não tivessem tido atores que soubessem gerá-los. Quando a gente vê, parece simples, parece ter nascido pronto - e esse é o melhor segredo.
Um adendo: fui dar uma olhada na web pra ver o que se escreveu sobre a peça e realmente... Eu não acho que existam motivos pra glorificar a crítica de cinema não, mas pelo menos de um vício ela se livrou e sempre que eu leio as críticas de teatro (as daqui do Rio, claro) fica bem claro que elas não se livraram. É aquele vício de confundir crítico com jurado de desfile de escola de samba e querer dar nota para cada quesito.
Sabe como são aquelas listas de jurados de desfile de escola de samba? "Bateria: nota 10! Harmonia: Nota 9,5!"? Pois é, ainda tem gente que parece achar que fazer crítica é isso. "Cenografia: 10! Figurino: 9,5!" e por aí vai. Pô, francamente, né?
Feliz Natal e Simonal - dois filmes que eu enfim assisti
Demorei muito pra ver Feliz Natal, o primeiro longa dirigido pelo Selton Mello. Coisas da vida: o filme estreou no Festival do Rio num dia em que eu tinha que estar em Rio das Ostras, a Carol foi ver nessa ocasião e, com isso, eu acabei me enrolando esses meses todos até conseguir ver em DVD, o que só fiz há dois dias. De modo geral gostei do que vi - o filme tem momentos muito bons quando se entrega nas mãos dos seus atores, nas cenas em que as relações entre os personagens vão se apresentando a partir de silêncios e frases tristes. O filme tem uma certa mão pesada, uma tendência a tornar todos os conflitos excessivamente dramáticos, um tanto forçados - acho que ele se beneficiaria se baixasse um pouco o tom, se fosse um pouco menos histérico na sua ânsia de parecer "forte"; e também não gostei nem um pouco do clipão que Feliz Natal tem na sua meia-hora final, me pareceu forçadíssimo. Mas Lúcio Mauro está ótimo e achei incríve a presença em cena do Paulo Guarnieri, que tem nesse filme a melhor atuação que vi dele, com pouquíssimas falas. Entre altos e baixos, achei o saldo positivo, promissor.
E ontem fui com Carol ver Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei. Há anos que sou fãzão das gravações do Wilson Simonal e sempre soube que essa história da fama de delator era mal-contada demais - de novidade sobre o assunto o filme só traz uma coisa (o depoimento do contador), mas fora isso ele tem o mérito de ajudar a esclarecer bastante toda a história. No fim das contas, o que faz de Ninguém Sabe o Duro que Dei impressionante é o retrato da decadência do seu personagem principal: depois de mostrar o seu auge e de deixar bem claro que foi o próprio Simonal que criou para si a pior imagem pública possível, torna-se especialmente dramática a imagem dele envelhecido, já quase sem voz e amargurado pelos mais de vinte anos que passou distante do sucesso. Para mim, ficou bem claro que o motivo da decadência do Simonal foi a sua própria arrogância e uma imensa estupidez num episódio bizarro - mas é sempre uma história tristíssima ver alguém subir na vida graças ao seu talento, depois decair e terminar na rua da amargura por causa da arrogância do momento de sucesso.
Não sei se concordaria com o Mièle quando ele diz que o Simonal foi o maior cantor brasileiro - quer dizer, tenho certeza de que não concordo, não no país de Orlando Silva, Jorge Veiga, Roberto Silva e João Gilberto. Mas provavelmente incluiria ele numa lista dos cinco mais talentosos. Vou tratar de botar aqui esses dias alguns registros de sambas clássicos que todos esses caras fizeram, é bem interessante compará-las.
Enquanto isso, deixo aqui a quentíssima gravação que o Simonal fez de Se Você Pensa, uma das melhores canções da dupla Roberto&Erasmo. Não sei como é que os DJs de festinhas ainda não descobriram essa gravação, ela é muito boa e é animadíssima:
Fui ontem com Carol ao baile da Orquestra Imperial. Foi muito bom, fazia tempo que não via um show deles. O show foi bem legal, continua sendo aquela divertida algazarra com muitos sambinhas antigos, as canções pop do Rubinho Jacobina e umas músicas bizarras de vez em quando.
A boa surpresa foi ver que a banda incoporou o Duane aos demais cantores - não sei se foi só pro show de ontem, até porque a banda estava bem diferente (o que sempre aconteceu nos shows, já que sempre tem alguém da banda em viagem). Mas é uma boa novidade se for definitiva - ex-líder do extinto Forróçacana (certamente a melhor banda surgida naquela onda de forró entre os jovens nos anos 90), Duane é ótimo cantor e um músico da pesada. Da sua maneira, seria um bom substituto para o Seu Jorge, que saiu da banda há anos. Acho que a ideia de chamá-lo deve ter passado por essa lógica, já que ele cantou algumas músicas que eram do repertório do Seu Jorge na Orquestra, como Conselho, a jóia que o Almir Guineto lançou no seu disco de 1986.
Aqui embaixo, uma bela gravação do Forróçacana com o Duane no vocal e a participação do Fagner, no clássico Espumas ao Vento - gravação tirada do último disco/DVD da banda, "O maior forró do mundo":
Aqui embaixo, uma gravação mambembe (de um show inteiro que foi parar na web e na comunidade do orkut da banda) de Conselho pela Orquestra Imperial com o Seu Jorge:
E abaixo segue a gravação original de Conselho, feita pelo Almir Guineto num momento luminoso:
Também por conta de uma outra aula que estou tendo - a da Pina, minha orientadora lá na Puc - li um romance pouco conhecido do Nelson Rodrigues, o Minha Vida, que ele assinou com o pseudônimo Suzana Flag, e revi com Carol os filmes que o Neville fez a partir do trabalho dele, o A Dama do Lotação e o Os Sete Gatinhos. Terminada essa revisão rodrigueana, fiquei com a impressão de que o filme com a Sônia Braga foi a jóia do pacote.
A Pina discute muito o esquecimento a que ficam legados vários trabalhos de valor do Nelson - na última década os textos dele passaram por um curto processo de canonização, mas a maior parte da sua produção escrita continua inacessível. Mas, ao contrário dela, eu continuo achando que na obra do Nelson há alguns trabalhos muito superiores a outros. É claro que não é tão simples como dizer que "o teatro foi a sua grande arte", mas quase todos os escritores têm alguns trabalhos melhores que os outros, ainda mais quando a obra escrita é imensa. Não são todas as peças dele que me deixam impressionado; prefiro as mais excessivas, delirantes e despudoradas - principalmente O Anjo Negro, Dorotéia, A Falecida... Alguns dos casos de A Vida Como Ela É são contos realmente notáveis, mas nem todos estão no mesmo nível. E me parece que o Nelson escreveu pelo menos um romance muito forte: O Casamento, que ele assinou e publicou com o próprio nome. Já Minha Vida, escrito quase trinta anos antes, me pareceu ser um curioso exercício estilístico, mas está longe de ser impressionante.
Por outro lado, rever os filmes do Neville me fez achar que foi ele quem melhor captou o espírito artístico do Nelson, sobretudo no A Dama do Lotação. É bem interessante comparar o conto da série A Vida como Ela É ao filme que nele se inspirou - o conto é uma história curiosa, que está longe de ser das melhores que Nelson escreveu; já o filme é uma obra poderosa, que simplesmente passou a dar um profundo sentido moral àquilo que no conto era uma perversão vista de forma um tanto gaiata. Nada contra a profanação das perversões, mas a gente sabe que o terreno onde Nelson Rodrigues se movia melhor era na crítica moral aos tabus sociais - foi assim que ele criou sua melhor literatura. Por isso o filme é uma história rodrigueana até a medula, muito mais do que o conto: nele, a esposa Solange não consegue se entregar ao amor e, ao ser estuprada pelo marido na noite de núpcias, avisa o seguinte: "eu não irei sujar o meu amor com sexo". A partir daí, aviltada pelo marido, sente-se capaz de ter prazer com qualquer um, menos ele. Tem história mais rodrigueana que isso?
E é curioso que na entrevista que deu à Playboy no ano do lançamento do filme o Nelson tenha tido que responder à pergunta "Como um espectador burro vai diferenciar A Dama do Lotação de uma pornochanchada qualquer?". Pois é - se o cara é burro, que seja feliz, pelo menos...
E é preciso valorizar o belo trabalho que o Neville D'Almeida fez na ocasião. É verdade que o filme tem aqueles momentos do para-pra-trepar, a versão anos 70 do para-pra-cantar das antigas chanchadas - mas neste caso é algo plenamente integral ao filme. E o que a gente pode fazer se há quem não goste de ver transas (ou cantorias)? Num texto que escreveu no final dos anos 40 chamado Teatro Desagradável, Nelson avisou que seu teatro pretendia "empestear os espectadores". De todos os cineastas que transpuseram os textos do Nelson Rodrigues pro cinema, o Neville talvez não seja o que tem o conjunto da obra mais brilhante, mas certamente foi o que mais se aproximou dessa crença dele de que a obra de arte deve ser incômoda, desagradável e ao mesmo tempo física e contagiante. Se a gente considerar que depois do filme ele só publicou mais uma peça, A Serpente, me parece que o roteiro de A Dama do Lotação pode ser considerado a última grande obra do Nelson Rodrigues, um trabalho à altura dos seus melhores momentos.
Li o novo romance do Chico Buarque por conta da aula do Karl Erik, lá na Puc - e, mesmo que eu não tenha achado tão maravilhoso quanto os críticos de literatura mais famosos andam dizendo, gostei de ter lido. Acho que a coisa mais cruel que se pode dizer do livro é que ele tem um ar de exercício estilístico e nisso se sai bem, porque ele tem alguns bons achados na sua narrativa (sobretudo alguns dos finais de capítulo me pareceram bem bonitos), mas em nenhum momento ela me envolveu por inteiro. O retrato do personagem-narrador é muito bem construído a partir das repetições constantes na sua fala, nas suas contradições e também nas coisas que procura negar; e esse personagem-narrador representa bem o percurso de uma certa elite decadente do século XX. Mas um dos problemas do livro é que a força parece se esgotar nesse personagem principal. Mesmo Matilde, a sua paixão obsessiva, é menos interessante pela sua personalidade do que pelo que acabamos sem saber dela, que é nada menos que a sua origem e o seu fim - ambos permanecem incertos ao final do texto.
O próprio título me pareceu ter uma ambiguidade que de certa forma resume o romance e seu projeto. Em primeiro lugar, ele faz alusão óbvia à sua estrutura narrativa, uma vez que o romance é feito a partir da fala de um velho de cerca de cem anos que passa os dias em um hospital rememorando a sua trajetória, que socialmente vai da riqueza á pobreza e na vida íntima se resume à lembrança do primeiro amor - é o discurso de um homem que tardia e inutilmente "chora o leite derramado" da sua vida. Em segundo lugar, esse "leite derramado" também pode ser o resultado das constantes masturbações que ele pratica lembrando-se da esposa que o abandonou. E, finalmente, representando um dos momentos fortes do livro, este "leite derramado" pode ser o da esposa Matilde, que o tira dos seios numa pia, para não ter que amamentar a filha recém-nascida. Assim, o romance parece ter consciência de seu lugar e suas limitações: é um texto que se constrói a partir de uma ideia estrutural (simbolizar a decadência de uma elite carioca a partir de um personagem agonizante); é em certa medida uma narrativa masturbatória; e é também um gesto de ruptura, de não-oferecimento - um olhar melancólico para um personagem que se recusa a perceber que seu tempo já passou.
Fui ontem ao ccbb com a Carol para vermos uma sessão da mostra de filmes do Chris Marker que está rolando por lá, um filme chamado O Túmulo de Alexandre. Na verdade, o título em português não tem como traduzir o original, já que "tombeau" pode ser traduzido como túmulo, mas também como uma elegia, uma homenagem a um morto - é um uso mais comum pra peças musicais, mas usa-se o termo também para poemas. De certa maneira, é esse o caso do filme, que é um ensaio documental e poético construído a partir de sete cartas, textos narrados em off em que Marker se dirige em primeira pessoa ao falecido amigo e ídolo Alexandre Medvedkine (ou Aleksandr Medvedkin, segundo o imdb).
É um filme muito forte, do tipo que não se deve perder. Ele constroi um retrato bastante bonito da trajetória cinematográfica do Medvedkine - que fez dezenas de filmes produzidos na URSS e sempre teve problemas graves com a censura soviética, a ponto de seus filmes serem desconhecidos mesmo no seu país. A partir do percurso de Medvedkine, o filme do Marker acaba traçando um painel impressionante do cinema nos anos soviéticos. Uma coisa que achei bem legal foi que o filme apresenta aqueles míticos cineastas soviéticos todos como uma grande galera, com todas as brigas e afinidades típicas dessas relações. Vertov, Eisenstein, Dovzhenko, Pudovkin, todos esses caras são personagens do percurso que o filme faz para nos apresentar a grandeza do Medvedkine. E O Túmulo de Alexandre também fala do poderoso chefão que tinha o poder sobre as vidas das pessoas daquele país louco e admirável. Não é por acaso que o título internacional do filme foi The Last Bolshevik, "o último bolchevique". Para Marker, Medvedkine fez parte da geração que viu o sonho socialista virar pesadelo - mas, embora ele mesmo tenha filmado imagens que mostravam como o projeto soviético estava entrando pelo cano, nunca deixou de acreditar nos ideais do comunismo. A morte dele e de sua geração foi simultânea à falência da utopia comunista - e, de certo modo, pôs fim às crenças utópicas que foram próprias do século XX. O filme apresenta isso de modo emocionado, mas bastante claro, e sabe evitar que todo esse trajeto desague em melancolia - ao contrário, a chave final tem um tom incrivelmente vital.
De quebra, no meio da fita que foi exibida na sessão, dividindo O Túmulo de Alexandre em duas partes, há um "entreato" em que é mostrado um filme delicioso, o curtíssimo e encantador Gato escutando a música (que vai ser reexibido em outras sessões junto com Chats Perchés).
Essa mostra Marker é um dos acontecimentos do ano. É bom avisar, de todo jeito, que boa parte da programação vai ser exibida em vídeo - em alguns casos isso se deve ao fato de que os próprios filmes foram feitos em vídeo e nunca foram ampliados pra 35mm, em outros casos se deve à falta de cópias em película mesmo. Mas o pessoal da produção da mostra teve o elogiável cuidado de informar no folder em que suporte cada filme vai ser exibido - os que vão passar em película são os seguintes: o clássico La Jetée; a obra-prima As Estátuas Também Morrem (co-dirigido pelo Alain Resnais); AK - Retrato de Akira Kurosawa; Junkopia - San Francisco; o filme coletivo Longe do Vietnam; Sem Sol; Viva a Baleia; e o incrível Nível 5, que foi filmado em Beta, mas o produtor Anatole Dauman bancou a ampliação pra 35mm no já longínquo ano de 1997.
Procurei no site do CCBB, mas eles ainda não publicaram a programação da mostra. De todo jeito, ela pode ser conferida nesse post do blog do Julio Bezerra.
sobre o Atual: uma coisa a ressalvar, outra a ressaltar
Nem tudo que mandei para ser publicado no tablóide Atual acabou entrando na edição final - um dos textos que enviei, como os leitores daqui já devem imaginar, tratava da exibição de filmes brasileiros na TV pública brasileira tendo em vista a reformulação da Rouanet (já publiquei isso aqui). O Sérgio me ligou para avisar que esse trecho não entraria porque uma das pautas do tablóide seria uma discussão sobre a nova Rouanet, mas centrada especificamente no questionamento feito pelo grupo de artistas do teatro auto-denominado Movimento 27 de Março, questionamento esse que seria respondido por carta pelo MinC.
Bem, as coisas mudaram um pouco até a edição final e o que seria uma resposta escrita acabou se transformando numa longa entrevista com o Alfredo Manevy, que atualmente é secretário executivo do MinC. A entrevista é bem boa, o Alfredo é um sujeito inteligente e eu assinaria embaixo de uns 99% do que ele diz. Mas, embora o assunto não tenha se restringido a teatro e muito se tenha falado em cinema, não se tratou da relãção entre a TV pública e os filmes brasileiros. Ou melhor, tratou-se daquela forma genérica a que todos estamos acostumados, embora o próprio Alfredo tenha levantado a bola ao dizer, falando de possíveis parcerias entre cinema e TV, que "só agora isso começa a acontecer, com a televisão entrando no cinema e, em menor escala, o cinerma entrando na TV".
Infelizmente, faltou fazer a pergunta incômoda: quando é que todos os filmes incentivados com recursos públicos terão o direito e o dever de serem exibidos na rede pública de televisão?
Bem, essa vai ter que ficar pra uma próxima oportunidade.
Por outro lado, a entrevista revelou uma iniciativa muito legal do ministério que merece bastante atenção: tornar disponível para download via internet o acervo da Cinemateca Brasileira (ou, como diz o Manevy, "fazer o upload do acervo"). Galera, é o caso de se preparar pra cobrar resultados, porque a ideia é fundamental. Falta ainda mais um ano e meio de governo para que todas as questões em torno sejam equacionadas e ela seja posta em prática. Se isso de fato acontecer, vai ser uma herança muito boa que essa gestão vai deixar.
apareceu o tablóide Atual ("o último jornal da terra!")
Já está nas ruas essa nova iniciativa do Sérgio Cohn: o Atual, um tablóide sobre cultura e arte editado por ele, pelo Fred Coelho, pelo Rodrigo Savazoni e pelo Heyk Pimenta. Essa primeira edição tem como colaboradores Daniela Labra, Francisco Bosco, Ronaldo Bressane, Felipe Scovino, Mariana Kosovski, Pedro Patrício, Pedro Kosovski, Guilherme Wisnik, Patricia Gouvêa, Felipe Bragança, Pedro Cesarino, Danilo Monteiro, Renato Martins, Maurício Barros de Castro, Renato Sztutman e este redator que aqui escreve.
E é de graça. Deve ser fácil de achar por aí no Rio e em SP. O Sérgio disse que vai tratar de botar em outras cidades também - se alguém conhecer um bom local para distribuição, fica aqui o pedido para avisá-lo.
Eu e Carol fomos ver essa noite o Budapeste, adaptação de um livro do Chico Buarque que eu não li, mas ela já leu - talvez esse seja um dos motivos pra eu ter gostado mais do filme do que ela. O filme não é perfeito ou impressionante, mas se deixa ver; ele vai melhorando aos poucos, acabei curtindo mais a partir de um certo ponto.
É curioso que as duas únicas cenas que me pareceram comprometedoras foram aquelas em que o personagem principal perde a linha e dá um chilique: quando ele, um ghost-writer, percebe que a esposa está paquerando o falso escritor que contratou os seus serviços e, depois, quando ele vai pegar um autógrafo de outro escritor, na mesma situação. São duas cenas bem ruins e é interessante que sejam tão similares. Parece que o piti público simplesmente não é condizente com um personagem ghost-writer - afinal de contas, se já fez o trabalho, de que adianta dar pitis diante da prova de sua própria competência profissional? Diante disso, por que ele em seguida aceitaria assinar papéis em que diz não ter escrito nada? Sintomaticamente, os chiliques são duas cenas especialmente afetadas, pesadas - muito mais do que o resto do filme.
Sem ler o romance, tive a impressão de que ali há um tema mais próprio à literatura do que ao cinema, já que o cinema dá as imagens, cria a presença do personagem, enquanto no texto literário qualquer imagem e qualquer personagem é um fantasma que não se deixa ver - como ghost-writers. Ainda assim, o personagem acaba ganhando sua força no final - não quando era um fantasma mal-resolvido, mas quando se torna um deslocado bem-sucedido.
Só hoje que consegui assistir a esse filme de estreia do Riccelli - vimos eu e Carol no DVD. Bem, pelo menos foi ela que escolheu, porque infelizmente nós dois achamos o filme um horror. Disseram por aí que lembra o filme Crash, mas isso eu já acho exagero - de fato os personagens e situações são desenvolvidos com uma mão pesadíssima, mas teria que piorar um bocado mais pra ser do nível do Crash. De todo jeito, entre várias cenas que nos desagradaram teve uma que eu achei bonita, a em que uma enfermeira fica nua para um paciente enfermo. Mas a melhor coisa do filme foi o nome que deram para um cachorro que aparece rapidamente: Rascunho. Quer dizer, nada de especial, mas é isso.
Eu e o amigo filósofo Pedro Rego (que vez por outra deixa seus comentários aqui no blog usando apelidos diversos) temos há algum tempo o hábito raro de encarar filmes brasileiros bizarros em DVD - costumamos chamar isso de "sessão aquária", em homenagem ao filme com os irmãos cantores que, verdade seja dita, está longe de ser um dos piores que já vimos. Pois hoje a Carol só dizia: "o Pedro tem que ver esse filme, é sessão aquária total!". Pois é.
É pena, o Riccelli é um ator inteligente, fez vários filmes excelentes - Eles Não Usam Black-Tie, Ele O Boto, Dois Córregos, Brasília 18%... Mas dessa estreia dele, enfim, só resta torcer pra que no segundo filme ele acerte a mão.
Olha só a notinha que saiu na coluna do Ancelmo Gois nessa quinta-feira:
"O BBB de Paes
Eduardo Paes instalou no gabinete de trabalho e na residência da Gávea Pequena monitores de vídeo com imagens das mais de 100 câmeras da CET-Rio. Na prática, a cidade se tornou um grande "Big Brother" para o prefeito."
Ou seja, depois de ter um prefeito que passava os dias administrando um blog, agora nós cariocas temos um prefeito que pretende gastar os dias assistindo web-cams.
Pra quem não sabe, vale avisar: a mostra O Erotismo No Cinema Brasileiro começa hoje na Caixa Cultural do Rio de Janeiro. A curadoria é assinada pelo Hernani Heffner, o que é uma indiscutível garantia de qualidade, e vão ser exibidos desde clássicos como Mulher (do Otávio Gabus Mendes) e O Homem do Sputnik (do Carlos Manga) aos sucessos de bilheteria Dona Flor e seus Dois Maridos, Eu Te Amo e A Dama do Lotação (os três com a Sonia Braga, musa maior do período dos anos 70).
Hoje a mostra começa com força total: o primeiro filme a ser exibido é a obra-prima Histórias que Nossas Babás Não Contavam, talvez a melhor comédia já feita no Brasil, com direção do Oswaldo "Carcaça" de Oliveira e estrelada pela Adele Fátima - numa atuação, digamos, arrebatadora. Na sessão seguinte vão ser exibidos dois curtas antiquíssimos e, em seguida, vai rolar um debate e tanto: com mediação do próprio Hernani, conversarão entre si e com o público nada menos que a própria Adele Fátima, o Carlo Mossy e a Darlene Glória. É programa imperdível, bicho. (pra quem puder ir - eu estou noutra cidade, me dei mal).
Queria passar aqui o link do site da Caixa com a programação, mas quem quiser conferir vai ver que o tal site é um tanto confuso. De todo jeito, achei a programação integral publicada aqui.
Realmente, essa revisão das leis de incentivo à cultura pode ter muitos erros, mas ela anda despertando umas reações que são tão bizarras que...
Bem, ontem o Globo publicou um texto meio esquisito do diretor/produtor de teatro e músico Cláudio Botelho. Cabe notar que uma coisa é opinião e outra é talento - e a competência profissional do Cláudio é inversamente proporcional à consistência da lógica que ele expõe. Mas alguém precisava ter dado um toque nele, avisado que os argumentos dele tinham uns furos...
Porque o Botelho defende que "os ingressos no Brasil são muito baratos" e, para provar sua convicção, compara os preços cobrados para ver sua montagem de A Noviça Rebelde (cento e oitenta reais para os melhores lugares) com os cobrados pelos produtores da versão montada em Londres (que seriam equivalentes a cento e noventa e seis reais). Como sua peça teve duzentos mil pagantes, Botelho defende que é legítimo manter o subsídio de 100% de incentivos fiscais para os patrocinadores e lembra que "musical se faz com salários", que "ninguém trabalha num musical para ver o que vai dar na bilheteria e dividir os lucros depois". Nessa hora, faltou lembrar que em Londres não há este tipo de subsídio e este tipo de espetáculo se sustenta simplesmente através da bilheteria.
O Botelho precisa decidir se quer defender o mercado livre ou o esquema de incentivo governamental. Alguém precisa avisar a ele que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, e defender o uso do dinheiro de incentivo à cultura pra sustentar atividade francamente comercial é, enfim, é um negócio meio bizarro. Diante de tão ferozes argumentos contrários, acho que fica bem evidente que essa reforma faz sentido. Pode até ter que ficar mais bem-feita e tudo mais, mas acho esquisito querer manter realidades londrinas através do patrocínio de impostos brasileiros.
Isso dito, agora que o ministério da cultura já avisou que a proporção do valor incentivado no orçamento total (que hoje é de 100% na maior parte dos casos e de 30% em alguns outros) não vai se basear em avaliações subjetivas, vale lembrar o óbvio - só há um jeito de definir formas objetivas de avaliação: através dos valores financeiros. Simples assim: projeto caro não pode ter incentivo integral, tem que ter alguma espécie de contrapartida. Sinceramente, acho que qualquer outra maneira poderá ser chamada de dirigista. Quer dizer, a reforma vai ser chamada de dirigista de qualquer modo, mas essa pelo menos seria uma regra clara e defensável.
Por conta de uma aula que estou seguindo na Puc, ministrada em parceria pela Heidrun e pela Daniela, acabei pegando esse texto bonito da Sontag, o "Contra a interpretação", do livro homônimo, que já tinha lido anos atrás. A aula trata das teorias de estética da recepção e o texto fica especialmente curioso nesse contexto - porque ele tem um tom de manifesto mas, ao mesmo tempo em que promete dar um belo passo no caminho a que se propõe, ele deixa a sensação de que na hora agá acaba recuando. Pelo menos foi essa a impressão que eu tive. É claro, é um texto dos anos 60, já clássico e com uma força incrível. Mas desde o início ela procura atacar a raiz fantasmática que é própria da natureza interpretativa (que tende a abandonar a presença dos objetos artísticos em favor de enxergá-los como símbolos, como referências a algo que não está evidente, que não está presente) e, no final, acaba criando um novo fantasma, o de algo que poderia ser chamado de "obra-em-si". Chamem o alemão! É curioso que, desse modo, o texto acaba descortinando um problema constante de uma certa tendência da crítica de arte: aquela que almeja uma "verdade objetiva" que está além da relação pessoal do crítico com a obra; que acredita que pode falar da obra de forma objetiva, a-histórica.
É claro que "Contra a Interpretação" tem algumas partes muito bonitas e na verdade, como eu disse, pretende ter uma perspectiva diferente disto. Tanto é assim que logo no início a autora imagina que o princípio da produção que se chamaria de artística esteve ligado a rituais e que, portanto, a sensibilidade estética se dava com os objetos em si, não através da interpretação - na visão dela (que me parece um pouco duvidosa), eram oferendas cujo valor era intrínseco, não simbólico. Depois, ela aponta que é a partir da compreensão da arte como mímesis que nasce o projeto interpretativo: uma obra é algo de valor simbólico; uma pintura não vale por si só, mas pelo que simboliza, pelo que mostra das coisas do mundo: as ações das tragédias eram belas não por características intrínsecas, mas por simbolizarem confrontos morais complexos. O desenvolvimento do projeto interpretativo é levado a um ponto em que textos antigos precisam passar por interpretações renovadas para se manterem atuais - as novas interpretações, de certa maneira, criam novos textos. Ela exemplifica com os usos das teorias de Marx e Freud: com as ferramentas interpretativas que criaram, a produção artística pôde ser revista, re-entendida.
Dessa forma, num exemplo em que penso agora, o personagem Abraham Lincoln pôde ser visto como um símbolo fálico pelo grupo da Cahiers num famoso texto sobre o filme de John Ford, mesmo que o cineasta não tenha exibido nenhum falo nesta sua obra (e nem nas demais, até onde se sabe). É uma interpretação - uma recriação aos olhos de quem vê para tornar a obra compreensível, digerível:
"Compreender é interpretar. E interpretar é reafirmar o fenômeno, de fato, descobrir um equivalente adequado. (...) Em alguns contextos culturais, a interpretação é um ato que libera. É uma forma de rever, de transpor valores, de fugir do passado morto. Em outros contextos culturais, é reacionária, impertinente, covarde, asfixiante".
Logo em seguida vem a melhor parte do texto, onde é exposto o ponto central da sua crítica:
"O nosso é um tempo em que o projeto da interpretação é em grande parte reacionário, asfixiante. (...) Numa cultura cujo dilema já clássico é a hipertrofia do intelecto em detrimento da energia e da capacidade sensorial, a interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte.
(...) Na maioria dos casos atuais, a interpretação nçao passa de uma recusa grosseira a deixar a obra de arte em paz. A Arte verdadeira tem a capacidade de nos deixar nervosos. Quando reduzimos a obra de arte ao seu conteúdo e depois intepretamos isto, domamos a obra de arte. A interpretação torna a obra de arte dócil, maleável".
E, mais à frente, a autora escreve o seguinte:
"Decididamente agora não precisamos incorporar mais Arte a Pensamento, ou (pior ainda) Arte a Cultura".
Bacana, bem bacana.
Meu problema com esse texto da Sontag, como já disse, é que ele se mostra bastante forte ao criticar uma determinada postura crítica, como se pode ver nesses trechos acima, mas me parece bem frágil ao propor um outro caminho. E o mais curioso é que ela parece perceber qual é a falha latente na última frase do seu texto, que é muito bonita e muito forte:
"Em vez de uma hermenêutica, precisamos de uma erótica da arte".
Bem bacana mesmo, de novo. Mas antes disso ela se põe a defender um outro formato de crítica e aí me pareceu bem evidente o ponto em que ela se travou. Todo esse texto era um ataque à relação pobremente "conteudísta" com as obras de arte, e em dado momento a Sontag lembra que essa divisão "forma versus conteúdo" já é mais do que obsoleta; no entanto, ao final ela se dedica à defesa de uma crítica "formalista", acabando por cair na mesma cilada:
"A melhor crítica, e isso não é comum, é do gênero que dissocia as considerações de conteúdo das de forma (...) Igualmente valiosa seria a crítica que fornecesse uma descrição realmente cuidadosa, aguda, cartinhosa da aparência da obra de arte. Isso parece ainda mais difícil do que a análise formal.
(...) A função da crítica deveria ser mostrar como é que é, até mesmo que é que é, e não mostrar o que significa".
O que me parece ter escapado à Sontag nesse texto de 1965 é que não há nenhuma diferença entre mostrar "como é que é" e mostrar "o que significa". Justamente porque a arte é essencialmente erótica - ela é uma relação entre um indivíduo e um "algo". Ela não é somente este "algo", esta coisa que se chama obra (filme, canção, livro etc), ela é também a relação que esta obra provoca.
Não quero dizer que a obra é inteiramente inventada por quem vê, mas o ponto é o seguinte: descrever também é interpretar. A descrição também é uma forma de fazer escolhas, de reinventar a obra. Pior do que isso, ela se faz mais claramente fantasmática ao tentar descrever aquilo que pode ser sentido (visto, ouvido etc). Não há descrição que tome o lugar da obra - ou talvez até haja, mas aí será uma obra outra. A simples existência da obra torna supérflua a descrição que se pretende não-interpretativa - me parece que reduzir a tarefa crítica a isso é tornar a crítica uma atividade simplesmente inexistente. Pode até parecer simplismo, mas não é: o risco fatal é que isso seria como reduzir as críticas de cinema a sinopses. A descrição só faz sentido, justamente, quando ela se assume como projeto de interpretação (como os formalistas russos fizeram, por exemplo).
Também me parece que a única forma de fugir do "projeto raconalista de interpretação", portanto, é levar a cabo a sugestão de uma "erótica da arte". Para isso é preciso envolver os próprios sentidos - ou seja, o próprio corpo - na relação com a obra de arte, de forma assumidamente subjetiva, histórica, única. A racionalização, ou seja, a interpretação, é uma estratégia para fazer a crítica escapar desse subjetivismo, que se arrisca a produzir uma certa incomunicabilidade das percepções. A Sontag tem total razão ao questionar o esquematismo de certas escolas interpretativas - mas, entre pensar as sensações ou interpretar a obra, acho que pode ser arriscado (pode ser empobrecedor ou vazio) escolher apenas um dos lados da corda bamba.
Zii e Zie - o disco e o show do Veloso e sua banda Cê
Fui essa noite ver o show de lançamento do novo disco do xará Veloso depois de passar os últimos dias escutando o resultado do trabalho. Bem bacana o show - seria melhor se não fosse no Canecão, que é realmente um negócio... Enfim, no geral o disco é mais irregular e menos vigoroso que o Cê, mas tem alguns momentos muito bonitos e, se algumas das canções mais fortes são sobre um amor sofrido, como era no anterior, dessa vez há também alguma luz e alegria. Espero não parecer repetitivo ao sugerir a leitura do post do Fred sobre Zii e Zie - é o melhor texto que li sobre o disco que ouvi, mesmo que tenha algumas discordâncias pontuais. A Cor Amarela e Falso Leblon também me parecem ser dois dos destaques do disco, e eu somaria a estas também a feliz Menina da Ria, que o Veloso canta como se estivesse se divertindo muito com a existência de uma versão feminina do seu antigo sucesso. A Cor Amarela tem uma curiosa apresentação rock-pop pra um samba que começa de roda e na segunda parte ganha mais bossa e melodia. Falso Leblon ganha pela beleza do poema - a melodia talvez não tenha muito encanto, mas que letra triste, bicho: é uma canção de amor doído bonita pacas.
Outras canções do disco também não me soaram musicalmente fortes; achei que procuram se sustentar mais na letra, mas não têm resultado tão bom quanto Falso Leblon. É o caso de Lobão Tem Razão, que é apenas um título divertido, e Base de Guantánamo, que é um gesto político-poético bastante interessante, mas não é exatamente uma obra cheia de musicalidade. Tarado é outra que não me impressionou e, realmente, a tal canção em homenagem à Lapa não é lá muito convincente. Se ela acabar fazendo sucesso, rendendo uma boa grana pro autor e tudo mais, aí tudo bem - canções bobas se justificam se porventura deixam as pessoas felizes, afinal de contas. Mas, sob o ponto de vista da "arte pela arte", a canção Lapa me parece ser um tanto preguiçosa.
De todo jeito, achei que ao vivo essas músicas feitas mais de "atitude" funcionam melhor, ao serem apresentadas junto com sucessos antigos, além das demias canções do disco - com exceção de Diferentemente, que não é cantada (não sei por que motivo, não vi ninguém comentar o fato). A emoção que tomou a platéia em algumas das músicas antigas foi contagiante, sobretudo em Objeto Não-Identificado e Força Estranha. Mas é notável como Odeio, do disco anterior, já se tornou uma favorita do público. Achei muito legal também a inclusão do samba pouco conhecido Aquele Frevo Axé.
A única coisa que foi dureza de engolir era mesmo o Canecão, que cobra caríssimo para oferecer assentos em que as pessoas podem não conseguir ver o show direito - além de um serviço de garçons também caro, barulhento, sem respeito com o espetáculo... Enfim, aquela coisa lamentável de ruim. Era melhor ter feito na Barra, lá naquela casa de shows imensa - é longe, mas é mais competente. Deu saudade do Imperator, a melhor casa no estilo que o Rio já teve. A UFRJ devia tomar logo aquele espaço do Canecão e, quem sabe, transformar num teatro decente. Mas até transformar em estacionamento era jogo. Espero que o Veloso apresente esse show mais tarde no Circo Voador ou na Fundição. Isso sim será uma boa homenagem à Lapa, e o show vai ser visto por menos preço e, acreditem, com mais conforto - até a acústica vai ser melhor.
Achei no youtube umas gravações do show, feitas por algum espectador na sexta-feira - deixo aqui embaixo a versão de Falso Leblon. Pra quem quiser ver o resto, basta ir à página do site e ver os vídeos relacionados. A câmera treme, desfoca e tudo mais que é comum nesses casos - acho que isso até que dá um charme, especialmente no caso dessa canção:
O Inácio escreveu no blog dele um post sobre a questão de produção e difusão dos filmes brasileiros, por conta de comentários que foram feitos por lá no post anterior dele - pra quem ainda não sabia, acho que vale a pena dar uma olhada. Fiz por lá dois comentários apontando uma matemática sobre a qual eu já havia escrito há vários anos numa nota pro PG da contracampo: se dividirmos o valor investido anualmente na produção de filmes pelo número de habitantes do país, vamos descobrir que cada cidadão brasileiro investiu nada mais que alguns centavos na produção de filmes no Brasil.
A matemática pode parecer boba, mas acho que o argumento é fundamental para evidenciar o seguinte: o dinheiro investido pelo Estado brasileiro em produção de cinema é relativamente irrisório, é quase uma esmola. Acho que todo mundo concorda que o sistema é cheio de falhas, que os filmes devem apresentar algum tipo de retorno desse investimento, que eles precisam ser difundidos etc, mas de uma coisa eu tenho convicção: defender que não se deve investir no apoio à produção artística (não apenas de filmes) me parece mesquinharia, sobretudo quando se vê que os valores gerais estão longe de serem exorbitantes.
Agora, quando se diz que não é certo financiar filmes caros sem retorno, e também que os filmes devem ser difundidos para todos, aí eu já tendo a concordar. Por isso acho que vale a pena dar uma olhada nos comentários, e para mim foi inevitável relacionar isso à discussão que está rolando no meio de cinema e nos grandes jornais sobre a crise na TV Brasil...
Porque eu comecei a escrever um texto para a Cinética sobre essas discussões da TV Brasil, mas o Eduardo me alertou que ele estava meio confuso, "esquizofrênico", e eu acho que estava mesmo. Ainda vou voltar ao assunto, mas acho que o que escrevi estava daquele jeito porque acho que é um pouco assim a sensação que eu tenho sobre o que anda se passando. Porque tenho respeito pelo projeto que o Orlando Senna, o Leopoldo Nunes e todo o pessoal que estava com eles trabalharam para criar na TV Brasil - mas não consigo deixar de achar que eles compraram a briga errada. Com toda a admiração sincera pelo projeto de TV pública, não tenho como deixar de pensar sobre onde estão os filmes produzidos com os incentivos públicos. O canal exibe dois, três, até quatro deles por semana (e mais alguns curtas). Pois poderia e deveria exibir muitos mais - deveria exibir todos os que são produzidos, sem exceção.
Orlando Senna sabe disso - isso foi conversado numa entrevista que ele deu à contracampo anos atrás, quando estava entrando no governo. Na verdade, muita gente sabe disso, concorda com isso - e daí? Daí que os filmes continuam fora da TV pública. Se lá fossem exibidos, todos eles, em horário acessível (não apenas nos fins-de-semana), estaria sendo dado um retorno notável à sociedade.
Mas o grupo que saiu do MinC para a TV Brasil entrou num outro embate. Preferiram brigar pela criação de uma estrutura de produção (ou de estímulo direto à produção), ao invés de brigar pela difusão das produções que já estão sendo feitas através dos benefícios de leis e editais. Daí criou-se esse embate entre "o pessoal do audiovisual" e "o pessoal do jornalismo" (talvez chapa-branca).
Pra mim, a relação disso com o tópico levantado pelo Inácio é evidente. Eu discordo do nosso querido mestre paulistano quando ele diz, sobre o preço dos ingressos de cinema, que "não é aceitável que ninguém se preocupe com isso e ache que cinema custar o que custa é um fato da natureza". Tudo bem, faz sentido se preocupar com isso, mas o valor dos ingressos é alto porque é da natureza do mercado. Em várias cidades há cinemas mais baratos que vivem vazios - o que sobe o preço médio dos ingressos é o que é cobrado em shopping-centers, onde aliás a média de público não é nada má. A questão é outra e foi apontada por dois comentaristas: hoje a imensa maioria das pessoas que assistem filmes prefere vê-los em casa.
Daí, tanto leis de benefício fiscal quanto editais e concursos de apoio à produção de filmes só fazem sentido se esses filmes tiverem difusão assegurada pela TV e DVDs (e também por download, por que não?), depois do período de "janela comercial". Para dar um exemplo óbvio, Cidade de Deus foi exibido outro dia na TV. Sinceramente, não sei por que nunca foi exibido na TV Brasil. Outros filmes da mesma época também já deveriam fazer parte da programação diária do canal. Daí, qualquer um teria o direito de achar os filmes ruins, mas pelo menos todo mundo teria a possibilidade de vê-los e ter a sua própria opinião sobre cada um deles.
Digo isso porque me grilou bastante ver como se estabeleceu o conflito na TV Brasil e como ainda não é prioritária a preocupação de botar todos os filmes produzidos com apoio do Estado na TV bancada por este Estado. Para se ter uma ideia, foi incluído na proposta da nova lei de incentivos (a tal nova versão da Rouanet) um item que dá ao Estado o direito de exibir os filmes produzidos "para fins educacionais". Bastou isso para surgir a acusação de "quebra de direitos autorais" (ué, mas isso não é uma contrapartida explicitada num contrato de incentivo, de benefício fiscal?) - e bastou surgir essa acusação para o ministro Juca Ferreira aceitar o recuo.
Poxa vida. Deveria ser o contrário. Não é "direito" do Estado difundir esses filmes, é dever. É a prestação de contas para o cidadão lá no Cafudó do Judas (desde que lá pegue a TV Brasil) para os centavinhos que ele investiu na produção cinematográfica através dessa máquina estatal que todos nós mantemos.
Nessa nova versão, não basta botar um item dizendo que é "direito". Tem que ser "dever" justamente para obrigar os futuros dirigentes da TV pública - os diretores-gerais que porventura assumirem a TV Brasil, nomeados pelos nossos confiáveis ministros das Comunicações - a exibir em rede nacional a produção independente que é feita no país.
Fui hoje ao Maracanã buscar uma taça. Nem estava dando muita bola pro campeonato carioquinha - a gente sabe que estes campeonatos estaduais são todos de meia-tigela, inclusive o paulistinha. Mas, enfim, final é final, então fui lá.
O time do Botafogo estava doido pra entregar o jogo pro Mengão, e não deu outra. Os caras usaram uma tática infalível que eles desenvolveram em General Severiano, que consiste no seguinte: os jogadores devem partir pra cima do time do Flamengo como se esse fosse o último dia de suas vidas. Não importa pensar em organização de jogadas, em objetividade, nada: o importante é mostrar que não perdem viagem. Como se pode ver, essa tática do Botafogo tem dado super-certo. Pra gente, né? Desse jeito, o Flamengo conseguiu ser campeão com um time que tem atacantes que terminaram o campeonato sem marcar nenhum gol. Só porque tem alguns caras bons e porque a concorrência tá fraca mesmo.
O primeiro gol foi mérito do oportunismo do Kléberson, mas na hora deu pra ver o que o video-tape espertamente confirma: o gol é do Angelim, zagueiraço que joga melhor no ataque do que boa parte dos caras do time que dizem jogar nessa posição. A cabeçada do Kléberson seguia naquele caminho entre o gol e a trave e foi o toquinho do camisa 4 que garantiu que a bola morresse na rede. Mas o Kléberson fez uma beleza de segundo gol, o primeiro tempo terminou assim e parecia que ia ser moleza. Talvez por conta disso, logo no início do segundo tempo o árbitro resolveu tentar animar um pouco o jogo e inventou um pênalti pro Botafogo. Sob esse aspecto, é preciso louvar a dignidade do time do Botafogo: pênalti que não existiu eles não fazem questão de converter em gol.
É sacanagem dizer que não tinha botafoguense no Maracanã - devia ter pelo menos uns sete, oito mil. Mas aí, na hora em que o time perdeu o pênalti, aí mais da metade foi embora. Então, percebendo que ainda havia alguns bravos guerreiros na torcida dos caras, o time deles resolveu aprontar uma pro pessoal: os caras correram atrás, mostraram bola, fizeram um gol, fizeram dois gols. Nosso zagueiros se posicionam bem, mas se for pra apostar corrida, aí já viu, né? Pronto, empataram o jogo. Aí o que eles fizeram? Recuaram o time, claro! Futebol é um negócio engraçado, não é mesmo? Aí os últimos vinte minutos de jogo se resumiram a jogadores do Botafogo caindo no gramado pra fazer cera e a ataques do Flamengo daquele jeito lá. E, cabe notar, o Cuca resolveu gravar na memória de todos a qualidade dos nossos atacantes ao botar o Obina e o Josiel pra jogarem juntos no segundo tempo - mamma mia, que dureza...
Enfim, disputa de pênaltis, como diz o mestre Tostão, não tem nada de loteria: é favorito quem consegue ter o melhor equilíbrio emocional - e, claro, mais precisão na pontaria. Não deu outra: Mengão campeão. O Botafogo jogou um futebol que teve raça, teve até alguma graça, mas não teve taça.
Pela quinta vez na história, o Flamengo leva um tri-campeonato - o segundo em uma década. É o maior campeão, o que venceu o campeonato carioquinha mais vezes - mesmo se isso for contado desde antes de ele, o Flamengo, competir. Se formos contar a partir do surgimento do último time local de expressão (o Vasco, na década de 20), o Flamengo tem muitos títulos a mais do que os demais daqui do Rio. Esse negócio de campeonato estadual tem tradição mas, como eu disse, é moleza pros maiores times de cada lugar.
Abaixo, as fotos dos times rubro-negros de 1944, 1955, 1979 e 2001, nesta ordem - os times que deram ao Flamengo seus outros tri-campeonatos. Neles há craques como Zizinho, Dida, Zico e... bem, vá lá, e Petcovich. Hoje é dia de campeonato, não vamos falar de decadência, pô - até porque aquele time tinha Juan, Adriano... enfim, seguem as fotos:
Abaixo, os gols da partida de hoje, que deu o campeonato ao Flamengo:
Depois de topar um clássico filme argentino de lobisomem (que vimos com a boa companhia do amigo Bruninho), a Carol pilhou que a gente revisse esse filme que o Woody Allen lançou em 1985. Já fazia alguns anos que eu não revia A Rosa Púrpura do Cairo e o filme pareceu ser ainda incrivelmente forte depois desses mais de vinte anos. Uma coisa foi muito divertida de notar: muito antes desse pessoal todo tentar dar uma de Pirandello gaiato por aí, o Allen já fazia ótimas piadas com a ideia de que "os personagens têm vida própria". Em vários dos seus filmes ele tratou da distância entre os males da vida cotidiana mesquinha e a grandeza da criação artística - e aqui essa ideia toma uma forma explícita e irônica, com um personagem se tornando livre das amarras do roteiro a que estão presos os personagens do filme dentro do filme e uma mocinha que não pode fazer do sonho realidade, mas sabe que se mantém graças aos sonhos.
O filme tem uma trama organizada com um dinamismo que, infelizmente, hoje anda raro nos filmes recentes do Allen (ainda que eu goste bastante de alguns, como Dirigindo no Escuro ou Vicky Cristina Barcelona) e atuações muito boas do casal Jeff Daniels e Mia Farrow. Revendo esses filmes do Allen do final dos 70 a início dos 90, acabo sempre reforçando a convicção de que essa foi a melhor fase da carreira dele - basicamente, o período Mia Farrow, com algumas exceções aqui e acolá. A Farrow fez alguns memoráveis ao longo da carreira, mas foi na relação com o Allen que ela se tornou uma estrela e uma atriz da pesada. É muito bonito o golpe final do filme, quando a sua personagem transita da tristeza de sua vida "real" para seu mundo de sonhos - e, como uma boa personagem melancólica, sorri até desparecer:
Essa aqui em cima é uma gravação de 1962 feita pelo Donato e seu trio. Chama-se Muito à Vontade e era a primeira música do LP homônimo que ele gravou.
Já essa aqui embaixo é uma nova gravação da mesma música, feita em 1999 pelo Donato com um novo trio e participação do Ivan Lins no vocal:
É de um dos discos do Songbook João Donato lançado pela Lumiar (os melhores discos do Donato nos últimos anos foram os lançados pela Lumiar ou pela Elephant). A gravação é especialmente bonita por ser uma recriação da primeira: o arranjo é praticamente idêntico, tanto que o vocal segue as notas do piano na primeira vez em que tocam o tema - na segunda parte ele faz um pequeno contraponto. Me parece que, de certa maneira, essa recriação celebra o primeiro registro e, assim, acaba ganhando uma emoção toda própria, algo que 'esquenta' a gravação.
É uma boa lição sobre o que é criar e recriar com uma nova sensação emotiva, um clima a mais - ao refazer o antigo registro, basta ter um bom cantor fazendo o papel com que a gente se identifica (cantando as notas que o piano fazia sozinho na primeira versão) para trazer a essa nova gravação uma certa alegria, uma sensação de reencontrar esta beleza que a gente fica com a impressão de já conhecer há muito tempo. Musicalidade é isso aí, bicho.
Só hoje vi esse filme bonito que o Eastwood estreou logo em seguida a Changeling (aqui no Brasil, A Troca). A comparação entre os dois era inescapável - eu gosto mais do filme com a Jolie, enquanto a Carol gostou mais deste aqui. Gran Torino é um filme realmente muito bom, tem um charme bem próprio por conta do seu humor, que é bem amargo. Mas é claro que fiquei pensando depois por quê preferi o anterior a esse - porque é muito clara a diferença entre um e outro (muito mais do que quando ele fez os dois filmes sobre a Guerra): Changeling é um filme torto, é uma agonia interminável, enquanto Gran Torino é espetáculo feito nas regras da arte, com os compassos todos no lugar.
No entanto, o que eu mais gosto nesses filmes do Eastwood não é esse classicismo em si, essa capacidade de contar histórias bonitas de um jeito emocionante, capaz de nos fazer simpatizar com os personagens. Isso é admirável, é muito bacana, mas o que mais me interessou em alguns filmes dele foi sentir que eles apresentam certas emoções como forças inomináveis, insuportáveis mesmo para os próprios personagens - como é o desespero da Christine Collins em busca do seu filho, assim como também é a amargura das lembranças do Walt Kowalski. Mas no caso de Changeling isso se torna ainda mais forte, já que não tem sentimento compensatório e, pior, não tem desfecho. Lembro ainda de personagens com a mesma carga de desequilíbrio emocional em outros filmes dele como Os Imperdoáveis ou Sobre Meninos e Lobos.
Diz-se muito que a forma clássica segue modelos de narrativa (que uma certa modernidade teria procurado quebrar) para produzir "certezas" no espectador, de tal modo que todo mundo entenda a trama, os personagens etc. Quanto a isso não há muito o que discutir, mas vale lembrar que estas "certezas" podem ser estratégias para produzir sentimentos outros e percepções inesperadas - quando a empatia com os personagens faz sentir que o abismo está à vista.