A quem interessar: disponibilizei on-line o texto da minha tese de doutorado. Ele trata de dois cineastas - um brasileiro, nosso saudoso Carlão Reichenbach, o outro argentino, Alberto Fischerman - e seus contextos históricos-culturais.
- Tabu - O som ao redor - Cosmópolis - Habemus papam - Esse amor que nos consome - Killer Joe - Caminho para o nada e os curtas: - Piove, il film di Pio - Dizem que os cães vêem coisas
O predileto entre os prediletos não consta nessa lista porque já entrou na lista do ano passado, quando eu o assisti. Foi O homem que não dormia. Em breve, textinho sobre ele na Filme Cultura.
O blog mudou um pouco, com atualizações menos relacionadas ao que se chamaria de cobertura da produção e das notícias de cinema. Agora, não devo mais usá-lo para fazer crítica de cinema. Por conta disso, os posts serão menos frequentes.
Está chegando às livrarias e já está disponível para download o número 56 da Filme Cultura.
Esse número teve como tema as relações entre cinema e teatro, com alguns artigos da pesada escritos por gente como Filipe Furtado, Daniel Schenker, Gilberto Silva Jr. e outros, além dos atuais redatores da casa: eu, Carlinhos Alberto Mattos e Luís Alberto Rocha Melo. Excepcionalmente, eu editei esse número em parceria com o Carlinhos. A partir do próximo número (já em preparação), ele assina a editoria sozinho.
Há muitos textos bons e é sempre meio injusto destacar um ou outro. Mas, como a partir do próximo número o editor vai ser somente o Carlinhos, vou me permitir chamar a atenção de vocês para o ensaio fotográfico do Ivan Cardoso e, mais do que tudo, para a entrevista+listagem de filmes concedida pelo Carlos Alberto Prates Correa na seção "E agora?". Os pequenos textos que o Prates escreveu para sua lista de "filmes-faróis" são especialmente bonitos. Além disso, a edição traz textos de Daniel Schenker, Filipe Furtado, Gilberto F. Silva Jr., Rafael de Luna, Jose Geraldo Couto, Juliano Gomes, Dinah Cesare, Susana Schild, Sérgio Moriconi e Caio Cesaro; há também uma entrevista com João Moreira Salles e textos escritos pela atual equipe de redação: eu, Carlinhos e Luís Alberto Rocha Melo. E publicamos também uma versão resumida de uma mesa-redonda sobre o tema da edição, que a redação (acrescida do meu xará Schenker) fez com a participação de Pedro Asbeg, Chris Jatahy e Enrique Diaz. Mantivemos a tradição de publicar um material exclusivamente no site. Nessa edição, publicamos o seguinte: um curta-metragem do Enrique Diaz, um artigo do Carlinhos sobre os projetos relacionados a teatro produzidos pelo Evaldo Mocarzel e a versão integral da conversa da mesa-redonda.
Aviso aos amigos e leitores que vai ser amanhã, terça-feira, a apresentação da minha tese de doutorado à banca (uma turma da pesada). Meu texto tem como título "Entre a transgressão vanguardista e a subversão da vulgaridade: os casos de Carlos Reichenbach e Alberto Fischerman", e vou defendê-lo na terça, dia 3 de julho, às 15hs, lá na PUC-Rio. Vai ser no prédio da Letras, na antiga sala LF.42, que agora se chama Sala Cleonice Berardinelli. Faço aqui então o convite aos interessados - é só chegar, a sala é aberta ao público.
Encontrei Don Carlone quando passei em frente a uma velha sala de cinema do Centro de SP. Eu nem sabia que ainda existia cinema de rua no Centro, ainda mais ali, em plena Avenida São João. Don Carlone estava examinando o cartaz, que mostrava duas mulheres seminuas abraçando ameaçadoramente o herói do filme, sob o fundo de uma floresta em que se viam umas cobras e onças, além de uma cachoeira. Ele apontou o detalhe: "Porque cinema é cachoeira, é ou não é?".
Em seguida, entrou na sala para ver uma cópia estalando de nova de The Naked Kiss, do Fuller. Eu não entendi como foi que ele tinha arrumado aquela cópia novinha só para ele - depois ele me explicou que tinha combinado com o Jairo, mas o outro tinha desistido porque não tinha mais paciência para ver os filmes inteiros sem conversar. Don Carlone estava eufórico com a notícia de que a Sessão do Comodoro iria continuar no Cinesesc, organizada pelo Vébis e pelo Leopoldo. Ele me contou que ia passar a eternidade lendo poemas do Murilo Mendes, ouvindo música de todo tipo e vendo e revendo seus filmes favoritos. Fez questão de relembrar que "o importante é rever". Contou que chegou a chorar novamente ao rever Cronaca Familiare - e daí emendou no assunto do filme que pretendia fazer com o Jacques Perrin. Na ocasião, eu não sabia como me referir aos eventos da semana passada. Comentei que publiquei na Cinética um pequeno artigo sobre o cinema dele, tirado de um trecho da tese que eu enfim tinha acabado de escrever. Ele me respondeu na lata: "El Caetano, todos nós somos seguidores do poeta Oswald de Andrade, mas você só não pode esquecer que meu cinema deve mais ao Fritz Lang e ao Fuller do que ao Deleuze e àquele Agamben". E aí deu uma daquelas boas risadas. Me perguntou se eu tinha revisto o Tigre de Eschnapur do Fritz Lang para escrever meu texto, e disse para eu não esquecer do Zurlini. Depois, voltou a falar dos filmes do Silvio Bandinelli, que ele tinha descoberto há uns meses. Falei pra ele que mencionei no texto a dica que ele deu dos filmes do Mario Salieri, mas não falei do Bandinelli, o cineasta ultra-marxista italiano que se dedica ao cinema dito pornográfico e há uns anos fez uma adaptação pornô e séria do Macbeth de Shakespeare. Don Carlone gargalhou lembrando dos créditos do filme: "uma adaptação do clássico de William Shakespeare", com direito a cenas de suruba. Aí eu perguntei se ele tinha visto as muitas manifestações de carinho da semana passada, até de gente que aprontou umas brabas para o lado dele. "Olha, desde que a Cinemateca Brasileira não me foda com mais nenhum negativo, como já fez com Filme Demência, eu acho ótimo. Não é? Quem é que não gosta de receber afagos?".
Eu perguntei se ele sentia muita saudade. "Só da família, que ficou mais longe por um tempo. Da minha mulher Lygia, dos três filhos, das duas netas. Tenho saudade da minha Carolina, mande um beijo para a sua. Mas não tenho do que reclamar: enquanto minha família não vem, terei 200 vestais à minha disposição. Sabe aquela lenda muçulmana do prêmio para os guerreiros honrados? Pois é, é verdade e eu ganhei!", contou ele, e deu boas risadas. Perguntei então:"Você viu que estão dizendo que você foi o último dos grandes, o fim de uma era e toda aquela conversa?". Aí ele respondeu com aquela fúria: "Ora, porra, manda essa gente se foder! Ninguém veio falar isso quando eu lancei o Garotas do ABC, que foi um dos meus melhores filmes! Você sabe disso!". Ponderei que gosto do filme, mas meus preferidos são outros, sobretudo Império do Desejo e Alma Corsária. Além disso, ele mesmo sabia que o Garotas, com suas imensas qualidades, tinha também sofrido muito por todos os problemas de produção. Mas eu já sabia que o Garotas tinha dele o carinho de um filho rejeitado pela sociedade. É, sem dúvida, o melhor retrato feito em muito tempo da tal "classe C" que atualmente é tão falada - e talvez tivesse hoje ótima recepção se chegasse a esse público. Don Carlone foi ao ABC e captou as mudanças que aconteceram naquele espaço social. O filme penou por outras razões, mas era a grande aposta dele para chegar ao grande público de novo. Sei que ele ficava triste por isso não ter sido percebido, e não aceitava de jeito nenhum que eu e quase todo mundo que a gente conhece preferíssemos Falsa Loura, a sua versão violenta e atual da cinderela.
Para não se chatear lembrando do Garotas, ele esquentou um café num forno micro-ondas, depois pingou um pouco de leite e entrou na sala. Um dos seus poodles ficou junto dele, latindo enquanto ele enchia a xícara. No caminho para a sala do cinema, retomou o assunto: "O problema não é não entenderem os meus filmes, isso sempre teve quem entendesse e muito bem. E você sabe que eu sempre tive mais interesse no público do Marabá do que na elite dos cinemas de arte. A classe baixa sempre foi mais fiel aos filmes brasileiros - e os nossos filmes só foram mal quando perdemos esse público. O problema é se derreterem para o meu trabalho em tom de nostalgia para detonar o cinema brasileiro. Isso é sacanagem, eu sempre falei que o cinema brasileiro era a minha maior influência, você sabe disso!". Aí eu tive que concordar, e ele continuou: "Arthur Omar, Andrea Tonacci, Mojica, Carlos Adriano, Dennison Ramalho, Joel Pizzini, o próprio Julio... Tem muita gente fazendo cinema, porra! Vão me usar para detonar os outros? Quem tinha que voltar a filmar é o Calmon. O que não dá é para ficar defendendo esses filmes com cacoetes e modismo, a porcaria sub-televisiva ou essa muleta do documentário. Eu não tenho pudor de dizer que isso virou uma fórmula". Eu sabia que ele ia acabar implicando com os documentários. Acendeu um cigarro, é claro.
"Pode não ser o meu estilo favorito, mas é claro que tem alguns documentários maravilhosos. O problema é virar fórmula. É isso que não pode acontecer. Mas essa briga não acaba nunca, e é por isso que eu defendi e sempre vou defender o cinema de autor. É esse que pode ser o nosso diferencial. Para repetir fórmula, não tem diferença de onde vem. Às vezes é até mais interessante que venha de fora, você não concorda?"
Aí eu lembrei do projeto de documentário que ele tinha há anos, de viajar o Brasil inteiro (junto com a filha, que é produtora) para registrar toda a diversidade de pássaros existente no país. Ele se empolgou e começou a me explicar sobre o canto dos pássaros e sobre como captar imagens e sons de determinadas espécies arredias, com tantos detalhes que eu confesso que não lembro aqui. Depois ele emendou um papo sobre os muitos projetos que ainda levava na cabeça: o filme sobre o início da tortura no Brasil, com o Tarantino, o filme infantil protagonizado por cachorros... Perguntei como tinha sido aquele projeto de filmar o Heliogábalo do Artaud com produção do Galante, no início dos 80, e por que tinha sido abandonado. Daí ele falou das complicações da produtora do Galante, que inclusive tinha impedido que Império do Desejo passasse em Rotterdam em 1985 porque estava acertando a distribuição do filme em alguns países europeus.
O projecionista estava demorando para iniciar a sessão e, enquanto isso, ele me falou que tinha baixado alguns filmes policiais franceses dos últimos anos. "Esse Jean François Richet põe no bolso todos os queridinhos franceses da Cahiers dos últimos anos".
Don Carlone pediu licença e foi consultar rapidamente o computador num canto da sala. Em dois minutos, compartilhou no facebook e no blog os links para download de vários filmes do Richet. Também compartilhou os links para download de Winchester'73, do Anthony Mann, dedicando o post ao Leo Pyrata, "que tem tudo para ser um dos melhores atores da geração dele. O Pyrata me falou que gostava de Anthony Mann lá em Brasília. Esses mineiros são umas figuras, não é mesmo?"
Perguntei sobre os roteiros recentes, e comentei que o Daniel Chaia deve cuidar do "Deus desarticulado". "Um Anjo Desarticulado", ele me corrigiu: "A Sara tem que produzir o que ele quiser. Você viu os filmes dele, o Borboletas Indômitas e o De Resto, não viu? Te digo sem favor, o Dani Chaia é um dos melhores criadores de atmosfera do nosso cinema atualmente. Saber criar o ambiente de uma cena é uma arte, é uma questão fundamental para os cineastas de verdade. Por isso que o Valente tem que voltar a fazer filme. E por isso que o Fernando tem que fazer o dele. Não é mesmo? Da turma de vocês, ele sempre foi o que teve mais olho, como o Inácio na nossa. Eu sempre falei pro Inácio que os melhores textos dele eram os que transmitiam paixão, que faziam a gente querer sair de casa para ir no cinema! É ou não é? Foi assim quando ele escreveu sobre A Bela Intrigante, do Rivette, eu li e fui ver o filme na mesma hora!"
Vi que o filme ia começar. Perguntei se ele queria que eu levasse algum recado para quem quer que fosse. Não precisava: "Todo mundo sabe onde me encontrar". É verdade. Quis dizer a ele que tinha escrito na minha tese que A Ilha dos Prazeres Proibidos e Império do Desejo conseguiam reconciliar o projeto marginalista com a utopia e que, através daquele estilo formalmente elaborado, ele tinha conseguido refletir artisticamente sobre uma porrada de questões do seu tempo - o desencanto em Lilian M, a radicalização existencial nas pornochanchadas subversivas, a crise dos 80 em Filme Demência. E que tinha feito com Alma Corsária o filme mais bonito sobre amizade, dane-se Sergio Leone. Que ele foi mestre de uma geração, de um monte de gente. Não precisava dizer. "Todo mundo sabe onde me encontrar". Me dei conta de que tinha sido o último a ficar sabendo que Don Carlone está vivíssimo, todo mundo sabe onde pode encontrar ele.
Como a sessão estava começando, dei um abraço e resolvi sair fora, sem fazer mais barulho. Ele me levou até a porta, junto com seu poodle, e ainda me falou: "Insiste com o Sérgio Cohn. Ele é um desses malucos fundamentais. E avisa ao Aguilar que eu encontrei com o Peckinpah e o velho falou para ele parar de implicar com o Lynch". E deu uma boa risada. Deixei um dvd com um bilhete curto, que dizia o mesmo que um monte de gente disse: Don Carlone, um beijo na alma e obrigado por tudo.
Essa foto acima eu peguei do Daniel Camargo, que botou no youtube uma conversa com Don Carlone.
É muito boa a notícia do acesso irrestrito ao acervo do jornal Estado de São Paulo na web. Parece que existe a ameaça de que isso terá um prazo determinado e depois estará disponível apenas para assinantes. Espero que revejam essa idéia. Quem me conhece sabe que eu tenho boas razões para não gostar do que se tem feito no jornal nos últimos anos. Mesmo assim, o Estadão tem um acervo importante, talvez o mais rico de todos entre os jornais brasileiros - todo mundo lembra que foi lá que o Euclides da Cunha publicou a série de reportagens que deram início a Os Sertões, por exemplo. Mas tem muito mais que isso no acervo.
Na área de cinema, nos anos 60 o Estadão deu espaço (muito) para o então crítico Rogério Sganzerla publicar seus primeiros textos - ou melhor, quase primeiros, já que ele passou a colaborar com o Suplemento Literário do jornal após ter iniciado a carreira no Jornal da Tarde.
Vários textos de Sganzerla publicados no Suplemento Literário foram compilados recentemente no primeiro volume da edição Edifício Sganzerla, publicada em 2010 pelo Itaú Cultural e pela editora da UFSC - o segundo volume tem alguns dos textos publicados na Folha de SP a partir do final dos anos 70. Uns poucos escritos para o Suplemento ficaram de fora - mas agora estão disponíveis pela web para qualquer um que não possa pesquisar os exemplares na Biblioteca Nacional. Procurei e selecionei aqueles que ficaram de fora dessa compliação de textos já editada em livro. Seguem abaixo (ao clicar, os textos se abrem em versão maior em novas páginas):
Além dos textos do Jornal da Tarde, ainda há mais alguns de Sganzerla escritos nos anos 60 para outras publicações. Lembro de um sobre O Padre e a Moça, escrito para a revista Artes (republicado no site da Filmes do Serro).
Alguns dos textos de Sganzerla escritos do final dos anos 1970 em diante (quando ele voltou a colaborar eventualmente para jornais e revistas, sobretudo para a Folha de SP, mas também para veículos tão diversos como as revistas Filme Cultura e Vogue Homem) também já foram reeditados no segundo volume do Edifício Sganzerla. Outros escritos desse período ainda seguem merecendo uma boa pesquisa e publicação em livro.
Entrevista de Carlos Reichenbach e Antonio Lima para a revista Artes nº21, publicada em 1970 - mais tarde, republicada na Arte em Revista nº5, de maio de 1981. "Audácia! é o filme-limite entre o cinema novo, pessoal e destinado às moscas do cinema da boca do lixo, e o cinema atual, que procura o encontro com seu consumidor. É a análise dos masoquistas que enfrentam o gangsterismo de nosso mercado exibidor, realizando obras sinceras, nas piores condições técnicas possíveis, para encontrar o desacreditado espectador conterrâneo. O cineasta paulista enfrenta o perigo da mentalidade hollywoodianesca dos produtores. Tudo em São Paulo é mais difícil, burocratizante, castrador. A solução está em calcar os nossos defeitos, partir do péssimo, do execrável."
Declaração de Reichenbach na reportagem “Paulista e gaúcho mostram Audácia!”, publicada no jornal Correio da Manhã de 20/09/1970, falando do sucesso do filme anterior, As libertinas: "A reação do público na minha história foi sensacional. Como se tratava de um filme comercial, coloquei dez minutos finais de sexo, que o público também aceitou, sem problemas."
"Audácia! Fita de cinema", crítica de Jairo Ferreira publicada no São Paulo Shimbum de 31 de julho de 1969: "O negócio é fazer filmes péssimos. Um apanhado crítico da face oculta do cinema nacional, filmes péssimos, mas necessários. Chegou a hora de massacrar a visão europeizante que impede o cinema nacional de ser ele mesmo. Quando um cara não pode fazer nada, ele avacalha, anarquiza, e não podendo fazer filme de cinema faz um filme sobre cinema. Trata-se de filmar a partir da impossibilidade de filmar. É preciso muita audácia para olhar em torno do cinema nacional. Olhar não para badalar os efeitos, mas para apontar os defeitos.”
Crítica de Ely Azeredo publicada no Jornal do Brasil de 25/09/70, em que o crítico sugere que o INC, ao invés de dar recursos, deveria ter censurado o filme: "Com o elogio e o cultivo da sordidez, essa corrente de anticinema chegou a um ponto em que fica nitidamente caracterizado um abuso contra o público. Quando se procura enraizar uma indústria cinematográfica que já mostrou o que pode (...), a voz da Boca do Lixo ingressa (na prática) no coro dos argumentos contrários a um objetivo nacional bem definido. E, estranhamente, este produto ganha exibição compulsória e prêmios em dinheiro do órgão público ao qual compete evitar que aquele objetivo nacional seja sabotado. O parco erotismo fornece as fotos que os cinemas arrumam nos displays. Os incautos não percebem que todas as fotos exibidas pertencem a duas ou três cenas. O faturamento, embora modesto, é certo. Para isso, porém, não havia necessidade de citar Godard e Samuel Fuller, nem de provocar baratinamento de nervo ótico por meio de um trêmulo e tonto trabalho de câmara na mão."
"Audácia!, uma autocrítica", texto de Jairo Ferreira publicado no São Paulo Shimbum de 13 de agosto de 1970: "Reichenbach entra de sola na metalinguagem e faz o filme mais crítico do lixão. Não há crítica de cinema no Brasil hoje. Em São Paulo nenhum crítico está entendendo o filme. Se ninguém sabe mais o que critica, muito menos saberão da crítica. E em Audácia! Há uma autocrítica justamente de uma das tendências mais críticas do novíssimo cinema brasileiro. O filme que a personagem de Reichenbach está fazendo confunde-se com o próprio filme que Reichenbach está fazendo. Audácia! flagra a feitura de um filme, é um filme-que-vai-se-fazendo e que não chega a terminar.(...) Considero o episódio de Reichenbach como a melhor fita de cinema já feita no cinema paulista. É a mise en scène total do cinema, do filme filmado e do filme que está sendo filmado. É um filme que não esconde nada. Um filme sobre cinema, sobre o tipo de cinema que gostamos. Recomendo-o ao público como um dos dois ou três mais importantes da atual temporada. Assisti-lo é estar por dentro, entendê-lo é estar por dentríssimo."
"Alice, Audácia e o nascimento da Boca do Lixo", texto de Reichenbach publicado na Folha em 30/09/1997: "Documento ou testamento, Audácia é pior que As Libertinas, ao buscar o fetiche do próprio umbigo. Meu episódio é um tributo underground à fase junkie de minha geração. Diálogos improvisados na hora da filmagem, muita câmera na mão, Jimmi Hendrix na cabeça, desbunde na frente e atrás das câmeras e um desprezo absoluto pelas convenções da narrativa cinematográfica. Curtição pura de difícil assimilação fora da época."
Com relação a isso, há controvérsias.
Pra tirar a dúvida, como já afirmei em outro lugar, está na hora de alguma distribuidora briosa lançar esse filme em edição lixo-luxuosa em DVD e Blu-ray. Cadê os caras da Criterion nessas horas? A Criterion é boa, só precisa de uma ajuda pra descobrir pérolas como essa no meio do lixão.
A Cinética está com nova atualização em que foi publicada uma entrevista concedida por Edgard Navarro, da qual participei junto com Fábio e Juliano. Além disso, vale conferir os artigos sobre outros filmes de Navarro e os textos sobre curtas brasileiros recentes.
Por ocasião da apresentação dos filmes de Reichenbach no festival de Rotterdam daquele ano, o crítico francês Louis Skorecki publicou esse texto no jornal Libération em 11 de fevereiro de 1985.
Ao clicar na imagem, ela se abre em tamanho maior numa nova página.
(essa é pra ninguém dizer que não dou bola pra crítica francesa).